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Estado de Minas SAÚDE

Especialista fala sobre a importância das boas noites de sono

Coordenadora dos Laboratórios de Sono dos Hospitais Mater Dei e Madre Teresa explica, ainda, os modernos tratamentos para casos como insônia e apneia


postado em 29/05/2023 00:18 / atualizado em 29/05/2023 00:37

Diz a lenda que dormir bem é um luxo para poucos mortais. Por isso mesmo, a medicina desenvolveu uma área voltada especialmente para esse tema: o sono, afinal ele é necessário para alcançar uma boa saúde física e mental e é responsável pelo nosso desenvolvimento e pelo pleno funcionamento da máquina humana. Especialista em medicina do sono, a pneumologista mineira Luciana Macedo - que coordena, ao lado da também pneumologista Regina Magalhães Lopes, os Laboratórios de Sono dos Hospitais Mater Dei e Madre Teresa - dedica-se de corpo e alma à área. Ela explica que dormir pouco ou quase não dormir fazem muito mal à saúde de qualquer pessoa, ainda que as horas de sono diárias variem de acordo com a idade da pessoa. As recomendações gerais da National Sleep Foundation, segundo a médica, vão de 14 a 17 horas para recém-nascidos de até 3 meses, a 7 ou 8 horas para idosos acima dos 65 anos. Crianças em idade escolar (de 6 a 13 anos) devem dormir de 9 a 11 horas por dia.

Nesta entrevista, a médica fala sobre estas e outras questões e detalha o que pode ser feito nas mais diversas situações. "Todas as doenças do sono têm tratamento, sejam de origem respiratória, neurológica ou outra", afirma.

  • Quem é: Luciana Macedo Guedes, 54 anos

  • Onde nasceu: Belo Horizonte (MG)

  • Formação: Graduação em medicina na Faculdade de Medicina da UFMG, em 1995. Residência Médica em clínica médica e pneumologia no Hospital Madre Teresa. Especialização em medicina do sono pelo Incor, SP. Especialista em pneumologia e medicina do sono pela Sociedade Brasileira de Pneumologia.

  • Trajetória: Coordenadora dos Laboratórios de Sono dos Hospitais Mater Dei e Madre Teresa

REVISTA ENCONTRO - O sono nosso de cada dia é uma questão de saúde. As pessoas, em geral, estão conscientes disso ou ainda é preciso fazer campanhas sobre a importância de dormir bem?

LUCIANA MACEDO - Embora a importância do sono para a saúde já esteja documentada por inúmeras pesquisas, muitas pessoas ainda não têm esse conhecimento ou não dedicam a devida atenção e cuidado ao sono. Portanto, campanhas que promovem a importância do sono para a saúde são úteis para conscientização e incentivo de hábitos de sono saudáveis. A Associação Brasileira de Sono vem promovendo anualmente a "Semana do Sono", sempre de 13 a 19 de março, com o tema "Sono é essencial para a saúde". Durante a semana são feitas várias ações de conscientização em todo o Brasil, para esclarecimento à população. No dia 17 de março, Dia Mundial do Sono, a data ajuda ainda mais a chamar a atenção para a causa e incentivar as pessoas a entenderem melhor a importância de adotar hábitos saudáveis de sono. No entanto, é importante ressaltar que a conscientização não é suficiente por si só para garantir que as pessoas durmam bem. Causas subjacentes de um sono não reparador, sejam elas distúrbios do sono ou causas ambientais, precisam ser abordadas por especialistas, para que as pessoas possam dormir bem e desfrutar dos benefícios para a saúde que o sono pode oferecer.

Quais os riscos à saúde de quem não se preocupa com ter boas noites de sono sempre que possível?

A falta de sono adequado e regular pode ter diversos efeitos negativos na saúde física e mental. Alguns dos riscos à saúde associados à privação de sono incluem problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade, irritabilidade, estresse; memória e concentração também podem ser muito afetadas. Complicações cardiovasculares, como aumento do risco de hipertensão arterial; doenças cardíacas, como arritmias e infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico, também são associados à falta de sono. A obesidade e diabetes também podem advir devido a alterações nos hormônios que regulam o apetite e o metabolismo. Pode causar o enfraquecimento do sistema imunológico, tornando o organismo mais suscetível a doenças infecciosas e também podem ser afetados a libido e a função sexual em homens e mulheres. Portanto, é essencial que as pessoas durmam o suficiente para permitir que o corpo descanse e se recupere adequadamente. Adotar bons hábitos de sono pode ajudar a prevenir muitos desses riscos à saúde e melhorar a qualidade de vida geral.

"Alguns dos riscos à saúde associados à privação de sono incluem problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade, irritabilidade, estresse; memória e concentração também podem ser muito afetadas"

Luciana Macedo, especialista em medicina do sono

E quais são os benefícios recebidos por quem cuida de dormir bem?

Noites de sono reparador propiciam a melhora da saúde mental, maior equilíbrio, com consequente redução do estresse, ansiedade e depressão, além de melhorar o humor e concentração para ter capacidade de lidar com os desafios do dia a dia. Do ponto de vista físico, a melhor adequação hormonal propicia maior possibilidade de adequação do peso, por controle de apetite e metabolismo. Ocorre também grande melhora do desempenho, incluindo aumento de força muscular, coordenação e resistência, o que é fundamental na prática de exercício físico com segurança e rendimento. O sistema imunológico também se torna mais fortalecido, o que ajuda a prevenir doenças e infecções. Por fim, a melhora da saúde cardiovascular, com a redução de riscos de complicações, é um dos maiores objetivos dos especialistas em sono.

O brasileiro está dormindo mal? E o mineiro? Há pesquisas mostrando como estamos tratando esse assunto?

Sim, o aumento do estresse no mundo moderno, a crescente necessidade de que as pessoas assumam cada vez mais funções e o aumento da mídia digital têm ocasionado um sono de qualidade cada vez pior em todo o mundo e estudos têm mostrado que muitos brasileiros estão dormindo mal. Um  estudo realizado em 2019 pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que cerca de 36% dos brasileiros dormem menos do que o necessário. Como era de se esperar, o período da pandemia da Covid-19 ocasionou piora ainda maior da qualidade de sono dos brasileiros, tendo uma pesquisa realizada em 2020 pela Associação Brasileira do Sono (ABS) mostrado que 73% dos participantes relataram problemas para dormir, sendo que 55% disseram que a qualidade do sono piorou no período. Em relação aos mineiros, não existem estudos específicos, mas é possível supor que a situação não seja muito diferente da média nacional, já que a qualidade do sono está relacionada a vários fatores, como estilo de vida, hábitos de sono e condições de saúde, que são semelhantes em todo o país.

Quantas horas de sono por noite são necessárias para pessoas de diferentes idades? Os bebês, por exemplo, devem dormir mais de 10 horas por dia? E os idosos?

À medida que vamos envelhecendo ocorre uma redução progressiva na quantidade e qualidade do sono, podendo o idoso ter completa ausência de sono profundo, o que leva à necessidade de cochilos para se refazer do cansaço de um sono não reparador. Para bebês, é importante lembrar que eles podem dormir mais de 10 horas por dia, especialmente durante os primeiros meses de vida, quando o sono é fundamental para o seu desenvolvimento físico e cognitivo. A duração do sono noturno depende de muitos fatores, o que torna difícil a caracterização de um número de horas como padrão de normalidade, contudo, a maioria dos adultos jovens relata dormir aproximadamente 7,5 horas durante as noites da semana e 8,5 horas durante as noites do fim de semana. Entretanto, esses números variam muito de pessoa para pessoa e de noite para noite. Alguns indivíduos relatam que precisam de menos de 5 horas de sono para se sentirem bem ("dormidores curtos"), enquanto outros precisam de cerca de 9 ou até 10 horas ("dormidores longos).

Os adolescentes e jovens têm dormido cada vez menos, com tantas atrações digitais, como os jogos on-line. O que é preciso fazer para que mudar essa realidade?

A fisiologia do sono dos adolescentes tem peculiaridades. O adolescente sente sono mais tarde, deveria dormir em média de 8 a 10 horas por noite e, portanto, acordar mais tarde ("fase atrasada de sono"). Entretanto, estudos revelam que mais da metade deles não tem essa duração de sono em função do horário tardio que dormem e da necessidade de acordar cedo pelo horário escolar. A atração cada vez maior pela oferta do digital tem agigantado esse problema, fazendo com que o adolescente vá dormir cada dia mais tarde (60 a 120 minutos), o que tem causado grande privação de sono nessa faixa etária durante a semana. No entanto, existem algumas medidas que os pais podem tomar para ajudar a mudar essa realidade, como estabelecer uma rotina de sono, definindo um horário para dormir e acordar mesmo nos fins de semana. Essa rotina consistente pode ajudar a regular o relógio biológico e melhorar a qualidade do sono. Outra medida é criar um ambiente adequado para dormir silencioso e escuro o suficiente. Estabelecer limites para o uso de dispositivos digitais, evitando a utilização de eletrônicos na cama, como celulares e tablets, pois a luz emitida por esses dispositivos pode prejudicar o sono; incentivar a prática regular de exercícios físicos é uma das medidas mais importantes; e reduzir o volume de ingestão de cafeína e limitar o consumo para até no máximo no período da tarde também são importantes.

Ronco, apneia, insônia... Quem deve procurar um especialista para tratar esses problemas?

Qualquer pessoa que esteja enfrentando problemas com o sono, como ronco, apneia e insônia, deve procurar um especialista em sono para ajudá-la a diagnosticar e tratar esses problemas. Nesse sentido, a melhor arma de que um especialista dispõe para um diagnóstico preciso é uma boa investigação com anamnese completa. Alguns sinais de que você pode precisar de ajuda incluem a dificuldade em adormecer ou permanecer dormindo, seja por fragmentação do sono ou despertar precoce; o ronco cada vez mais alto e frequente, sensação de engasgos; acordar com sensação de cansaço ou sono não reparador; acordar com frequência para urinar durante a noite, a observação pelo companheiro/a de paradas respiratórias durante o sono (apneias); e ainda a dificuldade de aprendizado, perda de memória, cefaleia e alterações de humor.

"O aumento do estresse, a crescente necessidade de que as pessoas assumam mais funções e o aumento da mídia digital têm ocasionado um sono de qualidade cada vez pior em todo o mundo"

Luciana Macedo, especialista em medicina do sono

A doença do sono tem tratamento? Como ele é feito?

Todas as doenças do sono têm tratamento, sejam elas de origem respiratória, neurológica ou outra. Após investigação minuciosa por médico especialista, para que seja estabelecido o diagnóstico e classificação de gravidade, é feito o tratamento individualizado. Na suspeita de apneia do sono o exame chamado polissonografia é o padrão ouro para o diagnóstico, pois possibilita o estudo de variáveis fisiológicas durante o sono e pode ser feito em ambiente hospitalar ou em domicílio. Tendo sido estabelecido o diagnóstico podemos lançar mão de vários tratamentos associados ou não, conforme a classificação de gravidade da doença e as características de cada paciente. Esses tratamentos podem ser: perda de peso, cessação de tabagismo, medicação tópica para reduzir obstruções nasais, fonoaudiologia, aparelhos intraorais de avanço mandibular, respiradores portáteis (conhecidos como Cpap/Bipap) e cirurgias, que devem ser bem indicadas para casos específicos (via aérea superior, bucomaxilofaciais, bariátricas).

E nos casos de insônia?

O tratamento da insônia, sintoma tão frequente na sociedade moderna, também é diverso e depende de cada caso. Sempre é necessário um olhar minucioso para as práticas de higiene de sono e as possíveis doenças do humor que podem estar associadas. O tratamento mais sólido e de resposta duradoura consiste na Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) e infelizmente existe uma escassez de profissionais especializados para essa prática no Brasil. Atenção especial deve ser dada também à adequação da rotina de vida, prática de exercícios físicos e até práticas como yoga, cuja eficácia, hoje, é bem documentada. Todas essas medidas e tratamentos podem ser associados ao uso de uma das opções do grande arsenal de medicações de que dispomos para indução de sono, antidepressivos ou outros, cuja escolha, claro, deve ser individualizada. Importante lembrar também do bruxismo, distúrbio do sono cada vez mais frequente na sociedade, de causas variadas e que pode impactar muito na qualidade do sono.

O que um especialista em sono recomenda a quem tem sono intermitente, mesmo dormindo 8 horas, em média, por noite?

Primeiramente, é necessário saber se o paciente tem a sensação de sono reparador ou não ao despertar pela manhã. Em caso afirmativo, talvez seja necessário apenas adequação da higiene do sono para solidificação do mesmo. Caso contrário, além de dar atenção para a higiene do sono, devemos seguir para a investigação de possíveis causas de fragmentação do sono, como ansiedade, depressão, refluxo gastroesofágico, insônia (atenção especial à menopausa), problemas de vida, etc. Hábitos que em conjunto são denominados de Higiene do Sono são fundamentais para a saúde: crie um ambiente adequado para dormir, quarto escuro, silencioso e confortável e considere o uso de cortinas blackout, protetores auriculares, travesseiro e colchão confortáveis; vá para a cama apenas quando com sono; não assista televisão na cama; estabeleça uma rotina de sono com horários de ir dormir e acordar regulares; evite estimulantes como cafeína e nicotina no período da noite; pratique esportes regularmente até preferencialmente cerca de 4 horas antes da hora de dormir.

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