Queijo artesanal da Serra da Mantiqueira poderá ser regulamentado

O produto do tipo parmesão é fabricado na cidade mineira de Alagoa

por Encontro Digital 07/08/2017 09:57

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Queijodalagoa.com.br/Reprodução
Apesar de ser chamado de "tipo parmesão", o queijo artesanal produzido em Alagoa, na Serra da Mantiqueira, em Minas, não possui tempo de maturação regulamentado (foto: Queijodalagoa.com.br/Reprodução)
O queijo produzido na cidade de Alagoa, que fica na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, poderá ser regulamentado. Esse é o projeto da Embrapa Gado de Leite (MG), em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). O Brasil produz um milhão de toneladas de queijo por ano, e um quinto desse total é feito artesanalmente, com leite cru – que não passou pelo processo de pasteurização. Boa parte do queijo artesanal brasileiro é vendido informalmente, pois falta ao produto o registro nos serviços de inspeção sanitária, seja municipal, estadual ou federal. É o caso do queijo artesanal produzido em Alagoa, principal fonte de renda da cidade e uma iguaria apreciada por consumidores de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo.

Com a regulamentação, o produto estará apto a receber o selo de inspeção estadual emitido pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). Segundo a pesquisadora Maria de Fátima Ávila Pires, coordenadora do projeto, que envolveu 25 profissionais, o primeiro passo foi caracterizar o sistema de produção. Os pesquisadores da Embrapa selecionaram 30 produtores, identificando-os do ponto de vista econômico e social. "Traçamos o perfil do produtor alagoense e resgatamos os aspectos históricos e culturais da produção do queijo no município", conta a pesquisadora.

Entre as contribuições do trabalho está a de estabelecer um protocolo de maturação para o queijo, que ainda não conta com um prazo definido para essa etapa de produção. Os pesquisadores também fizeram diversos estudos que envolveram o solo e a água da região (aspectos físicos, químicos e microbiológicos), a alimentação das vacas e as análises do leite e do queijo.

Esses estudos incluíram o levantamento de informações sobre o processo de produção do leite e a fabricação do queijo, caracterizando o "saber fazer" da comunidade, ou seja, como os alagoenses construíram as tradições que resultaram no modo próprio de fazer seu queijo artesanal.  "Reunir essas informações em um documento é uma das exigências do IMA para a regulamentação do queijo artesanal", explica a laticinista Marciana de Souza Lima, da Emater-MG.

Tipo parmesão

Município de 2.700 habitantes, a 447 km da capital mineira, Alagoa é conhecida como a "terra do queijo parmesão". Tal designação, no entanto, é incorreta, segundo os especialistas. Parmesão é um tipo de queijo italiano, com Denominação de Origem Protegida (DOP). Para receber esse nome, o queijo precisa ser produzido nas regiões de Parma, Régia Emília, Módena, Bolonha ou Mântua. Por possuir algumas similaridades com o queijo italiano, o de Alagoa pode ser considerado como "do tipo parmesão". Ambos são produtos artesanais, feitos com leite cru e a massa passa por um processo semelhante de aquecimento na produção. Mas, as semelhanças param por aí. No parmesão, o período de maturação, também chamado de "cura", precisa durar no mínimo 12 meses (alguns ultrapassam dois anos). Já o queijo alagoense não possui um padrão de maturação, alguns são vendidos após apenas cinco dias de cura, o que interfere na qualidade do sabor. "Essa é uma prática que tem que ser mudada. É preciso estabelecer um padrão de maturação", afirma Júlio César Seabra, técnico da Emater-MG. Este é, também, um dos focos da pesquisa.

Estabelecer padrões é como a tradição, leva tempo. O queijo parmesão precisou de 800 anos para conquistar a fama que tem hoje em todo mundo, mas o produto alagoense caminha para isso e está perto de completar 100 anos. A fabricação de queijos surgiu em Alagoa nos anos 1920, quando um italiano de nome Paschoal Poppa chegou à cidade e abriu o primeiro laticínio. Ele viu no queijo curado, característico da região de Parma, o produto ideal para aquela cidade no alto das montanhas, cujo clima lembrava o da Itália. Por ser um tipo de queijo menos perecível, ele se adequava aos períodos em que a cidade ficava isolada. O produto era transportado no lombo de burros, em formas de bambu, e na época das chuvas era praticamente impossível descer pelas precárias estradas da região para levar a produção até os mercados urbanos.

Apesar das diversidades, o negócio foi prosperando. Poppa trouxe um queijeiro de fora do estado para trabalhar no laticínio. Esse queijeiro acabou se casando com a filha de um coronel da região, Porfírio Mendes Filho, que, por influência do genro, investiu na abertura de cinco laticínios. Os agricultores da região migraram para a pecuária de leite, atendendo à demanda das queijarias. Passado algum tempo, os grandes laticínios fecharam, mas os pecuaristas já haviam assimilado a cultura das queijarias e passaram a produzir, eles mesmos, o próprio queijo. É nessa época que o fermento, o que dá o sabor diferenciado do queijo da região, segundo os alagoenses, foi compartilhado entre os produtores.

A pesquisa da Embrapa contabilizou 130 queijeiros produzindo o "parmesão alagoense". Os produtores são de base familiar, com a produção variando de cinco a 50 kg de queijo por dia. As fazendas são pequenas, com cerca de 18 hectares, e o relevo acidentado da Serra da Mantiqueira limita o uso de pastagem. Capim verde picado, cana-de-açúcar, silagem de milho e concentrado representam boa parte da alimentação das vacas. O rebanho é predominantemente mestiço (Holandês/Gir Leiteiro), com ordenha média de 15 l por vaca por dia. A produção média de leite em Alagoa é de 150 l/dia por propriedade.

(com Embrapa Notícias)

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