Estilistas mineiros fazem sucesso no tapete vermelho

As grifes mineiras que conquistaram famosas de todo o país graças a seus vestidos de festa com caimento perfeito e ricos bordados

por Carolina Daher 09/08/2016 15:19

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Gustavo Andrade/Encontro, João Sal e Bárbara Dutra/Divulgação
(foto: Gustavo Andrade/Encontro, João Sal e Bárbara Dutra/Divulgação)
Uma por uma, as pérolas pequeninas vão tomando conta da renda. Com movimento ágil e certeiro, as mãos da bordadeira plantam no tecido flores de pedras, cristais e vidrilhos. Muitas vezes, o trabalho atravessa noites a fio, já que alguns vestidos levam até dois meses para ficarem prontos. Talvez esteja aí, na poesia do feito à mão, o encanto que a moda festa mineira exerce sobre todo o país. Somos referência quando o assunto é tapete vermelho. "Alguns acham que esse nosso fascínio pelo bordado é herança do barroco. As pedras, o ouro e o brilho estão em nosso DNA. Não temos medo do exagero", diz Carla Mendonça, professora de história da moda da Fumec. "Enquanto o Rio tem moda mais relax e São Paulo aposta no urbano, nós fazemos como ninguém a moda festa."

Consumidoras de todo o país vêm a Belo Horizonte atrás dos vestidos com os quais vão reinar em formaturas, casamentos e bailes de debutantes, ou seja, nos tapetes vermelhos nacionais. "Tem gente que pega um avião com uma lista de marcas para visitar em um só dia, porque sabe que em BH vai encontrar o vestido perfeito para qualquer evento", diz Georgiana Mascarenhas, de 42 anos, diretora de criação da Barbara Bela, que atende principalmente mulheres vindas de Brasília, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás e do interior mineiro. Ela tem uma loja aqui e outra em São Paulo. Na casinha rosa incrustrada no meio de Lourdes, fica uma infinidade de modelos longos, curtos, bordados, estampados. A cada coleção são criadas pelo menos 110 peças-referências, sendo 95% vestidos – com preços que variam de 1.900 a 12.900 reais. A Barbara Bela é uma das pioneiras no mercado e conquistou gente famosa, como as atrizes Tais Araújo, Juliana Paes, Carolina Dieckmann e a apresentadora Luciana Gimenez. Fundada pela mãe de Georgiana, Helen de Carvalho, de 73 anos, ela está no mercado há mais de quatro décadas. Desde o início, a marca apostou em um estilo romântico, usando linho e entremeios de rendas. Mais tarde, entrou o bordado com pedrarias. Muito envolvida com o mercado, Helen também foi uma das integrantes do Grupo Mineiro de Moda, responsável por colocar a capital mineira no mapa da moda nacional.

Lu Prezia/Divulgação e Instagram/Reprodução
(foto: Lu Prezia/Divulgação e Instagram/Reprodução)
Eram os anos 1980 e um grupo de 10 estilistas criou uma associação de moda em Belo Horizonte, acreditando que a união poderia garantir visibilidade a seus trabalhos Brasil afora. Foram vários desfiles ao longo de 20 anos. Alguns chegavam a custar 200 mil dólares, uma verdadeira fortuna à época. No inverno de 1988, por exemplo, 150 modelos desfilaram pela Praça da Estação, no meio da plataforma ferroviária. Na última performance do grupo, em 1994, modelos recebiam hóstias e as jogavam pelo chão em frente à igreja São Francisco de Assis, na Pampulha. "Eles abriram as portas para as novas gerações de estilistas mineiros", afirma Carla Mendonça.

O Grupo Mineiro de Moda foi o embrião de todos os movimentos que surgiram no setor desde então, inclusive o atual Minas Trend, que atrai compradores de vários estados. Um dos maiores nomes do Grupo Mineiro, o estilista Renato Loureiro estava na linha de frente  quando, em 2007, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) resolveu criar o então Minas Trend Preview. "O evento aconteceu em novembro, antes das outras mostras do país. Muitas marcas, então, levaram vestidos para as festas de final de ano. Os compradores enlouqueceram e fizeram as encomendas para serem entregues 15 dias depois", conta Renato. A notícia se espalhou. No ano seguinte, muitos lojistas já chegaram a BH procurando pelos vestidos para o réveillon. "Mesmo as marcas que não faziam esse tipo de roupa acabaram desenvolvendo uma linha festa", diz Renato.

Uma dessas marcas era a Mabel Magalhães, que também fez parte do Grupo Mineiro de Moda. Tendo como uma das características a alfaiataria, a grife foi fundada há 38 anos por Mabel. Sempre teve como alvo principal uma mulher feminina e sofisticada. Nas araras da loja de 400 metros quadrados, no Funcionários, as clientes encontram de roupas para o dia, tubinhos e camisas, até vestidos fluidos de seda ou inteiramente rebordados. Hoje comandada pela filha da fundadora, Claudia Magalhães, de 46 anos, a empresa resolveu focar na consumidora final, deixando de vender no atacado. "A nossa ideia foi resgatar o atendimento de ateliê, o mais personalizado possível", diz Claudia. "Eu tenho a obrigação de dar continuidade ao trabalho no qual minha mãe sempre acreditou. Padrão de qualidade, bom acabamento e modelagem perfeita. É isso que nos faz diferentes." Ela chega a fazer 220 modelos por coleção, com preços que variam de 400 a 8.900 reais. "Roupa com bom corte não acaba, atravessa os anos", diz ela. Entre suas clientes famosas estão as atrizes Andreia Horta, Claudia Ohana e Agatha Moreira, além da cantora Claudia Leitte.

Alexandre Rezende/Encontro e Instagram/Reprodução
(foto: Alexandre Rezende/Encontro e Instagram/Reprodução)
Foi no salão de festa localizado ao lado da garagem de sua casa, no São Bento, que Elisabeth Faria, de 54 anos, fundadora da Vivaz, começou a criar seus vestidos. "Ela desenhava e mandava fazer suas próprias roupas. As amigas amavam e, assim, surgiram as encomendas", conta Camila Faria, de 31 anos, herdeira de Elisabeth e atual diretora criativa da marca. Em 1998, a empresária abriu sua primeira loja em Lourdes, e não parou mais. Grife eleita por celebridades como as apresentadoras Sabrina Sato, Adriane Galisteu e as atrizes Camila Pitanga, Giovanna Ewbank, Fiorella Mattheis e Deborah Secco, a Vivaz hoje funciona em uma fábrica de 1.700 metros quadrados, onde faz vestidos para abastecer mais de 60 pontos de vendas espalhados pelo país. Além da loja própria em Belo Horizonte, a marca se prepara para abrir, em setembro, sua primeira filial na Oscar Freire, a meca do luxo na capital paulista. "Mais do que expandir, hoje nosso principal ideal é trabalhar o lado luxo, exclusivo. Queremos transformar cada vez mais a Vivaz em objeto de desejo", completa Camila. Há um ano e meio, ela abriu a segunda marca, a Viva, com uma moda mais casual. Com vestidos que variam de 3.500 a 15 mil reais, a Vivaz aposta em uma moda festa mais moderna, sem muitos exageros. "Nosso forte é a modelagem e nossa roupa é mais limpa", conta. No bordado, vale de tudo: dos tradicionais canutilhos, vidrilhos e miçangas até linha de crochê e ráfia (fibra de palmeira transformada em frio).

Se estampa não é o forte da Vivaz, é o que define as criações de Victor Dzenk, de 48 anos. Reconhecido como um mestre na área de estamparia, ele tem uma equipe para criar desenhos exclusivos em sua fábrica, em Lagoa Santa. "A mulher que veste a marca tem uma identidade forte, não tem medo de ousar nas cores. Ela não quer passar batido em um evento", afirma. Suas peças custam entre 150 (um lenço) e 6 mil reais. Com lojas próprias em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, o estilista define sua moda como uma fusão do espírito das duas cidades. "Tem o ar da montanha, mas também um spray litorâneo. É chique, mas descolada", diz ele, eleito queridinho de estrelas como a apresentadora Ana Hickmann e as atrizes Paola de Oliveira, Cleo Pires e Luiza Brunet. Com o tal miniwedding – ou seja, casamentos menores, voltados para amigos e normalmente realizados em casa, na praia ou fazenda – em alta, Victor viu as encomendas de vestido de noiva crescerem muito nos últimos quatro anos. Atualmente, faz cerca de um por mês, com preços que começam em 10 mil reais. "Os meus vestidos são mais leves, esvoaçantes. Quando vejo que a noiva deseja uma roupa para catedral, muito armada e estruturada, indico outro estilista", diz ele, que assinou o look da empresária mineira Ana Gutierrez em seu casamento em Trancoso, em 2012. No momento, Victor está fazendo 25 vestidos para madrinhas de um mesmo casório. Todos em dois tons de nude. "A tendência americana de ter um altar monocromático está chegando ao Brasil", diz. "As fotos ficam mais bonitas."

Gustavo Andrade/Encontro e Instagram/Reprodução
(foto: Gustavo Andrade/Encontro e Instagram/Reprodução)
Já dizia Coco Chanel (1883-1971) que "a moda sai de moda, o estilo, jamais." No vai e volta de tendências, algumas coisas são eternas. Bom corte, materiais de primeira linha e acabamento perfeito fazem algumas peças se tornarem verdadeiras obras de arte. "Minas tem tradição de fazer roupas sofisticadas", afirma o presidente da Câmara da Indústria do Vestuário e Acessórios de Minas Gerais, Flávio Roscoe. A moda festa é apenas a face mais reluzente de um mercado poderoso. Somente no estado são 7.200 companhias do ramo, que empregam, juntas, cerca de 111 mil pessoas e faturam mais de 2,5 bilhões de reais por ano, segundo dados do Sindicato das Indústrias dos Vestuários de Minas Gerais. Para Flávio Roscoe é um número que tende a crescer. "A fama de alguns estilistas acaba estimulando novos profissionais a se espelharem nesse sucesso e abrirem suas próprias marcas."

Da nova geração destaca-se Patrícia Bonaldi, de 35 anos, que começou na moda de um jeito surpreendente. Morando em Uberlândia, a 470 quilômetros da capital, ela largou a faculdade de direito e resolveu investir em um negócio próprio. Abriu então uma loja multimarcas. "Mas aos poucos percebi que não oferecia o que as clientes queriam e comecei a fazer vestidos sob medida", conta. Em 2003, nascia a grife batizada com seu nome. Em pouco tempo, a estilista conquistou o coração das brasileiras com suas criações marcadas pelo bordado e caimento perfeito. A cantora Ivete Sangalo virou cliente, assim como a apresentadora Sabrina Sato e as atrizes Adriana Birolli, Sophia Abrahão e Marina Ruy Barbosa. Até a top Gisele Bündchen se derreteu com a delicadeza do trabalho da estilista. A modelo número 1 do mundo escolheu um vestido de franjas e canutilhos em dois tons de prata para usar durante o lançamento de um creme dental, em 2013. "Ficou lindo, e é uma imagem que vou guardar para sempre. Fiz dois vestidos e Gisele quis ficar com eles", diz Patrícia. Em 2012 ela criou uma segunda marca, a PatBo, que tem como público-alvo uma turma mais fashionista, fã de roupas ousadas, alegres e cosmopolitas. Suas criações já desfilaram nos corpos de Bruna Marquezine, Mariana Rios e da blogueira Thássia Naves. Neste ano, ela abriu, em Belo Horizonte, o Nohda – grupo que reúne as marcas Patricia Bonaldi, PatBo, Apartamento 03 e Lucas Magalhães (adquiridas por Patrícia em 2014) em um único espaço. Além das lojas próprias em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, suas criações podem ser encontradas em mais de 200 pontos de venda espalhados pelo Brasil. O sucesso, no entanto, extrapolou as fronteiras brasileiras. Hoje, Patrícia está em mais de 50 endereços no exterior, incluindo a tradicional Harrods, em Londres. "A moda festa, para dar certo, precisa valorizar o corpo e tem de deixar a mulher se sentindo a mais especial do evento", afirma.

Gustavo Andrade/Encontro e Instagram/Reprodução
(foto: Gustavo Andrade/Encontro e Instagram/Reprodução)
É exatamente assim que pensam as irmãs Carolina e Marcela Malloy, de 37 anos. "Criamos roupas para serem usadas em momentos de celebração. Uma mãe casando um filho, uma formatura, uma união. São ocasiões marcantes, que serão lembradas para sempre, e o vestido é um detalhe importante", diz Carolina. As duas estão à frente da Arte Sacra, grife criada pela mãe, Maria Rita Malloy, de 65 anos, em 1991. Para as irmãs, o que faz a moda festa em Minas ser tão diferenciada é o fato de termos à disposição mão de obra em abundância. "Temos muitos artistas por aqui e tudo, tudo que imaginamos, conseguimos executar", afirma Marcela. Atualmente, a marca está presente em mais de 150 pontos de venda de norte a sul do país. Da fábrica, saem cerca de mil peças por mês, que vão parar no closet de famosas como a cantora Sandy, a atriz Erika Januza e a blogueira Camila Coutinho. As peças da Arte Sacra podem custar até 12 mil reais e pesar 2,5 quilos. Carolina se casou em 2014 usando um modelo desenhado pela irmã. "Ela fez o croqui em 15 minutos e foi um momento muito emocionante. Ficou exatamente como eu sonhava", afirma.

De salto alto, ora elegante e discreta ora ousada e colorida, a moda mineira atravessa gerações. "É importante reforçar que isso não aconteceu por acaso. Com a fundação de Belo Horizonte nasceu também a nossa tradição em moda", diz a coordenadora do Centro de Referência da Moda, Marta Guerra. Da inauguração da fábrica de tecidos Renascença, em 1936, passando pela imigração dos italianos – que trouxeram consigo a arte na fabricação de sapatos – até a formação do Barro Preto, bairro que concentra um dos maiores centros atacadistas de roupas do Brasil, BH vem construindo uma história bonita entre sedas, cetins e rendas. Das grandes fábricas aos pequenos ateliês, os vestidos de festa são reinventados a cada estação. E, talvez exatamente por isso, estamos sempre prontos para encarar qualquer tapete vermelho.

Alexandre Rezende/Encontro e Instagram/Reprodução
(foto: Alexandre Rezende/Encontro e Instagram/Reprodução)

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