Conheça o Centro de Equoterapia da Polícia Militar

São cerca de 68 mil atendimentos gratuitos já realizados, especialmente para crianças carentes, portadoras de patologias graves. Mas o local precisa de ajuda para continuar atendendo

por Daniela Costa 16/01/2018 13:01

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Violeta Andrada/Encontro
Portador de paralisia cerebral, Alejandro Brian, de 9 anos, abandonou o comportamento irritadiço: sobre o cavalo, ele é só sorrisos (foto: Violeta Andrada/Encontro)
A expressão de gratidão e satisfação do aposentado Sebastião Geraldo da Silveira tem motivo de ser. Seus olhos atentos acompanham os movimentos do neto Alejandro Brian Silveira Duarte, de 9 anos. Como qualquer outra criança, o menino se diverte montado sobre um dos cavalos da raça Brasileiro de Hipismo, do Centro de Equoterapia do Regimento de Cavalaria Alferes (Cercat), da Polícia Militar, localizado no bairro Prado. Desde julho, uma nova rotina se estabeleceu em suas vidas. Uma vez por semana, às quintas-feiras, o avô acorda cedinho e se prepara para, junto com o neto, portador de paralisia cerebral, pegar o ônibus que os leva de Contagem à capital mineira. Já no trajeto, Alejandro se diverte. "Ele aguarda ansioso pelo dia da terapia. Quando, por algum motivo, não posso levá-lo, chora inconformado", diz. Apesar do pouco tempo de tratamento, as melhoras já são visíveis. O temperamento irritadiço do menino deu lugar a largos sorrisos. Mesmo com pouca coordenação motora, já abre as perninhas para montar o animal e adquiriu resistência para arriscar a subir alguns degraus de escada em sua casa.

Violeta Andrada/Encontro
Para Louise de Aquino Souza, de 8 anos, portadora de síndrome de Down, as sessões de equoterapia são um momento de lazer: "Sou muito grata por ver o quanto ela tem evoluído", diz a mãe, Ilza de Fátima dos Santos Souza (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Assim como ele, outros 119 pacientes se encaminham para o centro de reabilitação com o objetivo de realizar, de forma gratuita, sessões de 30 minutos de equoterapia, uma vez por semana, pelo período de dois anos. Se fosse paga, cada sessão custaria, em média, 130 reais. Oitenta por cento dos pacientes são crianças com idade inferior a 12 anos, vindas de famílias carentes de Belo Horizonte e região metropolitana. O tratamento filantrópico, realizado no Prado desde 1995, tem sido fundamental para auxiliar na melhoria de patologias como síndrome de Down, paralisia cerebral e autismo. Contudo, há anos o centro enfrenta um grave dilema. A mudança na legislação, que passou a proibir a PM de contratar profissionais da área de saúde, reduziu o efetivo da equoterapia. A equipe, que contava com 13 especialistas, composta por psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta e ortopedista, hoje tem apenas seis. "Até 2011 tínhamos uma capacidade média de 320 atendimentos por grupo", diz o subtenente José Geraldo Nunes, comandante do centro. "No entanto, após essa mudança, passamos a trabalhar apenas com profissionais concursados, disponibilizados pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig)", diz.

O resultado é preocupante. Já são quase mil pessoas na fila de espera, que chegam a aguardar até cinco anos por uma vaga. Os pacientes em tratamento podem ficar no centro por apenas dois anos, quando automaticamente recebem alta para dar lugar a outra pessoa. Após esse período, entram novamente na fila. "Temos notícias de crianças que já haviam saído da cadeira de rodas, por exemplo, e após a alta regrediram completamente. Outras, quando chegamos a entrar em contato, já faleceram", lamenta o subtenente.

Violeta Andrada/Encontro
Com apenas seis meses de tratamento, Marissol dos Reis Carretero, de 14 anos, supera as limitações da síndrome de Down: entre um galope e outro, a garota se diverte (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Neste ano, campanha realizada pela Associação Feminina de Assistência Social e Cultura (Afas), administrada por mulheres de militares, que atende tanto o público militar quanto a sociedade civil, arrecadou o montante necessário para fazer uma cobertura no pátio do centro. "Recebemos famílias muito carentes, que muitas vezes não têm nem o dinheiro para a passagem de ônibus", diz Nunes. "Elas não podem vir até aqui e ficar sem atendimento porque está chovendo e não temos um espaço coberto." Segundo o subtenente, a Polícia Militar disponibiliza os cavalos devidamente treinados e o espaço, mas precisa de apoio para aumentar o número de profissionais. "A solução seria a Secretaria de Estado de Saúde ou a PBH os disponibilizarem." A iniciativa privada também pode contribuir apadrinhando um desses profissionais, que chegam a atender 25 crianças cada um. Para isso, é necessário entrar em contato com a Afas.

Enquanto o reforço não chega, quem está em tratamento comemora. Há um ano a estudante Márcia Natalina das Graças acompanha o filho Gustavo Henrique das Graças Brun, de 8 anos, portador de síndrome de Down, à terapia. "A primeira superação dele foi conseguir subir no cavalo. Fora isso, melhorou muito o seu comportamento, pois era bem agitado", diz Márcia. A terapeuta ocupacional Bárbara Franca Carvalho explica que o tratamento é tanto físico quanto sensorial e emocional. Isso porque o andar do cavalo transfere mais de 2,5 mil estímulos para quem o monta, e o contato com o animal desperta a autoconfiança e a autoestima do paciente. "É uma melhora conjunta que promove socialização e integração", diz. A fisioterapeuta Juliana Starling reforça a importância da terapia para a coordenação motora. "Ocorrem o fortalecimento muscular, ajuste postural, controle de tronco e cervical, equilíbrio, entre outros benefícios." Apesar das dificuldades, o Centro de Equoterapia do Cercat tem motivos para celebrar. Desde sua criação, já foram realizados cerca de 68 mil atendimentos gratuitos, que salvaram vidas.

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