Primeiros moradores do bairro Santa Efigênia eram militares vindos de Ouro Preto

Bairro começou a ser ocupado pelos soldados e seus familiares. Sede do 1º Batalhão da PM foi uma das primeiras edificações oficiais da cidade

por Rafael Campos 27/09/2017 13:27

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Acervo José Góes/Reprodução Maíra Vieira
Vista aérea do bairro em 1955: ruas homenageiam tenentes, majores e coronéis que moravam na região (foto: Acervo José Góes/Reprodução Maíra Vieira)
Dona Elza de Moura é uma das moradoras mais antigas do bairro Santa Efigênia. Ela tem 102 anos e muita história para contar. "Lembro-me como se fosse hoje. Toda casa tinha um grande quintal com pomar. Nós, ainda crianças, pintávamos e bordávamos, roubávamos frutas dos vizinhos", diz ela, que mora na rua Tenente Anastácio de Moura. A via, uma das mais importantes do bairro, foi batizada com o nome de seu pai, um ex-combatente da Revolução Constitucionalista de 1932, que o vitimou aos 42 anos. "Aqui era tranquilo. Tínhamos liberdade e tempo para trabalhar e nos divertirmos", diz a saudosa senhora que ministra palestras em empresas sobre variados assuntos como ética, religião e educação.

A casa dela fica a poucos minutos do marco zero do bairro: o 1º Batalhão da Polícia Militar (1º BPM), em frente à praça Floriano Peixoto, na época chamada de Praça de Belo Horizonte. Foi no entorno do quartel, antes chamado de Corpo Militar da Província de Minas Gerais, que o bairro Santa Efigênia tomou forma. A ligação com os militares é tão forte que influenciou até o nome: Santa Efigênia é a padroeira dos fardados. Em 1923, o então bispo Dom Cabral criou a paróquia de Santa Efigênia, erguida na avenida Brasil.

Violeta Andrada/Encontro
Fachada do 1º Batalhão da PM, em frente à praça Floriano Peixoto: marco zero do bairro, edificação possui muro de mais de 1 metro de espessura para aguentar tiros de canhão (foto: Violeta Andrada/Encontro)
O prédio do 1º BPM impressiona até hoje pelo seu estilo de fortaleza. Aliás, não é apenas "estilo". A espessura da fachada mede mais de 1 metro. Ela foi construída para aguentar disparos de canhão. O batalhão era, de fato, importante. Ele foi concebido para abrigar os militares que vieram de Ouro Preto, com a transferência da capital mineira. E há outra curiosidade. "Durante a construção, ela pegou fogo, o que atrasou a conclusão da obra. Por isso, foi o segundo prédio oficial a ser inaugurado na cidade. O primeiro foi o Palácio da Liberdade", diz o coronel Flávio Augusto, professor de história da Polícia Militar. O incidente ficou conhecido como o "primeiro grande incêndio da cidade". Assim, a edificação, localizada entre a avenida do Contorno e a rua Manaus, foi inaugurada em 1899. O batalhão, que tinha claraboias na fachada para uma possível resposta ao inimigo, não chegou a ser atacado.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Dona Elza de Moura, de 102 anos: 'Tínhamos liberdade e tempo para trabalhar e se divertir" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A cidade crescia e o que hoje conhecemos como parque municipal, na avenida Afonso Pena, se encurtava. Para se ter ideia, a Faculdade de Medicina da UFMG e a avenida Alfredo Balena – na região conhecida como hospitalar – foram construídas no terreno que fazia parte de uma fazenda. Foi por lá também que o Grupo Escolar Pedro II, atual escola estadual, foi erguido. A instituição, localizada na antiga avenida Mantiqueira, hoje, Alfredo Balena, é tema da dissertação do professor de história Fernando Rosa do Amaral. De acordo com ele, o então Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB), atual IBGE, solicitou que as escolas construídas na década de 1920 homenageassem Dom Pedro II. "A república estava em crise e existia o desejo de retomar o passado", diz Fernando, que coordena o projeto História e Memória Institucional na escola. O grupo escolar foi construído, ganhou o nome de Pedro II e uma arquitetura eclética, com elementos barrocos, de autoria do arquiteto Carlos Santos. "A escola passou a ser o retrato arquitetônico do estado. O tradicional e o moderno juntos", afirma Fernando. Foi na mesma região, onde hoje funciona um grande supermercado, que o América, em 1928, construiu o seu campo, chamado de Otacílio Negrão de Lima.

O bairro Santa Efigênia foi escolhido também para ser a casa da Câmara Municipal de Belo Horizonte. O Legislativo mudou do centro, na rua Tamoios, para o bairro em 1988. "E não havia nada em volta. Nem metrô", diz Maria de Fátima Santos, que, ao lado dos colegas Roberto Flávio Linhares e Adriana Lage da Silva, trabalha na Câmara há mais de 30 anos. "Naquela época, tínhamos de ir ao mesmo bar para lanchar, almoçar e tomar uma cervejinha", diz Roberto, lembrando que a casa legislativa teve papel importante no crescimento do bairro.

Violeta Andrada/Encontro
Prédio da Câmara Municipal de BH, construído para receber os vereadores: casa foi transferida da rua Tamoios, no centro, para o bairro em 1988 (foto: Violeta Andrada/Encontro)
O ex-vereador Arutana Cobério foi o primeiro presidente eleito na casa nova, em 1989. Ele participou de perto da decisão de levá-la para Santa Efigênia. "A antiga sede, no centro, era muito acanhada. Os gabinetes estreitos dificultavam o parlamentar de exercer a sua função", diz Arutana. Depois de quase três décadas, Arutana se diz satisfeito pela escolha dos colegas na época. "Percebemos que o trabalho foi muito benfeito e o prédio está sem trincas", afirma.

Enquanto dona Elza, que abriu esta reportagem, não está dando palestras, dedica seu tempo à leitura e à música. Ela é amante do filósofo Rousseau e do compositor Beethoven. Impossível não se impressionar com a vitalidade dela, que não gosta da rotina. "Já fiz muita coisa na vida. Gosto é de variar." Mas o bairro é o mesmo, há 102 anos. "Cresci nesta casa e vou morrer aqui", diz.

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