Conheça a história do bairro Buritis, na região oeste de BH

Projetado para receber casas, o local começou a ser loteado na década de 1970, mas só experimentou boom imobiliário 20 anos depois

por Rafael Campos 27/03/2018 16:52

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A região que hoje é ocupada por inúmeros prédios, trânsito intenso e um comércio fervilhante era, na década de 1930, uma pasmaceira só. A imensa zona rural e a distância da região central da capital mineira, na época um embrião de metrópole, atraíram o químico industrial Aggêo Pio Sobrinho. A partir de 1935, ele começou a adquirir glebas para formar a Fazenda Tebaidas. Ao todo, foram 19 pedaços de terra que somavam aproximadamente 5 milhões de metros quadrados. Por lá, criou gado de corte e sua mulher, dona Leocádia, aproveitava a terra para plantar diversos pés de fruta. Um laranjal ficou famoso. Com o tempo, a fazenda passou a ser o lugar favorito dos quatro filhos do casal - Rubens, Carlos, Aggêo Lúcio e Paulo –, além de outros familiares. Por volta da década de 1950, com o crescimento de Belo Horizonte, a calmaria começou a ir para o brejo. "Algumas pessoas passaram a invadir o nosso terreno. Eles botavam fogo, matavam os bois e levavam a carne", afirma Aggeo Lúcio Ribeiro, de 80 anos, o terceiro filho do senhor Pio Sobrinho. Diante de tamanha dor de cabeça, o pai não teve dúvidas: decidiu doar as terras para a Santa Casa de Misericórdia. Aggêo Lúcio e seus irmãos, já maiores de idade, intervieram. "Pedi calma a ele, pois poderíamos assumir a fazenda. Foi o que aconteceu", diz Aggêo Lúcio. Assim, criaram a Arcap Imobiliária, para que metade do terreno da fazenda fosse ocupado pelo bairro Palmeiras. O loteamento, conta Aggêo Lúcio, foi às pressas. E o valor, a preço de banana. "Chegamos a receber o equivalente a 11 reais de parcela", afirma. Cerca de 400 lotes foram comercializados em apenas dois dias. Um sucesso estrondoso.

Concluído o loteamento do Palmeiras, a ideia era fazer o mesmo com a outra metade da Tebaidas: era o início da história do Buritis. O nome do bairro, inclusive, não tem relação com a existência das árvores na região (veja box). A intenção, dessa vez, era fazer um planejamento mais detalhado, e não às pressas, como foi com o loteamento vizinho. O objetivo era projetar um bairro "padrão zona sul", como revela a obra produzida pela Escola Americana de BH sobre a região. No início dos anos 1970, a instituição de ensino mudou-se para o bairro e ocupa, desde então, uma porção que pertencia à Fazenda Tebaidas. As terras foram doadas à escola. "Seguimos o exemplo do bairro Sion, onde um colégio também foi um dos responsáveis pelo crescimento da região", diz Aggêo Lúcio Ribeiro.

A procura pelos lotes do Buritis, no entanto, não foi tão concorrida como a do Palmeiras. Um dos motivos foi devido à topografia do novo bairro, mais acidentada. "Muitos ficaram interessados, mas, quando o loteamento ficou pronto, poucos assinaram contrato", diz Aggeo. Por outro lado, um ponto positivo para que mais pessoas ocupassem a região foi a abertura da avenida Raja Gabaglia, na década de 1960, que encurtou o caminho entre a área central da cidade e a antiga Fazenda Tebaidas.

Conforme livro da Escola Americana sobre o Buritis, "em 1989, apenas 64 lotes do total de 1135 estavam com projetos implantados ou em processo de implantação". Isso, de acordo com o livro, mostra que, ao contrário do que algumas fontes relatam, na década de 1980 o bairro não experimentava um boom imobiliário. Isso só veio a se concretizar praticamente dez anos depois.

O perfil do novo bairro, a princípio, seria unifamiliar, portanto, predominantemente de casas. No entanto, em 1992, a PBH mudou a lei de zoneamento, permitindo a construção de prédios. Foi aí que, de fato, o Buritis virou um imenso canteiro de obras. Desenhado para receber casas, o bairro acabou, portanto, a apresentar anos depois problemas devido ao grande número de veículos que sobem e descem a avenida Professor Mário Werneck. Segundo o Censo IBGE de 2010, o Buritis se transformou no segundo mais populoso da cidade, com 29,374 moradores, atrás apenas do Sagrada Família, com 34,375 residentes. E foi graças aos moradores que uma importante área verde foi preservada. É o Parque Municipal Aggeo Pio Sobrinho, com cerca de 600 mil metros quadrados, criado em 1996. Por causa das ações de prevenção contra a febre amarela, a visitação à área verde estava interditada até o fechamento desta edição.

O empresário Mário de Oliveira Prata, de 61 anos, conhece bem a evolução do lugar. Há 17 anos, ele abriu, com um sócio, uma loja de decoração por ali. Mário lembra que, na época, havia nos arredores apenas uma padaria, um depósito de material de construção e uma pizzaria. "Eram muitos lotes vagos. Lembro-me de que chegava a sentir cheiro de alecrim-do-mato quando caminhava", diz o empresário. Entre as vantagens de se viver e trabalhar no bairro, Mário destaca que não é preciso sair de lá para nada, diante do bom leque de comércio e de serviços. "Apesar do trânsito, não sairia daqui. O Buritis é um bairro aconchegante", diz. De fato, não é mais possível sentir o aroma do alecrim-do-mato. Hoje, o que se sente é a vibração da modernidade.

O batismo

O bairro ganhou esse nome devido aos inúmeros pés de buriti na região, certo? Errado. Aggêo Lúcio, um dos filhos de Aggêo Pio Sobrinho, dono da antiga Fazenda Tebaidas, conta que o lugar foi batizado por Ismaília de Moura Nunes, secretária de Planejamento Urbano da capital na década de 1970 e amiga da família. Ela era apaixonada por Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas, obra cujo cenário era repleto de buritis.

Fonte: Censo IBGE 2010

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