
A trama acompanha dois algoritmos pré-históricos do futuro que envelhecem em uma cápsula à deriva, um mausoléu digital que orbita os escombros da memória. A partir desse cenário, a peça combina elementos visuais e sonoros para discutir memória, envelhecimento e os impactos das transformações tecnológicas sobre a experiência humana.
Segundo a atriz Neise Neves, uma das fundadoras da Pierrot Lunar, o espetáculo nasceu da vontade de discutir o percurso de uma geração que atravessou profundas mudanças tecnológicas e sociais. "Nós percorremos uma trajetória que vai de um tempo ao outro com profundas mudanças no percurso. Passamos pelo carro sem cinto de segurança, pela fita cassete, e de repente tivemos que aprender a deixar fotos na nuvem. O espetáculo busca entender o que será o percurso a partir de agora", explica Neise. "Mais do que falar diretamente de envelhecimento, queremos falar do percurso a partir de agora. As personagens tentam burlar o tempo, achando uma maneira de deixar algo que comprove que estiveram ali".
A atriz afirma que a ideia surgiu quando os integrantes da companhia chegaram aos 50 anos e sentiram o desejo de abordar as experiências de sua própria geração. A canção Quero Ser Locomotiva, de Jorge Mautner, também serviu de inspiração para a criação. “Queríamos falar da nossa geração. Nós, com um pouco mais ou um pouco menos de 50 anos de vida, passamos por essa transformação. O espetáculo busca trazer tudo isso não como uma coleção nostálgica do passado em detrimento do presente, mas sim em busca do que será o amanhã. Fomos nos inspirando em pessoas que admiramos, em situações vividas por nós e por indivíduos próximos, mas também de olho no contexto político, histórico, tecnológico e social que atravessa essa geração 50+”, comenta o ator Léo Quintão.
Segundo ele, os conflitos vividos pelos personagens dialogam diretamente com experiências compartilhadas pelo público. “O conflito, mais do que estar entre as duas personagens – aqueles cinquentões – está para com eles mesmos e sobre o que foram, o que imaginaram ser e o que realmente se tornaram, para entenderem como serão daqui para frente. Em algum momento da história, as personagens tentam lembrar qual o momento em que tudo começou a degenerar no mundo e percebem, a cada dia, que continuamos nos degenerando, porque não aprendemos com a memória, com a história. Uma delas diz: ‘Tem coisa que a gente não gosta de lembrar, mas não pode esquecer’”, explica Neise Neves.
Esta é a primeira colaboração da diretora Lydia Del Picchia com a companhia. Para ela, o teatro oferece um espaço privilegiado para discutir temas ligados ao tempo e às transformações humanas: "o teatro é o lugar da imaginação, da criação de mundos, e exige de nós uma observação aguda do outro e de nós mesmos, uma espécie de empatia compulsória", afirma. No entanto, segundo ela, a obra passa longe de ser uma distopia pessimista. "Nossa locomotiva está numa encruzilhada onde é possível olhar para trás sem nostalgia, e para frente com a perspectiva de quem é dono dos próprios desejos. Não é uma peça sobre idade, é sobre viver", afirma.
A diretora também destaca que o processo criativo partiu das experiências compartilhadas pelos integrantes da geração retratada na peça. “Inicialmente falamos muito dessa (nossa) geração que assistiu a muitas transformações – sociais, tecnológicas, políticas, artísticas – que viu nascer o celular, mas viveu muito intensamente na ausência de redes sociais, e que riqueza foi isso. Mas não há julgamento sobre o que é melhor ou pior, e sim uma perplexidade na observação da velocidade do que ainda se transforma, do quanto ainda há para ser feito. Essa peça foi – e ainda está sendo escrita – como uma carta, um registro, um documento, um testemunho do que vivemos, e de que vivemos, a partir de um determinado ponto de vista: a nossa observação sobre o mundo e sobre o tempo, que corre e nos leva com ele”.
Serviço
Cia Pierrot Lunar estreia o espetáculo "Eu quero ser uma locomotiva"
Temporada: 3 a 27 de julho de 2026, sexta a segunda-feira, às 20h
Local: CCBB BH – Teatro I
Sessões com intérprete de Libras: 11 (sábado) e 25 de julho (sábado)
Bate-papo após o espetáculo: 06 de julho (segunda) e 24 de julho (sexta)
IIngressos para os espetáculos no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH, a R e R (meia-entrada)