Para especialista, biocombusítveis são o futuro no Brasil

Presidente da Siamig integra grupo que criou o RenovaBio, nova lei que garante a expansão sustentável do mercado de combustíveis renováveis e limpos no país. Na vanguarda, ele se esforça para unir empresários do setor e promover uma produção eficiente e aliada aos avanços globais

por Geórgea Choucair 20/04/2018 08:34

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Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Aos 20 anos de idade, quando recebeu o convite para ser estagiário da Siamig (Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais), o setor de cana-de-açúcar era completamente desconhecido para o economista Mário Ferreira Campos Filho, atual presidente do sindicato. "Eu só conhecia a cana porque tinha plantada no quintal da minha casa na Pampulha", afirma. "E também porque tomava garapa nas corridas ao redor da lagoa." Mas a paixão pelo setor, que envolve uma cadeia agrícola e complexo industrial gigantesco, com faturamento médio de 10 bilhões de reais ao ano no estado, veio rápido. Curioso, estratégico e aficionado por pesquisas e estatísticas, Mário ganhou pouco a pouco a confiança dos associados até tornar-se o mais novo presidente da história da Siamig.

Em sua segunda gestão (foi reeleito até 2020), ele quer debruçar-se nas tentativas de modernizar ainda mais o setor, preocupado com a eficiência e de olho nas novas tecnologias e avanços globais. Mário participou do grupo que pensou e criou o RenovaBio, a política nacional de biocombustíveis que pretende valorizar o combustível renovável e limpo. Ele também teve forte atuação na redução do ICMS do etanol hidratado em 2014, o que tornou o preço do combustível renovável mais competitivo frente ao da gasolina e deu força ao setor. Nesta entrevista, ele fala do potencial de crescimento do setor sucroenergético, assim como de sua importância ambiental.

Quem é
: Mário Ferreira Campos Filho
Origem
: Belo Horizonte-MG
Formação
: Graduado em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Possui MBA em finanças pelo Ibmec e em relações governamentais pela FGV de Brasília
Carreira
: Presidente da Siamig, onde ingressou como estagiário em 2003. Está no segundo mandato na presidência da associação. É conselheiro do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), na Fiemg, e diretor do Centro Industrial Empresarial de Minas Gerais (Ciemig), desde 2015

ENCONTRO - Você foi contratado como estagiário na Siamig há 15 anos. O sindicato pediu na UFMG para indicarem o melhor aluno do curso de economia e o seu nome foi o sugerido...

MÁRIO FERREIRA CAMPOS FILHO - Na verdade, eu acho que era um dos melhores alunos. Estava entre os mais esforçados (fica tímido). Sempre procurei dar o meu máximo naquilo que me proponho a fazer. Gosto de ouvir as pessoas e sou curioso. Essas são duas das minhas principais características. O setor de cana-de-açúcar era uma área completamente desconhecida para mim, mas aceitei o convite da Siamig. Como estudante, quando o cavalo passa arreado, temos de montar. Foi o meu primeiro emprego e acabou que praticamente toda a minha carreira aconteceu nessa área.

Quais as principais mudanças do setor?
Eu entrei na Siamig em 2003, período de lançamento do primeiro veículo Flex, o que na minha opinião revolucionou o mercado. Hoje, 70% da frota que circula no país é de carro Flex. A cada 100 novos veículos vendidos, 85 são Flex. O meu primeiro veículo foi um Flex, sempre abastecido com etanol. Todos os funcionários aqui do escritório têm carro Flex. Se não convencermos dentro da nossa casa, como convenceremos lá fora?

Violeta Andrada/Encontro
"Acreditamos que qualquer aumento de consumo de etanol em detrimento de combustível fóssil traz benefícios para a sociedade. Estamos ajudando a ter um ar mais limpo, com benefícios para a saúde pública" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Qual a vantagem de abastecer com álcool, no lugar da gasolina?
Preferimos falar etanol, em vez de álcool. O etanol é um nome internacionalizado e mais próximo do que é dado ao produto lá fora. E é o nome da molécula, C2H5OH. Muitas vezes, o álcool é confundido com a bebida, que tem cunho negativo e é motivo de campanhas contrárias. O etanol vem do agronegócio, gera emprego e desenvolvimento regional dos municípios. Com o etanol estamos aliando a agricultura alimentar à  energética, com um produto limpo e renovável, em função da fotossíntese. O biocombustível é limpo, porque a fotossíntese propicia isso. E é renovável, porque vem de origem agrícola.

Apesar de não gostar de usar a palavra álcool, você costuma dizer que esse mercado é como "cachaça" e "vicia".  A que se deve sua paixão pelo setor?
Por tudo que oferece. Eu tento procurar similaridade em outros setores e não consigo encontrar. Nós temos capacidade de aproximar a agricultura, que é a vocação brasileira, com um complexo industrial.

Qual é a representatividade do setor para Minas?

São 34 associados, que produzem cerca de 850 mil hectares de cana em Minas. É uma das principais culturas do estado. São gerados 180 mil empregos diretos e indiretos, em 120 municípios com área plantada e em 27 regiões industriais. Praticamente toda a área plantada nos canaviais está mecanizada, com ganho expressivo para o meio ambiente. Sem a queima, a vida e os animais voltaram aos canaviais. E no agronegócio, certamente, somos o setor mais visado na área ambiental.

Quais os principais desafios que enfrenta em sua gestão?
O grande desafio é manter o grupo unido e coeso em objetivos comuns da entidade e do crescimento do segmento, o que busco fazer todos os dias. O modelo agroindustrial tem temas dinâmicos e diversos e eu sou daquela máxima de que o problema que gerou uma solução em determinada empresa pode ajudar outra. Precisamos ser parceiros da porteira para dentro, apesar de as empresas serem competidoras da porteira para fora. Os nossos produtos são commodities, o mercado depende muito da conjuntura global do segmento. Todos têm de lutar de forma unida.

Apesar de novo, você é muito querido entre os usineiros e conhecido por deixar as portas sempre abertas. Faz questão de ter o número do celular no cartão de visitas. Esse envolvimento é importante na gestão?
No lugar de falar usineiros, eu prefiro empresários, pois geram bons empregos, dividem os ganhos e pagam pela qualidade da cana. Alguns me chamam de garoto (risos). Mas temos de aliar a experiência à juventude, sempre. O foco é ser eficiente e conseguir resolver os problemas, independentemente da idade. Acima de tudo, é preciso ser comprometido e viver o setor, ser estratégico. Só conseguimos fazer isso se acreditamos naquilo que estamos fazendo. E a coisa não pode ser feita de cima para baixo, mas de baixo para cima. Tenho mais de 10 grupos de WhatsApp do setor. Trabalho 24 horas por dia (risos).

A crise econômica refletiu no mercado sucroalcooleiro?
Boa parte do nosso negócio é relacionada com o mercado interno, mas temos um mercado externo expressivo também. A desvalorização da moeda, por exemplo, ajuda na competitividade de quem exporta. Junto a isso, o açúcar nesse período de crise mais aguda estava em déficit no mundo, com oferta menor do que a demanda, o que elevou o preço em dólar. E, no caso do etanol, apesar de a redução da renda ter afetado não só o consumo diário de combustível, como também as vendas de novos veículos, tivemos mudança completa na precificação, o que significou melhoria na percepção do setor. Hoje temos uma política clara, inclusive com precificação diária no caso de gasolina, que é concorrente do etanol.

Violeta Andrada/Encontro
"Todos os funcionários aqui do escritório têm carro Flex. Se não convencermos dentro da nossa casa, como convenceremos lá fora?" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Durante a sua gestão, o setor ganhou representatividade, como a redução do ICMS do etanol hidratado de 19% para 14% em 2014 (hoje está em 16%), o que tornou o preço do combustível renovável mais competitivo frente ao da gasolina. Como essa conquista refletiu nas indústrias mineiras?
Essa redução foi um marco da história do setor, o início da recuperação. Acreditamos que qualquer aumento de consumo de etanol em detrimento de combustível fóssil traz benefícios para a sociedade. Estamos ajudando a ter um ar mais limpo, com benefícios para a saúde pública. Essa política adotada pelo governo de Minas ajudou de forma significativa na recuperação do setor. O etanol representa cerca da metade do nosso negócio, de usinas. Com a redução do ICMS, levamos Minas Gerais a ser o segundo maior consumidor de etanol do país, fazendo jus ao tamanho da sua frota.

Qual é a previsão de açúcar na safra mineira de 2018/2019?

A safra vai ser a mesma do ano passado, em torno de 64 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Vamos produzir em torno de 3 bilhões de litros de etanol, contra 2,6 bilhões na safra passada. É o volume recorde de 2015. No caso do açúcar, serão 2,8 milhões de toneladas, bem menos do que no ano passado, quando foram produzidos 3,2 milhões de toneladas. Mas isso porque o açúcar é uma commodity, e os preços estão em torno de 50% mais baixos do que no ano passado. Alguns associados decidiram que não vão produzir açúcar por agora, só etanol.

Você participou do grupo que criou o RenovaBio, a  política nacional de biocombustíveis, cujo decreto foi assinado em março deste ano. Quais são os principais objetivos do programa?
Ele visa descarbonizar a nossa matriz de transporte. Pedimos ao governo para montar um programa privado. O Brasil foi ao acordo de Paris em 2015 e assumiu compromisso internacional de  reduzir as emissões de gases do efeito estufa até 2030. Hoje importamos cerca de 20% dos combustíveis fósseis que o Brasil consome. Se tivermos um crescimento daqui para frente, com qual combustível vamos definir o abastecimento dos veículos? Não há investimentos em novas refinarias no país. Essa demanda de combustíveis que vamos ter no futuro se daria com combustíveis fósseis importados ou com biocombustíveis produzidos no Brasil, o que de quebra cumpriria ainda com um compromisso internacional? Então tomou-se a decisão de fazer um programa que incentivasse a produção e o uso de biocombustíveis no Brasil para suportar esse crescimento da demanda de combustíveis e de certa forma cumprir um compromisso internacional.

Como vai funcionar, na prática, a implantação do Renovabio?
Além de vender o etanol, as empresas terão o direito de emitir um título de descarbonização. O conceito é estritamente ambiental. Vamos examinar o produto pelo seu ciclo de vida. Vamos analisar toda a cadeia e cada usina vai ter uma nota específica, de acordo com a eficiência. Essa nota vai definir a quantidade de certificado de descarbonização (Cbio) que será emitida no mercado. Ou seja, além de vender o produto, serão vendidos os créditos de descarbonização. Ter um combustível renovável e limpo vai ser um valor no Brasil, a usina vai ser paga por isso. O programa vai se tornar realidade em janeiro de 2020. Vamos trabalhar para que a regulamentação seja feita da melhor forma possível.  A cadeia como um todo vai ganhar, desde quem planta a cana até os colaboradores das empresas. Uma safra nunca é igual a outra. Os envolvidos nos processos são responsáveis pelo sucesso das diversas safras que virão por aí.

O setor passou por dificuldades, com o fechamento de várias usinas. No ano passado duas grandes unidades, em Canápolis e Capinópolis, no Triângulo Mineiro, foram reativadas. É um sinal de retomada?
Esse era um grande desafio, até pessoal mesmo. Eu fui criado dentro do setor, onde trilhei toda a minha carreira profissional. É muito triste ver usinas fechando, principalmente aquelas que estão localizadas em municípios muito pequenos e que têm grande importância para a geração de emprego, renda e impostos. A partir do momento que começamos a fazer trabalho de recuperação do setor, de mostrar que é viável, que Minas Gerais é diferenciada, que temos bom ambiente de negócios e que as empresas aqui podem continuar crescendo, é muito gratificante. Sem dúvida alguma, a participação do sindicato é muito grande nesse contexto, pois somos a ponta do iceberg, que se comunica com a sociedade e conversa com o governo, em prol desse ambiente de negócio cada vez mais interessante e propício ao empreendedorismo. É muito bom ter de volta usinas que respiravam o setor de cana. Espero continuar fazendo parte desse processo.

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