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CCBB BH recebe mostra sobre cultura dos memes e memeficação

Exposição reúne obras, fenômenos digitais e referências pop para discutir circulação e transformação dos memes


postado em 31/03/2026 08:54 / atualizado em 31/03/2026 10:35

Exposição é composta por cerca de 800 itens produzidos por 200 criadores do universo digital e artistas(foto: Gabriel Rocha/Estúdio Valente )
Exposição é composta por cerca de 800 itens produzidos por 200 criadores do universo digital e artistas (foto: Gabriel Rocha/Estúdio Valente )
Foi ainda na pandemia, durante o confinamento social, que o artista e curador Ismael Monticelli e a curadora Clarissa Diniz perceberam, em meio às conversas constantes que mantinham, pelo Whatsapp ou pelo Instagram, a intensidade com a qual os memes passavam a fazer cada vez mais parte da comunicação entre eles. "Esse imaginário, esse uso do visual parecia representar um pouco melhor o sentimento, as sensações, as angústias, enfim, as inquietações, que a gente tinha sentido. Então, desde aquele momento, foi ganhando força a vontade e a percepção de uma importância, talvez mesmo de responsabilidade do mundo das artes, da curadoria, de olhar com cuidado, com a atenção devida para esse imaginário visual, cultural e político, que talvez seja o mais presente, o mais importante da atualidade", contou Clarissa Diniz aos jornalistas presentes à visita guiada de apresentação da exposição "Memes: no Br@sil da memeficação", aberta no último dia 28 de março, no pátio e no andar 3 do CCBB.

Clarissa conta que, a partir daí, os dois foram amadurecendo a ideia e, após um bom tempo de pesquisas, chegaram à exposição que já passou pelo CCBB de São Paulo e de Brasília. "Cada um de nós tem uma história recente com os memes - às vezes mais, às vezes menos, mas é um universo familiar. Assim, é uma exposição que certamente tem uma dose de estranhamento um pouco menor que as de outras expressões de arte". No entanto, ela faz uma ressalva importante. "A mostra abraça não só o termo meme, mas, e principalmente, a ideia de memificação. O título traduz isso. Porque, na verdade, a gente não tem a intenção de dizer o que é meme, de definir o que é meme, mas, sim, prestar atenção ao processo pelo qual o os memes surgem, circulam, se contaminam, são continuamente reapropriados".

Lembrando, prossegue ela, que o processo social, cultural, político e estético que envolve, que dá vida, que transfigura eternamente o meme, é o que é chamado de memificação. "Portanto, é uma exposição muito interessada em tatear melhor (esse universo), em se aproximar da memificação enquanto um processo que está sempre em metamorfose", destaca uma das curadoras. "Afinal, o que a gente chama hoje de meme não é o que a gente chamava cinco anos atrás. E provavelmente não será como a gente chamará amanhã. Assim, dada essa alta vontade de transformação dos memes, a gente não estava tão interessado em definir o meme, mas em tomar mais pé da memificação como um processo coletivo, descentralizado, social. De vasta abrangência no contexto brasileiro, do mesmo que no mundial".

Portanto, complementa Ismael, a memificação é o coração dessa exposição. Clarissa toma mais uma vez a palavra. "E por isso o público vai ver que, aqui, a gente reúne não só memes no sentido tradicional, mas também fenômenos culturais, expressões culturais, acontecimentos políticos, obras de arte no sentido também mais tradicional, que, juntas, e principalmente, entrecruzadas nos seus diálogos, nas suas diferenças, nos chamam um pouco mais de atenção para a memeficação como um processo que acontece muito antes dos memes. Um processo que certamente se estenderá para além do que a gente  conhece hoje também".

Organizada em cinco núcleos temáticos – “Ao pé da letra”, “A hora dos amadores”, “Da versão à inversão”, “O eu proliferado”” e Combater ficção com ficção” – a exposição apresenta ainda o prólogo tátil “Alisa meu pelo” e o epílogo “Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?”. A partir desses eixos, a mostra propõe a reflexão sobre como a chamada “memeficação” atravessa não apenas as redes sociais, mas também a política, a publicidade, a arte e as relações cotidianas.

Ao todo, o público vai se deparar com cerca de 800 itens produzidos por 200 criadores do universo digital e artistas. Trabalhos de nomes consagrados da arte contemporânea brasileira, como Anna Maria Maiolino, Gretta Sarfaty, Nelson Leirner e Claudio Tozzi, aparecem ao lado de criadores cujo sucesso adveio do universo digital, como Porta dos Fundos, Alessandra Araújo, Melted Vídeos, John Drops e Greengo Dictionary.

Vale lembrar que o pátio do CCBB BH foi invadido por onças, pensadas para relembrar o meme “Alisa meu pelo”, que despontou em 2017, a partir da onça-pintada da nota de R. Na ocasião, a legenda “alisa meu pelo (onça carente)” viralizou ao ressignificar a onça não como ícone de virilidade, mas como símbolo afetivo, carente e próximo. Como lembra a apresentação da mostra, "ao se difundir, o meme passou a comentar o próprio Brasil de forma leve e zombeteira, ativando uma produção simbólica popular e participativa". No pátio, há uma onça enorme, inflável, assim como outras de pelúcia e mesmo um grande pufe, onde o visitante pode se refestelar. Participaram da criação das onças os artistas José Francisco Afrânio, Jorge Gomes e Vinicius Vaitsmann.

Já nas galerias, há muitos pontos instagramáveis, com destaque para a representação da Carreta Furacão, um ícone da cultura pop brasileira. Outro ponto interessante são os desenhos que foram fruto da iniciativa Mickey Feio, "concurso mundial que valoriza inabilidades gráficas". O dress code do esquerdo macho, do Faria Limers e dos Red Pill também chama bastante atenção. A exposição tem patrocínio da BB Asset, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).

Serviço
MEME: no Br@sil da memeficação”
Visitação de quarta a segunda, das 10h às 22h, até 22 de junho.
Galerias do 3º andar e Pátio do CCBB BH (Praça da Liberdade)
Entrada gratuita, com retirada prévia de ingresso no site, na bilheteria ou nos totens do espaço

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