Um bate papo com Iza Haddad sobre o universo feminino

A psicanalista fala sobre as conquistas das mulheres, mercado de trabalho, discriminação e igualdade

por Marinella Castro 23/03/2018 17:39

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Violeta Andrada/Encontro
(foto: Violeta Andrada/Encontro)
Ano após ano, as mulheres inspiraram artistas, desafiaram a ciência, despertaram a curiosidade dos estudiosos. Em pleno século XXI, a alma feminina não saiu do foco, continua um mistério para o mundo contemporâneo. Afinal, "o que quer uma mulher"? Freud explica? Quando ainda era estudante na faculdade de psicologia, Iza Haddad se apaixonou pela pergunta feita no século XIX pelo pioneiro da psicanálise. Quase 20 anos depois, no livro Uma Mulher e Seus Extravios, resultado de sua tese de doutorado na UFMG, ela defende que ninguém - nem mesmo Sigmund Freud e seus seguidores, como o psicanalista francês Jacques Lacan - conseguiu explicar o universo feminino. No livro, que teve relançamento especial no dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher), Iza traz um estudo sobre 10 mulheres da história, cultura e mitologia, apontando como cada uma, de forma surpreendente, mostrou esse lado indecifrável da alma feminina. "Quando alguém pensa que capturou uma mulher, ela já está em um outro lugar", diz. Nesta entrevista, Iza fala também sobre as conquistas femininas, mercado de trabalho e de velhos desafios como discriminação e a desigualdade na progressão da carreira.

1 | ENCONTRO - Como surgiu o seu interesse pelo feminino na psicanálise?
Iza Haddad - Desde 1998, quando comecei a faculdade de psicologia, fiquei encantada com o tema da feminilidade nas mulheres - digo nas mulheres porque existem homens que também são mais femininos - e nunca parei de estudar. É um percurso de 19 anos. O meu livro é o resultado de um trabalho de mestrado e doutorado, uma escrita que vem desde minha graduação.

2 | Em seu livro, você procura mostrar, por meio do estudo da vida de algumas mulheres, que o feminino é indecifrável. Até onde Freud conseguiu compreender esse universo?
Freud foi o precursor da psicanálise e teve de fazer todo um esforço em sua teoria para entender o feminino. Ele apontou um limite teórico para o tema e nos disse assim: "se vocês quiserem saber mais sobre as mulheres perguntem à poesia, encontrem uma evolução da ciência e perguntem a sua própria experiência de vida. Outras pessoas vão estudar além de mim,  eu cheguei até aqui, mas o meu estudo está fragmentado, ele está incompleto". Assim Freud mesmo nos deu um caminho.

3 | Outros estudiosos que seguiram essa trilha conseguiram desvendar a mulher?
Não. O psicanalista francês Jacques Lacan, que estudou Freud e é mais contemporâneo, faz uma releitura do que é a sexualidade feminina. Com mais instrumentos, ele dá alguns passos além.  Segundo Lacan, a mulher não se encaixa no que Freud propôs para a sexualidade masculina, porque a mulher é muito singular. É preciso dizer que os homens também são muito diferentes entre si, mas na verdade as mulheres têm o que chamamos de uma clínica muito florida, trazem questões muito particulares, são muito diferentes umas das outras. Assim, Lacan também chegou à conclusão de que é impossível capturar totalmente uma mulher, porque, segundo ele, as mulheres têm os seus "extravios."

Violeta Andrada/Encontro
"A sexualidade masculina é exibicionista, como se o comportamento assediador dos homens fosse algo natural" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
4 | Como pode nos explicar esses extravios, que dão título ao seu livro e a sua tese de doutorado?
O Édipo freudiano serve para entender a mulher de um ponto muito obtuso, muito fechado. Freud tentou explicar as mulheres com a teoria dele, mas elas sempre lhe escaparam. O extravio é esse escape. Se Freud percorreu uma rota, um caminho para chegar à mulher, esta se mostrou mais um rastro e menos uma rota. Quando você pensa que está capturando uma mulher, ela já está em um outro lugar, as mulheres estão além da teoria.

5 | Desde a época de Freud as mulheres tiveram várias conquistas. Mas por que ainda hoje deparamos com questões como o assédio sexual?

A sexualidade masculina é exibicionista, é como se esse comportamento assediador dos homens fosse naturalizado e houvesse uma cultura de que a mulher precisa se silenciar, se calar, usar as roupas consideradas adequadas. São concepções que o tempo não melhora. No caso do produtor de Hollywood acusado de assediar várias atrizes, por exemplo, só muito tempo depois elas tiveram a coragem de falar, e ainda assim porque suas vozes juntas fizeram um eco. A questão da sexualidade ainda é tão complicada que às vezes até mesmo as próprias mulheres podem acreditar que elas devem passar por determinadas situações.  Mesmo com toda a evolução que tivemos, ao mesmo tempo as coisas não evoluíram tanto.

6 | E por que a sexualidade feminina ainda é alvo de tantas discussões?

O corpo feminino é sempre um enigma, um extravio, existem coisas que se parecem ainda com a época de Freud. São tantas perguntas sobre as mulheres que permanecem até hoje, que nos lembram a Viena do século XIX. O que é a sexualidade feminina? A mulher tem um ponto G? Tem um orgasmo ou dois, os dois tipos são os mesmos? Quais são os mistérios do corpo dessa mulher?  Os mistérios ocorrem até para a medicina. Veja bem, todos já devem ter ouvido contar a história de uma mulher que tem a saúde perfeita, está em idade fértil, mas não consegue engravidar. De repente, ela decide adotar uma criança e, depois, fica grávida. A medicina não calcula isso?

Violeta Andrada/Encontro
(foto: Violeta Andrada/Encontro)
7 | No trabalho, as mulheres ainda ganham menos e são menos frequentes nos cargos de chefia...
A mulher é qualificada, ela é capaz, faz horas extras, é inteligente e concentrada, é tão especializada quanto os homens. Por que ganham menos? A gente vem de uma cultura, de uma história na qual o sexo feminino era considerado frágil. É o efeito de uma cultura em que a função da mulher era ficar em casa e cuidar da família. Ainda temos um caminho a percorrer.

8 | Qual o caminho para as conquistas pessoais?  O seu livro traz dicas para a mulher contemporânea?
Nenhuma dica. Não existe uma receita para a felicidade feminina. Cada uma na sua solidão encontra sua saída, que acredito estar mais em objetos da cultura do que no outro. Penso que também faz parte dessa busca um processo de análise. Digo isso porque a psicanálise salva, não a todos, mas ela salva aqueles que querem ser salvos, que querem encontrar uma forma de viver melhor, com mais prazer e menos sofrimento.

9 | Em sua opinião, qual seria uma grande conquista da mulher nas últimas décadas?

Foram muitas, mas diria que é a voz, poder falar. É a voz da artista que pinta com ódio, a voz da bailarina nua, da mulher que faz um livro sobre a sexualidade masculina. Não é falar aleatoriamente qualquer coisa, mas o que importa é a voz da mulher que não adoece mais por não poder se expressar, por ter de velar, calar um sentimento.

10 | E uma bandeira importante nos nossos dias?
A mulher contemporânea suporta uma grande cobrança. No trabalho, na vida social, na vida familiar. Ela deve ser bem-sucedida como profissional, ao mesmo tempo que leva o peso de ser a mais diplomática. Ao mesmo tempo que é profissional, ela é a cuidadora dos filhos, da família, dos amigos, dos pais. Acho que a mulher moderna quer ter um pouco mais de prazer, não digo o prazer sexual, mas aquele das pequenas coisas. Quer sentir menos pressão.

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