
Vice-presidente do Pantone Color Institute, Laurie Pressman declarou: “Estamos vivendo um período de transição em que as pessoas buscam a verdade, a possibilidade e uma nova forma de viver. Cloud Dancer exemplifica nossa busca por um equilíbrio entre o futuro digital e nossa necessidade primordial de conexão humana”. Não bastasse, a executiva pontuou que a cor entra em cena como uma espécie de trampolim para a expressão criativa, “à medida que indivíduos e comunidades experimentam além das fronteiras tradicionais, abrindo as portas para uma maior imaginação e inovação”.
No entanto, ao contrário dos anos anteriores, desta vez, a escolha dividiu opiniões de forma bem mais intensa, em particular, nas redes. Jornalista especialista em etiqueta e comportamento, Claudia Matarazzo foi uma das que se manifestaram a favor da opção em seu perfil no Instagram. “Uma cor ótima, que levanta, traz calor para o rosto”. No entanto, uma rápida procura nas redes localiza comentários como: “Não podemos continuar com o Mocha Mousse?”, numa citação à aposta Pantone 2025.
Verdade seja dita, no próprio perfil da Pantone é possível se deparar com várias críticas à escolha. “Um cor sem cor para esse ano”, escreveu um internauta. “O papel higiênico foi a inspiração”, debochou outro, enquanto uma terceira brincou que “as cores declinaram de participar”, referindo-se ao páreo. Bem, talvez causar frisson tenha sido também um dos objetivos do instituto, mas, mesmo assim, diretamente de sua sede, em Nova Jersey, a Pantone optou por fazer um pronunciamento contextualizando que a Cloud Dancer não foi pensada como uma “ausência de cor”, mas, sim, como um tom ativo, sensorial e inclusivo.
Em um caminho diametralmente oposto, a WGSN, renomada plataforma de previsão de tendências, em parceria com a Coloro, enxergou potencial no Transformative Teal, uma fusão fluida de azul e verde aquático que, de acordo com o site, reflete a diversidade da natureza e se baseia em uma mentalidade que prioriza a Terra. “Representa mudança e redirecionamento e pode ajudar a incentivar a resiliência em face dos complexos desafios climáticos”, diz o anúncio. Na mesma toada, renomadas marcas de tintas nacionais e estrangeiras deram continuidade à prática de fazer apostas. Assim, enquanto a Coral mira o Azul Puro, a Suvinil dividiu suas fichas entre o Tempestade (tom de rosa acinzentado que fala sobre intensidade emocional e introspecção) e o Cipó da Amazônia (um verde amarelado que, nas palavras do fabricante, se conecta à natureza e ao coletivo).
Por trás de todo esse movimento, a pergunta que emerge é: até que ponto tais apostas influenciam de fato quem trabalha com os já citados setores criativos? A arquiteta Ana Bahia entende que sim, tais referências de fato impactam. “No entanto, de uma forma sutil. Ou seja, não ditam regras, mas ajudam a criar um consenso silencioso. Mais do que a cor em si, o que se espalha é a atmosfera que ela carrega. E isso, sim, chega ao mercado — especialmente a quem trabalha com criação e curadoria”.

Instada a falar sobre uma possível influência em seu trabalho propriamente dito, a profissional situa: “Particularmente, observo, mas não sigo. Tendências, para mim, são sinais do tempo, não comandos. No meu trabalho como arquiteta, a cor nunca vem antes da escuta. Ela nasce do espaço, da luz, do uso e, principalmente, de quem vai viver ali. As apostas ajudam a entender o momento cultural que estamos atravessando, mas o projeto continua sendo único, construído sob medida, com intenção, afeto e coerência”, pondera.

Feitas essas ressalvas, ela revela que adora trabalhar com o branco em seus projetos. “Para mim, ele funciona como uma base sensível e intencional, na qual a pessoa pode contar a própria história ao longo do tempo — com objetos, memórias, escolhas e camadas que vão se somando. Nesse sentido, a escolha da Pantone conversa bastante com a minha forma de projetar”. Ao mesmo tempo, a arquiteta diz se conectar muito com a aposta da Coral: o azul puro, que, segundo a empresa, pode ser definido como um “matiz de azul com saturação média a baixa e luminosidade baixa”. “É um tom que traz equilíbrio, energia e modernidade”, avalia.
A artista e designer Thaís Mor é outra que observa com atenção as bolsas de apostas, mas, ao mesmo tempo, sem uma anuência automática. “Os apontamentos das cores do ano são sempre bem-vindos para mim, mas nem sempre as uso. Escolhi fazer um trabalho autoral em um atelier exatamente para ter a liberdade de trazer outras reflexões. A cada coleção, a cada momento, trago uma dinâmica. Às vezes, trago uma cor nova com uma do ano (corrente) que dialogam entre si, assim como outras vezes coloco a cor do ano em alguns itens de complemento”.

Na verdade, ela lembra que já coincidiu de uma cor do ano ser uma tonalidade com a qual já trabalhava no atelier. “Como o ‘azul profundo’ presente em grande parte das minhas produções. Enfim, gosto de brincar com os tons, sendo do ano ou não, gosto de ter a liberdade de experimentá-los. E uma coisa digo: o meu público adora cor!”. Ressalte-se: além da Coral, o azul também foi a escolha da pernambucana Iquine.

Perguntada sobre o Cloud Dancer, ela considera a escolha da Pantone para 2026 como um contraponto a tanta aceleração, excesso de informação, do digital e desordem social. “O ‘branco gelo’, como eu descreveria o chamado Cloud Dancer, nos convida ao nada, nos inspira frescor em tempos de calor e exaustão. O respiro, a desconexão do excesso com a possibilidade da contemplação. O branco nos inspira a tantas possibilidades, mas nos faz parar e voltar ao mundo real. O mundo mudou rápido demais e a humanidade precisa desacelerar e se reconectar consigo mesma. Branco inspira calma, o papel em branco nos dá o suporte para criar, escrever, pintar e imprimir o novo. O branco é o ‘não à saturação’, o que abre uma nova perspectiva sobre tudo”.
Coordenadora de estilo e diretora criativa da Patogê, Raíssa Manso é outra cujas antenas estão sempre abertas para captar as apostas de tendências, ainda que, como as demais ouvidas na reportagem, não seja às cegas. “Aqui, na Patogê, a gente assina a WGSN, por exemplo, que, na minha opinião, traz previsões que depois se mostram muito acertadas. Por outro lado, a Pantone tem uma penetração maior no público”, afirma.

Para 2026, especificamente, ela aventa que a opção da Pantone talvez seja mais fácil de trabalhar em se tratando de Brasil. “Essa pegada do Cloud Dancer, quase um off white, tem ótima aceitação no nosso mercado. O público brasileiro tem usado muito essa cor, que sugere pausa, leveza... Uma limpeza dos excessos que a gente viu nos últimos anos - mesmo com o marrom tendo entrado em alta, os invernos mais recentes vieram com muito colorido”. Por outro lado, ela aponta uma especificidade do branco. “É uma cor que desafia muito os estilistas, no sentido de exigir uma modelagem bem feita, um design mais moderno, de qualidade. O que, aliás, acaba sendo bom, para sair da zona de conforto”.
