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Estado de Minas CIêNCIA

Cafeína pode ajudar a tratar estresse pós-traumático, diz estudo

A descoberta foi realizada por cientistas brasileiros


postado em 29/06/2018 13:24 / atualizado em 29/06/2018 13:51

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)
A cafeína, presente no café, no guaraná e no chocolate, ainda é uma das substâncias mais controversas. Agora, cientistas brasileiros descobriram que esse componente muito associado ao estado de atenção pode ser usado para tratar transtorno de estresse pós-traumático. A pesquisa foi realizada em cobaias e deu bons resultados. Segundo os pesquisadores, a substância provoca alterações neurais que "desarmam" a memória, permitindo intervenções médicas. O trabalho foi publicado na revista científica Scientific Reports.

Para Lucas Alvares, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos autores do estudo, a intenção foi descobrir os mecanismos moleculares que estão por trás da formação da memória e como ela pode ser esquecida ou modificada. "Uma das nossas linhas de pesquisa é como mudar uma memória traumática em alguém que sofre com o transtorno pós-traumático", comenta o cientista em entrevista para o jornal Correio Braziliense.

O interesse pela cafeína surgiu de estudos anteriores que mostram as qualidades do composto para a saúde, além da experiência pessoal com a bebida. "Eu sou um grande admirador do café, me sinto bastante bem com o efeito da cafeína. E, olhando para a literatura [médica], vimos que ela tem um efeito farmacológico em potencial para 'atualizar' uma memória afetiva", diz Alvares.

O cientista, juntamente com sua equipe, provocaram traumas em roedores para criar memórias negativas, como as que ocorrem nesse transtorno. Para o tratamento do problema psicológico, as cobaias receberam doses de cafeína, aplicadas por meio de injeções, instantes antes de serem novamente expostas a situações traumáticas. Os cientistas avaliaram que os animais responderam bem ao tratamento.

Para a equipe, a cafeína "desarma" as memórias traumáticas, processo necessário para que possam ser alteradas. "Hoje, sabemos que a memória é mais dinâmica do que se pensava anteriormente. Podemos alterar o seu conteúdo, assim que ela é formada. Ela é fortalecida pelas sinapses, porém, o ato de lembrar faz com que fique vulnerável e possa ser alterada", explica o cientista ao Correio.

Ainda de acordo com Lucas Alvares, esse mecanismo se chama reconsolidação da memória, fenômeno pelo qual as lembranças podem ser modificadas permanentemente pela via da reativação. O pesquisador ilustra como a cafeína entraria nesse processo: "Ela poderia ser usada em uma sessão de terapia, como uma ajuda no processo de modificar a memória".

A quantidade de cafeína usada nos experimentos variou conforme o tipo de trauma. "Vimos que, quando a memória não era muito aversiva, uma só dose foi suficiente, mas, para memórias antigas, que seriam mais similares às do transtorno pós-traumático, foi necessário aplicá-la três vezes", detalha o professor da UFRGS.

Felizes com os resultados, os investigadores darão continuidade à pesquisa. O próximo passo será entender melhor os efeitos, no cérebro, dos receptores da adenosina, que são afetados pela cafeína.

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