
Em entrevista à Encontro, Raquel fala sobre a força da repetição na construção de um ícone, a transição do grafite para o espaço expositivo e o desejo de provocar, por alguns instantes, um desvio na rotina de quem cruza o caminho do personagem.
Depois da exposição, Raquel vai doar uma obra ao acervo da Fundação Clóvis Salgado. Antes, no dia 15 de agosto, haverá uma programação especial com discotecagem de Raphael Bravin e pintura ao vivo realizada por Raquel Bolinho e Kdu dos Anjos. Outra novidade da exposição é a interpretação do Bolinho em forma de esculturas em cerâmica produzidas pela artista Marlouce Temponi.
Depois de 17 anos espalhando o Bolinho pelas ruas, em que momento você percebeu que ele havia deixado de ser um personagem para se tornar parte da identidade visual de BH?
É difícil entender a relação das pessoas com o Bolinho e como ele é visto como um ícone, uma identidade de Belo Horizonte, porque eu comecei a fazê-lo sem nenhuma pretensão. Ainda penso no Bolinho como algo que eu estou fazendo por mim, para me desestressar, para me expressar. É complicado ver como as pessoas o enxergam. Comecei a pensar mais sobre isso recentemente, principalmente para a exposição. Fui buscar o que faz uma imagem ser um ícone, o que transforma um desenho em algo além. Acho que essa exposição de 17 anos me fez refletir e começar a ver o Bolinho de uma outra forma. Imagino que quando a pessoa encontra um Bolinho em seu caminho, seja indo para a escola e para o trabalho, é a mesma coisa quando a gente encontra alguém aleatoriamente na rua, alguém que a gente gosta, para ali, troca dois minutinhos de conversa e isso melhora o nosso dia. Tenho a impressão de que as pessoas veem o Bolinho assim. Ao vê-lo, você se identifica com uma frase, com traços do desenho ou aquilo lhe traz uma memória. E isso vai mudar seu pensamento e o tira do cotidiano, das contas, dos problemas. Acho que o Bolinho tem esse papel. Fora que a imagem repetida durante esses 17 anos, várias vezes e em vários lugares cria uma sensação de segurança, de familiaridade, de que as coisas estão mudando, mas o Bolinho continua lá.
Depois de quase duas décadas, Bolinho sem mantém fresco, atual. Qual o segredo?
O Bolinho tem um papel quase de cronista, porque ele sempre é muito atual. Então, se tem um assunto que está todo mundo falando, um meme, uma notícia, o Bolinho vai fazer criar uma referência. Acredito que nesses 17 anos ele foi, com essas imagens e desenhos pela rua, contando um pouco da história de tudo que está acontecendo. Isso o faz se manter atual e ainda jovem, mesmo com todo esse tempo pelas ruas.
Como está sendo levar um personagem nascido no grafite para dentro do Palácio das Artes, um templo da cultura e da arte mineira?
Quando rolou a oportunidade de fazer uma exposição no Palácio das Artes, foi quase inacreditável. Eu não tinha pretensão de trabalhar com Bolinho e nem ser uma artista. Pensar que eu cheguei em um espaço tão importante para a arte mineira, é difícil de acreditar. Até o último momento que eu fui postar e falar com as pessoas da exposição, ainda parecia que não era real. Estava com medo daquilo ser mentira porque parecia algo tão incrível. Estou superfeliz com essa oportunidade. Acho que é a chance de mais pessoas conhecerem meu trabalho e é isso que eu sempre quis desde o começo. Estou ansiosa para saber qual vai ser a resposta à exposição.

De 2009 para cá, quando comecei a pintar, acho que era muito mais difícil ser grafiteiro. A relação das pessoas com o grafite nesse tempo mudou bastante, ele foi mais aceito por diversas questões. Hoje, você entra numa loja e tem blusas com estampas que parecem grafite, parecem spray, assiste uma novela e tem ali um grafiteiro. Acho que essas coisas foram abrindo portas para o grafite de alguma forma, mas ainda tem muita a se rever, principalmente em relação às leis, às punições do grafite, a questão do poder da prefeitura de, constantemente, apagar os grafites que são feitos. Ainda é um caminho longo para o grafite ser, definitivamente, visto como arte.
Como foi escolher como personagem o desenho de um bolinho? Como surgiu a ideia?
O mineiro tem a fama de ser desconfiado, mas nosso ponto forte é espírito acolhedor. De se dispor a parar e conversar com quem você não conhece na rua, tomar um café, trocar uma ideia e conversar com o vizinho. Todas essas coisas nos fazem receptivos às outras pessoas, mesmo àquelas que não conhecemos. Pensei em um bolinho com esse espírito mineiro para começar, com um sorriso enorme. Um sorriso que recebe e alegra. Minas tem ligação forte com a comida. Passar um café e chamar uma pessoa para comer um pedaço de bolo é uma forma de carinho, de demonstrar amor. Então, o Bolinho é a nossa cara em forma de carinho, comida e pintura.
Você tem o retorno do carinho dos mineiros com o Bolinho?
Sim, e é muito legal. As pessoas são protetoras com o Bolinho. Se apaga uma pintura, se rabisca uma pintura, qualquer coisa que acontece com ele, muito rapidamente eu recebo notícias pelo Instagram, pela internet. Essa proteção é uma demonstração de carinho. Acredito que as pessoas o veem com amor, com cuidado e sempre com mais vontade de ver mais bolinhos pela rua. É gratificante.
O Bolinho já apareceu na Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Argentina e Holanda, mas continua sendo fortemente associado a BH. O que torna essa conexão com a cidade tão especial para você?
Todas as vezes que eu pintei o Bolinho em outros estados, outros lugares, acho que as pessoas se sentiram orgulhosas de vê-lo viajando. E mesmo que seja só um Bolinho sem nada demais, ele já é uma representação nossa em um outro lugar, sabe? Gosto sempre de colocar alguma coisa que tenha a cara de BH ou a cara de Minas nas pinturas fora daqui, exatamente para as pessoas verem o Bolinho em outro lugar e terem a memória daqui, sejam as que vão ver pessoalmente ou as que vão ver essa imagem pela internet. Elas vão saber que são representadas pelo Bolinho onde quer que estejam.
A arte na rua é efêmera por natureza, já que vive no espaço público e muda com o tempo, o clima e as ações das pessoas.
Já imaginou a cidade sem o Bolinho?
A cidade sem Bolinho perderia um pouco da vida. O Bolinho tem a capacidade de humanizar alguns espaços. Quando ele é visto no meio de um viaduto, você vai se lembrar que uma pessoa passou por ali, sabe, você humaniza esse lugar. Espero não ver uma cidade sem bolinhos porque ele traz vida.
Depois de transformar o Bolinho em um verdadeiro “habitante” da cidade e agora apresentá-lo em uma grande exposição, qual o próximo capítulo desta história?
É difícil pensar num próximo sonho, porque o Bolinho já conquistou muito mais do que eu imaginava. Porém, gostaria de estar em mais hospitais e escolas. Se eu pudesse deixar um Bolinho em todos estes espaços, de Belo Horizonte e no interior, seria muito legal. Acredito que a presença do Bolinho nestas instituições faz muita diferença para quem ocupa estes lugares.
Como deseja que as pessoas ou a cidade retrate o Bolinho daqui a anos?
Espero que daqui a 20, 30 anos as pessoas ao encontrarem um Bolinho tenham uma memória com ele. Lembrando alguma coisa que passaram juntos, que tenham alguma história para contar, enfim, que tenham construído momentos. Já é muito bonito ver que o Bolinho faz parte da vida das pessoas tão ativamente. Então, espero que a pessoa o encontre e fale: ‘nossa, você lembra lá em 2026 quando fomos juntos naquela exposição do Palácio das Artes?” Desejo que guardem uma memória bonita com a presença do Bolinho.
Em uma conversa com o Bolinho, o que falaria para ele?
Eu teria só que agradecê-lo por ter mudado completamente minha vida. Não só em relação à minha profissão, por me tornar uma artista, mas porque ele me fez sentir acolhida e me fez sentir amada. Acredito que por causa do Bolinho, as pessoas têm um carinho muito grande comigo também, e acho isso extremamente emocionante. Sei que o Bolinho tem um papel legal na vida de muitas pessoas, mas na minha, principalmente, ele foi extremamente importante para que eu pudesse ver a vida com outros olhos.
Serviço
Evento: Exposição “Habitante – Registros de um bolinho pela cidade”
Local: PQNA Galeria Pedro Moraleida – Palácio das Artes ((Av. Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Data: de 12 de agosto a 13 de setembro
Horário: de terça-feira a sábado, de 9h30 às 21h; domingo de 17h às 21h
Ingresso: entrada gratuita, sem necessidade de retirada prévia de ingressos.
Classificação indicativa: livre
Realização: a exposição "Habitante – Registro de um bolinho pela cidade” é realizada pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Clóvis Salgado em um projeto com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte que conta com patrocínio da Bs2.