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Estado de Minas ENTREVISTA

A importância de PPPs e concessões nas áreas de saúde e educação

CEO da divisão de concessões e parcerias público-privadas do grupo Transpes, o empresário mineiro Ruz Gonzalez fala sobre o tema


postado em 02/05/2023 14:24

(foto: Christian Silva/Divulgação)
(foto: Christian Silva/Divulgação)
"Eu acordo todos os dias entendendo que estou melhorando a vida de 25 mil crianças em várias escolas e 1 milhão de pessoas atendidas nos centros de saúde nos quais atuamos. E é isso que me torna profissionalmente realizado", diz Ruz Gonzalez, 36 anos, CEO da divisão de concessões e parcerias público-privadas do Grupo Transpes, companhia de logística fundada por seu avô. Apesar do orgulho da história de seu predecessor italiano - que chegou a morar por cinco anos dentro de um caminhão -, Ruz decidiu criar sua própria narrativa de vida. O primeiro passo - talvez o mais desafiador - foi renunciar ao plano de sucessão na empresa da família. Mais do que ter um negócio - ele já teve vários - acreditava que era primordial ter um papel na sociedade no qual pudesse fazer a diferença e deixar um legado social.

Essa inquietação o levou a buscar outros ares, rumo a Nova York, onde se dedicou a estudar as modalidades de privatização, concessão e parceria público-privada (PPP). De volta ao Brasil, uma especialização em relações governamentais aguçou ainda mais suas aptidões.  "A partir daí me foquei no mercado de concessões e parcerias público-privadas", relata o empresário. Em 2014, quando teve início a Operação Lava Jato, sua trajetória se cruzou com a história do Brasil. A decisão de comprar a Inova BH, primeira parceria público-privada na área de educação no país, à época de propriedade da Construtora Odebrecht, o levou a sair do grupo Transpes. "Era difícil para a maioria das pessoas entender como eu poderia cogitar comprar a Inova naquelas circunstâncias. Mas eu já acreditava que aquela era a solução para mudar a história do Brasil". Foram cinco anos de negociações até que a compra fosse efetuada. Para a surpresa de Ruz, sua família voltou atrás e também decidiu investir no negócio. Assim nasceu na Transpes a área de PPPs sociais, voltada para os setores de educação e saúde por meio da SPE Saúde e SPE Inova BH. "Hoje todos estão entusiasmados pelas vantagens do projeto e, principalmente,  por seu propósito."

  • Quem é: Ruz Gonzalez, 36 anos - CEO da Divisão de Concessões e Parcerias Público-Privadas do Grupo Transpes (SPE Saúde e SPE Inova BH)

  • Origem: Belo Horizonte

  • Formação: Administração de empresas com especialização em gestão empresarial pela Nova York University (NYU)

Encontro - Quando surgiram as parcerias público-privadas no Brasil?

Ruz Gonzales - A Lei nº. 11.079, que normatiza as PPPs, foi publicada em 2004. Ela estabelece as normas gerais para a licitação e contratação de parceria público-privada no âmbito da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, podendo ser os contratos administrativos de concessão na modalidade patrocinada ou administrativa. As experiências realizadas ao longo dos anos ajudaram o poder público e os investidores privados a entenderem a complexidade das PPPs e como é preciso oferecer garantias e compensações para ambos os lados. O foco deixou de ser exclusivamente para grandes obras, abrangendo também concessões como iluminação pública, segurança, mobilidade, saneamento, parques e áreas de proteção ambiental, educação e saúde.

Como essas parcerias funcionam?

As PPPs trazem eficiência para algo que não está sendo bem feito pelo poder público, entrando com o aporte financeiro para a realização de um projeto que poderá ser amortizado ao longo de 20 e 35 anos. Ou seja, o poder público faz uma dívida com o privado sem precisar sacar aquele dinheiro de imediato. Por outro lado, é um outro tipo de negócio cuja principal vantagem para o investidor é não depender  das oscilações da economia do país. A empresa privada sabe quanto vai faturar em cada ano, até a amortização total do contrato, quando o bem em questão permanece com o poder público, a exemplo de escolas e centros de saúde.  É diferente da privatização.

Qual a importância das parcerias público-privadas na oferta de serviços e de infraestrutura para a população?

A função da PPP não é só construir e entregar, mas também garantir a manutenção da estrutura, o que reflete diretamente em como esse serviço é prestado à comunidade.  Uma escola que funciona no regime de PPP tem uma infraestrutura de manutenção garantida, possibilitando que diretores e professores se dediquem exclusivamente às suas funções e não tenham que se preocupar com o cano que estourou, a luz que queimou, entre outras demandas diárias.

"A função da PPP não é só construir e entregar, mas também garantir a manutenção da estrutura, o que reflete diretamente em como esse serviço é prestado à comunidade"

Ruz Gonzalez, CEO da divisão de concessões e parcerias público-privadas do Grupo Transpes

Como as demandas são resolvidas?

O profissional que identificar algum problema relativo a manutenção faz uma ordem de serviço que será atendida e solucionada de 24 a 48 horas, o que resulta na eficiência na entrega e na manutenção. Por isso, é o modelo mais eficiente para o governo, não só pela qualidade do serviço prestado, mas também pelo propósito de ofertar um ambiente onde os cidadãos sejam de fato cuidados e amparados.

Onde atuam e quantas pessoas são beneficiadas pela Saúde BH e pela Inova BH?

Hoje atuamos nessas duas frentes. A Inova BH é a primeira PPP de educação do país. Construímos 51 escolas públicas que beneficiam 25 mil alunos em Belo Horizonte, de 0 a 14 anos. E a Saúde BH construiu e administra os serviços não assistenciais de 40 centros de saúde - outros 10 serão entregues até o final de 2023.  Agimos da mesma forma nos dois segmentos: construindo, entregando e mantendo essas estruturas. Contamos com 900 funcionários diretos para realizar as tarefas necessárias de manutenção.

A empresa de sua família, a Transpes, atua no setor de logística. Quando surgiu a ideia de também atuar no setor de PPPs?

Após minha decisão de comprar a Inova BH e o meu empenho em mostrar quais eram os benefícios do segmento para a iniciativa privada e para a população, tendo em vista a escassez de recursos públicos para investimentos em serviços e infraestrutura no Brasil. Em vários países desenvolvidos essas parcerias funcionam muito bem, comprovando a eficácia do modelo. Sempre tive consciência de que uma empresa não deve ter o lucro como único objetivo. É importante impactar positivamente a sociedade para que a sua existência faça sentido.

Você abriu mão da sucessão na empresa de sua família e também já teve negócios em outras áreas. Por que escolheu o segmento de PPPs?

Entendemos que os negócios não têm que ser interpretados somente pelos números, mas também pelo impacto que geram na sociedade. Por isso, hoje a Transpes tem muita satisfação de ter PPPs sociais no grupo, tamanha a importância do segmento. O meu propósito pessoal é o mesmo das PPPs com as quais trabalhamos. Trazer dignidade para o cidadão e transformar os indicadores públicos com eficiência comprovada. Para mim é inadmissível uma criança deixar a escola na sexta-feira e voltar com a mesma fralda na segunda. A prestação de um serviço de qualidade reflete na melhoria de vida de milhares de pessoas. A Secretaria da Educação hoje tem demandas de pais que querem que os filhos estudem em escolas no modelo PPP.

"Infelizmente a taxa de mortalidade dos projetos apresentados para PPPs é muito alta. Mais de  90%, por falta de estruturação e pela burocracia"

Ruz Gonzalez, CEO da divisão de concessões e parcerias público-privadas do Grupo Transpes

Vocês atuam na infraestrutura, mas o atendimento aos cidadãos é prestado por funcionários públicos. Como é essa relação entre os empregados e diretores da Transpes e os empregados das secretarias de Educação e Saúde?

Acredito que seja fundamental que os colaboradores estejam alinhados ao propósito da empresa e trabalhem juntos para o benefício de todos. Eu me empenho em construir uma cultura horizontalizada, onde todos os profissionais são valorizados, têm voz e são igualmente atuantes e responsáveis pelo resultado final.

Qual o faturamento anual do grupo Transpes e quanto desse valor refere-se à área dedicada às PPPs?

O  faturamento total é de quase 1 bilhão de reais por ano. A área de PPPs fatura em torno de 180 milhões de reais, o que significa perto de 20% do total.

Há planos para ampliar a atuação para outras cidades do estado?

Queremos ampliar a nossa prestação de serviço para todo o Brasil. Já estamos conversando com várias prefeituras e governos de outros estados, para detectar novas oportunidades. Por enquanto atuamos somente em BH. O nosso foco é permanecer com as PPPs sociais nas áreas de educação, saúde, e até mesmo, meio ambiente.

Qual o principal desafio enfrentado por interessados na parceria público-privada?

A parceria público-privada é contrato de concessão qualificada que pode ser firmado nas modalidades administrativa e patrocinada, possibilitando a prestação de serviços públicos de interesse local e implantação de mobiliário urbano necessário para tal mister. Ocorre que alguns entraves são enfrentados pelos municípios brasileiros para que efetivamente se aperfeiçoem contratos nesses moldes. Infelizmente a taxa de mortalidade dos projetos apresentados para PPPs  é muito alta. Mais de  90%, por falta de estruturação e pela burocracia.

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