
A montagem propõe uma homenagem ao legado de Ângelo Machado, falecido em 2020, reunindo aspectos de sua trajetória como médico, escritor, zoólogo, ambientalista e professor. Com texto e direção de Jair Raso, o espetáculo aposta na autoficção e na metalinguagem. Na trama, Angelin precisa montar uma peça sobre a própria vida para conseguir entrar no céu. Para isso, conta com a ajuda de três figuras importantes de sua trajetória: Carlos Nunes, Jota Dângelo e Mamélia Dornelles.
A encenação costura diferentes momentos da vida de Ângelo Machado, como a criação do Show Medicina ao lado de Jota Dângelo, o interesse pela glândula pineal e pelas libélulas, além de sua produção literária e o relacionamento com a esposa, Conceição.
No elenco, além de Carlos Nunes — que assume o desafio de interpretar a si mesmo e o próprio homenageado —, estão Carolina Cândido e Diego Krisp. A ficha técnica reúne nomes da cena mineira, como Suely Machado (Primeiro Ato), LOR e o músico Rodrigo Borges.
Segundo Carlos Nunes, a adaptação da trajetória de Ângelo Machado para o palco carrega também uma dimensão afetiva. “Tem uma frase do professor que diz: ‘A vida sem humor não tem a menor graça’. Creio que não teria outra forma de homenageá-lo senão com humor e alegria. Sempre fiz piadas comigo mesmo e vejo isso claramente nas falas dele”, diz o artista, que completa: “Quando fizemos juntos a adaptação do livro ‘Como sobreviver em festas e recepções com buffet escasso’ para o teatro, em momento algum tivemos conflitos. Tínhamos tardes inteiras de boa prosa, sempre regadas à humor. Eu creio que o meu humor se parece muito com o dele. Acho mais fácil representar o professor do que a mim mesmo”.
Para Jair Raso, o legado de Ângelo Machado ultrapassa sua obra e se manifesta nas pessoas que formou ao longo da vida. “Uma das facetas que mais admiro no Ângelo é transformar uma adversidade em vantagem usando como ferramenta o humor. O humor de seus textos é apenas a parte mais conhecida, mas ele utilizou-se, por exemplo, da autozombaria para driblar as limitações físicas provocadas por sua miopatia. Para mim, Ângelo Machado é um grande brasileiro, um grande personagem de nossa história”, destaca.
A montagem também incorpora recursos tecnológicos à cena, como projeções criadas por Inteligência Artificial em painéis de LED e o uso de live cinema, com captação de imagem ao vivo. Ainda assim, o diretor reforça o protagonismo do trabalho do ator. “Costumo dizer que a tecnologia é apenas embalagem. Neste espetáculo, ela é essencial para permitir o desdobramento dos papéis do Carlos Nunes e projetar a pineal e o paraíso na visão de Ângelo Machado. Há também um personagem-luz. Tudo isso tendo como base o ator e o texto teatral”, afirma.
A cenógrafa e diretora do Instituto Cultural Ciências Médicas, Andrea Raso, destaca que o espetáculo dialoga diretamente com os pilares da instituição. “Um dos pilares do Instituto Cultural Ciências Médicas é justamente fomentar a arte, difundir o conhecimento e preservar a memória. O espetáculo é uma síntese disso. A forma como Ângelo elegeu o humor como mecanismo para realizar a dificílima tarefa de tornar fácil o que é difícil. Assim foi com a neuroanatomia, com a ecologia, com a dramaturgia e, principalmente, com a vida. Essa estreia nos apresenta um personagem que cultiva a curiosidade e o amor pelo que faz, num entrelaçamento das múltiplas escolhas. E convenhamos, não há nada mais eficiente do que amar”.
Um dos eixos centrais da montagem é o Show Medicina, grupo teatral criado em 1954 por Jota Dângelo, então estudante da Universidade Federal de Minas Gerais. O coletivo é um elo entre o homenageado e o diretor, que também construiu carreira conciliando medicina e teatro.
“O Show Medicina é um dos grandes movimentos da cena teatral mineira há mais de 70 anos. Mas sua importância é maior na formação médica do que propriamente na cena teatral mineira, pois é uma poderosa ferramenta pedagógica desenvolvida, aprimorada e executada pelos próprios estudantes”, comenta Jair Raso.