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Estado de Minas CIêNCIA

Cientistas comprovam cruzamento entre humanos ancestrais

Estudo descobre relação entre neandertal e denisovano


postado em 23/08/2018 14:28 / atualizado em 23/08/2018 14:49

(foto: Pinterest/FranStock/Reprodução)
(foto: Pinterest/FranStock/Reprodução)
Há mais de 50 mil anos, na região das Montanhas Douradas do Altai, na Rússia, uma mulher e homem se uniram e deram origem a uma criança que morreu precocemente, aos 13 anos de idade. Graças à análise dos resos mortais da jovem russa milenar, os cientistas descobriram que seus pais pertenciam a espécies humanas distintas. A mãe era neandertal, e o pai, denisovano. Esses primos próximos do homem moderno se separaram de um ancestral comum há 390 mil anos e, por milhares de séculos, coabitaram a Eurásia. O estudo foi publicado na renomada revista Nature.

Já se desconfiava que, dividindo um continente por tanto tempo, neandertais e denisovanos teriam tido filhos juntos, muito embora os denisovanos provavelmente ficassem restritos à região onde hoje é a Rússia, pois jamais foram encontrados outros exemplares da espécie fora de lá.

A criança estudada por arqueólogos era do sexo feminino e, dela, só resta um pequeno fragmento de osso, com 2,5 cm, encontrado em 2012, na caverna de Denisova. Foi nesse local que os primeiros restos mortais do homem denisovano foram escavados e, por isso, ele empresta o nome à espécie, desconhecida até seis anos atrás.

"Sabíamos, por estudos prévios, que os neandertais e os denisovanos deveriam ter procriado, mas nunca pensamos que teríamos a sorte de encontrar um filho de verdade dos dois grupos", comenta Viviane Slon, pesquisadora do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, da Alemanha, responsável pelas análises genéticas que apontaram para as origens da menina, em comunicado enviado à imprensa. "Se tivessem me perguntado, eu teria dito que nunca encontraríamos isso. É como achar uma agulha no palheiro. E, então, nos deparamos com ela. Fiquei muito surpreso", diz Svante Pääbo, diretor do instituto.

Marcas no DNA

Segundo Fabrizio Mafessoni, também do Max Planck e coautor do estudo, o sequenciamento inicial do fragmento de osso indicou que a menina tinha genes neandertais e denisovanos, mas, nessa fase, o quebra-cabeça ainda não estava montado. "Esse indivíduo, que chamamos de Denisova 11, poderia ter quantidades equivalentes de genes neandertal e denisovano por ter pertencido a uma população com ancestralidade mista dessas espécies ou porque cada um de seus pais pertencia a um desses dois grupos", explica. Para determinar qual dos dois cenários se encaixava, os cientistas realizaram novos testes, que confirmaram a segunda hipótese.

Além do aspecto curioso dessa história e, claro, de se comprovar com um fóssil algo que já se desconfiava, Mafessoni destaca que a descoberta vai ajudar a entender mais sobre as duas populações – a família neandertal por parte de mãe, e a denisovana, por parte de pai. Segundo o pesquisador, a linhagem materna tem origem mais próxima do oeste Europeu do que dos neandertais que viviam perto da caverna de Denisova. "Isso mostra que os neandertais migraram entre oeste e leste da Eurásia dezenas de milhares de anos antes de desparecerem", aponta o cientista. Essa espécie foi extinta por volta de 40 mil a 50 mil anos atrás e, antes disso, conviveu com o Homo sapiens por um curto período – o suficiente para deixar sua marca no DNA do homem moderno.

As interações entre neandertais e denisovanos também foram poucas, mas marcantes o suficiente para deixar traços no genoma um do outro. O fato de o pai da criança que foi objeto desse estudo ter traços neandertais em seu DNA mostra que gerações antes da dele já haviam procriado.

Agora, os cientistas avaliam novos sedimentos da Caverna Denisova para tentar identificar traços de DNA que possam ajudar a descobrir quais diferentes grupos humanos utilizaram esse refúgio. Contando com a boa sorte que acompanhou o grupo até agora, Svante Pääbo já sonha com mais uma possibilidade: "Quem sabe não encontramos os pais da menina?".

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