
O espetáculo marcou época em Belo Horizonte em 2011, quando reuniu 11.700 espectadores em 12 apresentações e se tornou um dos maiores sucessos da 37ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. À época, a produção também simbolizou a consolidação de Minas Gerais no circuito das grandes montagens musicais do país. Agora, a obra baseada no texto de Sérgio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, com adaptação de Chico Buarque, retorna com nova leitura, sem abrir mão da ternura e da força poética que a tornaram um clássico.
“É uma grande produção que encantou o público em 2011 e irá emocionar a plateia em sua nova versão. Remontar esse espetáculo é como resgatar a poesia na vida e iluminar questões essenciais do nosso tempo. É um texto que remete a um futuro desejável”, afirma o diretor Carlos Gradim, responsável também pela criação do espetáculo.
A montagem reúne 16 atores e nove músicos em cena, além de uma equipe técnica e artística que ultrapassa 40 profissionais. “Belo Horizonte está sempre na rota dos grandes musicais, produzidos no Rio e São Paulo. Mas a cidade é carente de grandes produções locais. Em BH temos espetáculos cantados, mas não musicais com essa estrutura, que contempla direção musical, volume de corpos, atores e solistas”, observa Gradim.
A direção musical, os arranjos e a regência são de Rafael Martini; a direção coreográfica e a preparação corporal, de Eliatrice Gischewski; e a cenografia e os figurinos, de Márcio Medina. Sensível, lúdico e atemporal, o musical acompanha um jumento, um cachorro, uma galinha e uma gata que fogem de seus patrões em busca do sonho de se tornarem artistas.
Na leitura atual, temas como desigualdade, violência simbólica e etarismo ganham destaque. “A proposta é iluminar essas questões dentro do texto: a diversidade, o respeito, a igualdade e o direito à liberdade. O espetáculo fala do coletivo, da percepção do outro, de um futuro que precisa ser ressignificado agora. E a obra, quando chega nesse lugar, é encantadora”, sublinha o diretor.
A cenografia também foi atualizada a partir de elementos simbólicos. “O cenário foi ressignificado. Estamos trazendo uma grande cerca que será manipulada durantes as cenas, interagindo com os atores, como uma metáfora: a cerca é o que prende e o que separa, é aquilo que trava a possibilidade de união e liberdade”, explica Gradim.
Os figurinos originais de 2011 foram preservados e retornam à cena com pequenas adaptações e novas criações. “O figurino se mantém quase que o original, com pequenas adaptações e também novas produções para alguns personagens. Como os patrões, que na primeira versão foram representados pelos traficantes de animais, mas que reassumem o seu lugar no espetáculo e ganham características próprias. As cabeças dos personagens, que foram criteriosamente confeccionadas em 2011, também foram cuidadosamente preservadas, com rigor, e retornam nesta versão”, detalha o diretor.
O repertório musical permanece o mesmo, com canções executadas ao vivo pelos músicos e cantadas pelos 16 atores em cena. Três solistas da montagem original — Rose Brant, Regina Souza e Marcelo Veronez — retornam ao elenco, ao lado de Diego Roberto, que estreia como Jumento.
De volta ao papel da Gata, Rose Brant destaca o reencontro com a personagem sob outra perspectiva. “O desafio foi trazer para a cena toda a disponibilidade física que esse personagem exige, provando que a idade não é limitadora”. Segundo a atriz, a retomada do papel acontece com um novo olhar: “São outros tempos, em uma outra idade, que me aproxima mais da personagem, por estar vivenciando esse lugar: dá incapacidade e da limitação que a sociedade tenta impor às mulheres, após os 50 anos”.
Também presente na montagem original, Regina Souza retorna como Galinha e ressalta o amadurecimento da leitura cênica. “Foi um grande presente e, ao mesmo tempo, um grande desafio. A Galinha exige um corpo alongado, ágil, com muito tônus e resistência. Hoje, me divirto ainda mais com ela, e posso revisitar minha construção anterior trazendo uma renovação da minha própria percepção”. A atriz aponta ainda a atualidade do debate sobre etarismo: “Há 15 anos não se falava tanto sobre isso; no texto, a Galinha é chamada de velha e descartada”.
Marcelo Veronez revive o Cachorro e relata a permanência do personagem em seu corpo. “Rapidamente eu identifiquei rastros que me fizeram chegar naquela ideia que construímos para o Cachorro lá atrás, na primeira montagem. É claro que com algumas adaptações, pois o texto é atemporal e nos permite isso. Mas eu sinto que o personagem me abraçou em 2011 e que eu consegui abraçá-lo de volta, 15 anos depois”. Para o ator, o musical segue atual. “Os ‘Saltimbancos’ é muito importante para história do teatro brasileiro, é um grande clássico, que se mantém muito potente e atual, por trazer uma história comum, da busca pela liberdade e de uma melhor condição de vida. E essa é uma questão universal”.
Estreante na montagem, Diego Roberto assume o papel do Jumento e celebra a chegada ao elenco. “O Jumento é um personagem que me instiga e me coloca em estado de busca constante. É simples sem ser simplório, forte sem ser agressivo, e tem muitas camadas que tento desvendar a cada dia”. O ator completa: “Diferente dos meus colegas, que revisitam o extraordinário dessa história, eu acabo de chegar. É um privilégio dar vida ao personagem que conta essa narrativa, ainda mais construindo caminhos dramatúrgicos com artistas tão admiráveis”.
Musical “Os Saltimbancos” – reestreia. De 15 a 19 de janeiro; quinta, sexta e segunda, às 19h; sábado, às 11h e às 17h30; domingo, às 17h30. Grande Teatro do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537, Funcionários). Ingressos antecipados pelo Sinparc e pelo site vaaoteatromg.com.br. Preço único: R$ 25.