Estado de Minas ENTREVISTA

Dez perguntas para o presidente da Fundação de Arte de Ouro Preto

O ator, professor e jornalista Jefferson da Fonseca decidiu descentralizar os saberes acumulados pela instituição ao longo das últimas cinco décadas


postado em 27/03/2023 09:01 / atualizado em 27/03/2023 09:22

(foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
(foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
Fundada em 1968, a Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), unidade da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), vem extrapolando os limites da cidade histórica da região Central de Minas Gerais para fazer história em todos os cantos do estado. A proposta de ampliar o alcance da instituição e, em contrapartida, permutar conhecimento, teve início com a gestão do atual presidente, Jefferson da Fonseca. Diante da pluralidade cultural típica do território mineiro, o ator, professor e jornalista decidiu descentralizar os saberes acumulados pela Faop ao longo das últimas cinco décadas e potencializar a cultura mineira como um todo. Mais do que marcar presença em outros municípios, a fundação está criando novas raízes com a instalação de sedes próprias em Paracatu, no Noroeste mineiro, e em Guaxupé, no Sul do Estado. Nesta entrevista Jefferson conta como tem sido a colheita dessa proposta, que vem sendo semeada desde 2021 e já rende bons frutos.

1) Há cerca de dois anos a Faop está levando suas ações para outras cidades do estado. Como surgiu essa proposta?

Havia muitos conhecimentos na nossa fundação que mereciam ser compartilhados, assim como existem muitas vocações e saberes em outros territórios que podem ser desbravados. Considerando-se a possibilidade de essa pluralidade de artes e ofícios ser explorada, entendemos que poderíamos otimizar cada centavo de recurso público, por meio do nosso trabalho e do nosso pessoal, para dar uma atenção maior a todos os mineiros. Temos trabalhado muito nesse entendimento de que é possível não apenas levar o que foi aprendido durante mais de 50 anos em Ouro Preto, mas também nos apropriarmos de outros saberes.

2) Que ações a Faop está levando para outras cidades?

Desde o ano passado, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult) tem promovido encontros regulares com gestores municipais dessas áreas. A partir do interesse dos agentes públicos e da nossa força de trabalho, construímos uma pauta de visitas técnicas. Temos ido a muitos municípios, mas também temos recebido diversos representantes de vários municípios em Ouro Preto.

3) Por quantas cidades a Faop já passou depois dessa descentralização de serviços?

Alcançamos 55 cidades que, de algum modo, foram acessadas pela nossa fundação e vice-versa. Nessas localidades, tratamos acervos, realizamos visitas técnicas, levamos nossas oficinas. Na região Central, por exemplo, estivemos em 12 municípios com oficinas de restauro e conservação. Em 2023, estaremos no Vale do Jequitinhonha a partir de Conceição do Mato Dentro para os desdobramentos das visitas que realizamos no ano passado. Vamos passar por novas cidades também, vizinhas às que já estamos. Em fevereiro, chegaremos à região metropolitana de Belo Horizonte a partir de Santa Luzia.

4) O que é o Circuito Faop?

Como sempre estivemos em Ouro Preto, a ideia era levar a Faop ao maior número possível de municípios. O circuito é a circulação do conjunto de saberes acumulados ao longo de mais de 50 anos de existência da fundação. É um circuito de ações formativas, de promoção pelo patrimônio histórico e artístico de Minas Gerais. A proposta é fazer com que a fundação saia do seu território de origem para ressignificar os múltiplos saberes de todas as regiões mineiras.

5) Em 2021, a Faop inaugurou a sua primeira sede fora de Ouro Preto, em Paracatu. Quais atividades são desenvolvidas ali?

Nosso trabalho vem se modificando e se consolidando a partir da relação com a comunidade: há 11 quilombolas lá e isso nos traz para mais perto da mineiridade. Estamos no interior, nas comunidades, sendo afetados de modo muito positivo. A cidade tem sido uma escola para a fundação. Entendemos as forças individuais e a força do coletivo, identificamos artistas locais e estamos promovendo a arte deles por meio de exposições, trabalhos de formação e de promoção dos valores locais. Em um intercâmbio, os artistas de Paracatu também frequentam a nossa fundação em Ouro Preto.

"Os belo-horizontinos têm que conhecer a riqueza do nosso Estado. Esperamos, a partir de março, dar início a uma exposição no Centro de Arte Popular, que deverá ser um espaço que valoriza a arte de toda Minas Gerais"

Jefferson da Fonseca, presidente da Fundação de Arte de Ouro Preto

6) Existem propostas de abrir sedes em outras cidades?

Estamos trabalhando na nova sede em Guaxupé. Na medida em que a gente firma um termo de cooperação técnica com os municípios, passamos a atuar em espaços pertencentes e cedidos pelas prefeituras.

7) Quais os planos para Belo Horizonte?

Na capital, temos um termo de cooperação com o Centro de Arte Popular, na rua Gonçalves Dias. Vamos potencializar o nosso trabalho em BH, mas a proposta também vai potencializar o interior. A ideia é identificamos forças e trazê-las para que a capital a conheça ainda mais. Os belo-horizontinos têm que conhecer a riqueza do nosso Estado. Esperamos, a partir de março, dar início a uma exposição no Centro de Arte Popular, que deverá ser um espaço que valoriza a arte de toda Minas Gerais.

8) Qual era o orçamento da fundação quando você assumiu e qual é o deste ano?

Atualmente, é de 4 milhões de reais para manutenção, pessoal, ações de promoção e a escola. Somam-se a isso os valores que estão sendo fechados com os municípios. O orçamento da fundação é específico, e as ações nos municípios são cobertas por eles. Portanto, com a expansão para outras cidades, dobramos a nossa capacidade sem alterarmos orçamento do Estado. Utilizando recursos privados e públicos dos municípios, estamos falando da ordem de 8 ou 9 milhões de reais.

9) Todos os anos Ouro Preto sofre com as chuvas. O caso mais grave foi o desmoronamento, no início de 2022, de um morro que destruiu um casarão do século XIX. O que está sendo feito para evitar outras tragédias como essa?

Os desastres naturais existem, e nós lamentamos profundamente a perda de cada equipamento, unidade e casarão. O governo do Estado tem ações pontuais nessa defesa, como o edital Calhas e Telhados, lançado em 2022. Temos encontrado prefeitos e secretários muito atentos a essa questão do cuidado com o patrimônio. Tenho acompanhado todas as ações de responsabilidade que a Secult tem tomado, a publicação de editais para o patrimônio, a presença do Iepha [Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais]. Tenho muito orgulho desse grupo, dessa equipe à qual me juntei em 2021, formada por técnicos muito capacitados.

10) Você é ator, professor e jornalista. Como a sua formação ajuda no trabalho na presidência da fundação?

Venho de uma família muito humilde: sou filho de sapateiro com cabeleireira da região Leste de Belo Horizonte. A arte me salvou, me deu tudo o que eu tenho, e eu aprendi cedo que ninguém a escolhe, ela tem os seus escolhidos, não tolera desaforo, e define se você vai estar em cena como protagonista ou se vai ser um agente técnico que vai ajudar outras pessoas a terem o seu lugar. Nesse momento, eu sou um artista de bastidor. Quem passa pela arte e não tem uma visão melhor do mundo, do outro ou de si mesmo não entendeu o que a arte quis dizer. É muito bom poder trazer a minha experiência de 30 anos de carreira no cinema, no teatro e no jornalismo. Hoje, vivo a soma dos meus conhecimentos e o que eu tenho tentado oferecer de melhor na Faop é a escuta que a arte e o jornalismo me deram.

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