Saiba o que pode provocar problemas psicológicos nas crianças

Apesar de comuns, as neuroses e psicoses infantis nem sempre são de fácil identificação. Conheça as principais causas desses distúrbios e como as escolas podem ajudar

por Daniela Costa 26/09/2016 14:40

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Alexandre Rezende/Encontro
A comerciante Renata Bastos Correa apostou no diagnóstico precoce para cuidar da filha, Maria Eduarda, portadora de TDAH: "Uma das formas de controlar a ansiedade é praticando atividades físicas, por isso fazemos caminhadas regulares" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Há 11 anos, a comerciante Renata Bastos Correa, de 43, foi informada pela escola em que o filho estudava que ele apresentava comportamento diferente das demais crianças. Na época, Lorenzo Bastos tinha 7 anos de idade e a mãe já havia observado que algo não andava bem. Em casa, o garoto nunca se cansava, estava sempre ansioso e agitado. A convivência familiar foi ficando cada vez mais difícil, e a escolar também. Mas não seriam essas apenas características de menino levado? O tempo lhe mostrou que não. "Comecei a procurar especialistas e após alguns diagnósticos foi comprovado o TDAH", conta Renata. O chamado transtorno do déficit de atenção com hiperatividade surge na infância e tem causas genéticas. Entre os seus principais sintomas estão desatenção, inquietude e impulsividade. "Apesar de ter me auxiliado a identificar o distúrbio, a escola não estava preparada para lidar com alunos com aquele perfil. Tanto que me orientaram a transferi-lo para uma instituição especializada", diz.

Em vez disso, a mãe decidiu buscar ajuda para o filho. O tratamento multidisciplinar, realizado com o auxílio de psicólogo, neurologista e psiquiatra, foi fundamental para dar qualidade de vida a Lorenzo e a sua família. Em pouco tempo o menino já conseguia se concentrar para fazer cruzadinhas e montar quebra-cabeças. "Hoje ele tem 18 anos e, sem dúvida, é outra pessoa." A irmã, Maria Eduarda, de 10 anos, herdou o mesmo problema. Contudo, já experiente, Renata soube exatamente como agir. "Uma das formas de controlar a ansiedade é praticando atividades físicas, por isso fazemos caminhadas regulares", diz.

Apesar de comuns, as neuroses e psicoses infantis nem sempre são de fácil identificação. Diretamente ligadas ao desenvolvimento, influenciam na capacidade de comunicação e sociabilização da criança. "Por isso, é fundamental que os pais fiquem atentos para entender o que, de fato, está ocorrendo. E já nos primeiros sinais, busquem ajuda profissional", orienta a psicóloga Saskia Andrade de Vasconcelos. Segundo a Academia Americana de Pediatria, 20% dos meninos e meninas abaixo dos 14 anos apresentam alguma dificuldade de neurodesenvolvimento. Para detectar o problema, é necessário aguardar que a habilidade seja adquirida. "Podemos observar certos padrões, como o uso de gestos por volta dos 9 meses de idade e pronúncia das primeiras palavras com 1 ano, entre outros. Quando não ocorrem naturalmente, é sinal de que algo está errado", explica a neuropediatra Cláudia Machado Siqueira, professora da UFMG.

Alexandre Rezende/Encontro
A pediatra Izabela Almeida Loureiro descobriu que a dispersão do enteado, João Koch de Andrade, tratava-se de um problema psicológico: "O dia em que ele conseguiu nos contar a história de um livro que havia lido dois dias antes, foi emocionante" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Além dos pais e dos especialistas, os profissionais da educação têm papel importante no cuidado com a criança. Somente na rede estadual de ensino, são 3.650 escolas nas quais os professores são orientados a enxergar o aluno de forma individualizada. "Caso seja identificado algum problema, a família deve ser orientada a buscar assistência", diz Adelson França Júnior, diretor de ensino fundamental da Secretaria de Estado de Educação. A pediatra Izabela Almeida Loureiro, de 32 anos, observou que o enteado, João Koch de Andrade, de 8 anos, sempre foi inquieto. "Nunca se sentava no sofá sem pular ou virar de cabeça para baixo", lembra. Ficar parado era um desafio. O problema se agravou quando o garoto foi para a escola. Não prestava atenção nas aulas, demorava horas no banheiro, brincava até com as plantas. Estudar, que era bom, nada. "Após um ano com acompanhamento de uma pedagoga, começamos a medicação para TDAH e a melhora foi expressiva", diz. Antes do tratamento, João era muito disperso e não se lembrava de muita coisa, pois não conseguia se concentrar. "O dia em que ele conseguiu nos contar a história de um livro que havia lido dois dias antes, foi emocionante", diz.

De fato, por trás do comportamento perturbador, agitado ou inadequado em relação ao padrão, podem estar traumas e medos que precisam ser trabalhados. É o que afirma a psicanalista e professora Ana Lydia Santiago, autora do livro O que Esse Menino Tem?, que aborda o fracasso escolar e o risco da segregação. "Muitas vezes, o aluno que não se interessa pelos estudos é focado em outra atividade, como brincadeiras e jogos. É preciso interpretar os conteúdos inconscientes de palavras, ações e produções imaginárias de uma criança, para saber quais motivos a levam a agir de tal maneira", diz. Segundo ela, a proposta é incluir o aluno com o que ele tem de mais singular, e não separá-lo dos demais. "O diagnóstico correto é fundamental para fugir da generalização", afirma. "Seja o problema um distúrbio, fobia, deficiência ou transtorno, é preciso descobrir qual a sua causa primária para tratá-lo e evitar traumas futuros."

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