
Assim, o Carnaval deixa de ser apenas uma festa sazonal e se consolida como estratégia de sustentabilidade, inclusão e desenvolvimento local, provando que cultura também é política econômica e social.
Impulsionada por investimentos públicos e privados, a folia se consolida como meio de geração de emprego e renda e determina um de seus legados. Do início no século XIX, com o primeiro registro de Carnaval em BH em 1897, do apagamento nos 1990, passando pela retomada no início de 2000 até arrastar uma multidão atualmente, é difícil imaginar esta “festa-produto” voltando ao ostracismo. Pode ter mais ou menos fôlego, mas deve seguir girando negócios e diversão.
Após o processo de retomada, os blocos de Carnaval passam agora por um processo de profissionalização, única saída para a sobrevivência ao longo do ano. Gerar arrecadação extra é a busca de todos. No entanto, apesar da estrutura mais organizada e empresarial, continuam arcando com altos custos, da produção ao pessoal. E, por enquanto, números, lucros e fontes exatas de renda são mantidos sob sigilo, e os blocos evitam revelar quanto realmente ganham. Segredos de um negócio incipiente por aqui.
Leandro César, membro da diretoria do Então, Brilha!, afirma que a principal fonte de receita ainda é o cortejo, momento em que a visibilidade traz marcas e patrocínios. No entanto, há uma linha de produtos da lojinha do bloco que movimenta o caixa, principalmente com o modelo de camisa com arte personalizada a cada edição. Ele destaca ainda o fluxo das oficinas, no segundo semestre, “uma receita que sustenta, basicamente, aquela estrutura que é dos oficineiros, professores, local de ensaio etc”. Sem falar que o bloco concebe projetos para se inscrever em editais culturais. “Eventualmente, conseguimos algum recurso público de premiação ou mesmo patrocínio de alguma empresa, mas sempre ligado às legislações de incentivo fiscal. Fazemos shows, tanto no período do Carnaval como ao longo do ano, e estamos presentes em eventos corporativos em cidades do interior. São fontes diversas”.
O empresário folião enfatiza a força da marca, que começou de forma espontânea e desenvolveu uma relação íntima com o público e com a cidade. “No começo, tudo foi artesanal e pouco pretensioso, porque a gente não sabia onde isso ia dar”. Com o tempo, a dimensão do Brilha, como carinhosamente é chamado pelos seguidores, cresceu e, agora, há um trabalho contínuo de fortalecimento da marca, por meio de redes sociais, imprensa e parcerias.
“Nunca houve o objetivo de transformar a marca em um ativo comercial. A ideia sempre foi que ela se tornasse um ativo social e político. O interesse dos patrocinadores tem relação direta com nossa conduta, competência e profissionalismo. Isso se desdobra em ações concretas, como o lançamento de músicas quase todos os anos, a renovação artística da identidade visual com artistas convidados e o desenvolvimento de outros projetos. Entre eles, o Seminário Farol (um seminário formativo) e o concurso de composições ‘Magia Tropical’.
Leandro reforça que, mesmo com este salto, desafios persistem porque o bloco não abre mão de ser uma manifestação cultural popular e uma associação cultural sem fins lucrativos. “É claro que a gente quer que o bloco gere trabalho e renda para quem está envolvido, e isso já é uma realidade. Não há mais trabalho voluntário. Hoje, a perspectiva é mais profissional e todas as pessoas que trabalham são remuneradas. Mas há negociações delicadas, especialmente por conta do posicionamento político. No entanto, existem marcas que compreendem isso, reconhecem nossa responsabilidade social e pública e topam caminhar junto. A gestão da arrecadação se alinha com uma perspectiva coletiva de tomada de decisões baseada em reuniões, assembleias e construção conjunta das ações”.
Vários outras agremiações repetem o mesmo padrão de empreendedorismo. Mas o apoio mensal dos participantes ainda segue tendo relevância. Assim como a viabilização por meio de editais de cultura. Heleno Augusto, vocalista e organizador do Havayanas Usadas, conta que as atividades regulares ao longo do ano se sustentam por meio dos ensaios e oficinas de musicalização realizados desde abril de 2025. Essas atividades contam com a contribuição mensal dos participantes, o que ajuda a compor o caixa. Já o desfile é viabilizado por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. Além disso, a receita também chega com a venda de produtos próprios, como pochetes, camisetas, baquetas e bonés.
Ele lembra que, no começo, até conseguir um patrocínio privado, o bloco dependia da verba dos shows da banda para custear o desfile. Aos poucos, outras fontes foram agregadas, como as oficinas de percussão e de dança que turbinam as finanças. “A marca cresceu bastante nesses dez anos e esperamos pelo dia em que teremos uma verba garantida de manutenção anual. É possível viver de Carnaval, mas nos desdobramos em diversos blocos e outros trabalhos para ter uma renda melhor. A falta de verba no período entre um Carnaval e outro é desafiadora. No entanto, atraímos parceiros que querem se associar à marca com os desfiles com temáticas relevantes, convidados de talento e um trabalho musical em constante evolução. Além disso, a Bateria Chinelada é formada por pessoas que se identificam com os ideais do Havayanas Usadas e atuam como embaixadoras do bloco”.

Kerison conta que, na medida que o Volta Belchior atraiu mais de 100 mil pessoas nos cortejos e já tem mais de 20 mil seguidores nas redes sociais, a marca se tornou atrativa. “Nosso destaque também vem do fato do bloco ser em homenagem a um ídolo que ganha cada vez mais fãs, assim, temos ‘belchianes’ de todos os cantos do país. Como é um trabalho envolvendo centenas de pessoas e milhares de admiradores, as marcas se interessam em associar a imagem ao bloco”. Vale lembrar que, como outros, o bloco tem sido patrocinado pela Ambev e Cemig, que nos últimos anos foram os maiores investidores do Carnaval de BH. Em 2026, não há confirmação de maiores interessados. Dois editais da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) foram declarados “desertos”, sem interesse.
Este ano é especial para o Volta Belchior, que celebra dez anos de rua. O ídolo completaria 80. Então, é um marco para comemorar. “Todo ano levamos um trecho de música do Belchior para a avenida. Este ano o tema é “Volta Belchior – 10 Anos entre o Sonho e o Som”, que vem da música “Todo Sujo de Batom”, de 1974. Fizemos uma camisa comemorativa que já é sucesso de venda. E vamos intensificar a criação de produtos com essa temática. O Carnaval de BH tem a característica de ser popular, espontâneo, genuíno e com forte conteúdo político em defesa da liberdade, da justiça e da tolerância. Nosso desafio é sempre manter esse caminho. Fomos obrigados a nos profissionalizar, mas sem nunca perder nossa essência”.

Ele lembra que, no início, não existia apoio público da forma como é atualmente. Então, o bloco fazia ações com estrutura mínima. “Criamos o costume de vender produtos durante o período de ensaios e, assim, juntar o dinheiro necessário para pagar a festa. Já fizemos financiamentos coletivos e festas em conjunto com outros blocos para angariar recursos. Temos uma série de produtos licenciados com a marca da Juventude Bronzeada, como camisas, bonés, bolsas e outros acessórios personalizados, que são comercializados apenas durante o período de preparação para o carnaval”.
Como outros blocos, o Juventude Bronzeada enfrenta a falta de recursos. “A cada ano os custos crescem e tornam o cenário desafiador. A essência do bloco de ensaios gratuitos e participação democrática gera custos operacionais. Isso ilustra nosso dilema: manter tradição de acesso livre e causas coletivas, mas arcar com despesas de som, segurança etc. As decisões estratégicas privilegiam ações culturais em vez de conteúdo puramente comercial. Por exemplo, fazemos oficinas de percussão e manifestações temáticas (como ensaio contra mineração na Serra do Curral) para manter o bloco relevante sem abrir mão da identidade ativista”, reforça. Neste ano, o Juventude Bronzeada irá explorar o tema “As coisas boas são de graça”, celebrando aquilo que não se mede em dinheiro, mas que sustenta a vida coletiva. O desfile exalta o valor da amizade e dos vínculos afetivos.


PERSPECTIVAS PARA O CARNAVAL 2026
- O Carnaval 2026 está previsto para ocorrer entre 31 de janeiro e 22 de fevereiro. A programação oficial do feriado é de 13 a 17. Além de diversas atrações de pré-carnaval. A expectativa é que esta edição registre cerca de 660 cortejos pelas ruas. A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) destinará mais de R$ 3,21 milhões em recursos financeiros, que serão distribuídos entre 105 blocos selecionados.
- A PBH, por meio da Belotur e da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), firmou um contrato de cota de patrocínio na modalidade “chancela colaboração” para o Carnaval 2026, com duração de seis meses, que prevê investimento de R$ 500 mil.
- Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Minas Gerais (ABIH-MG) revelou que a capital mineira já registrava ocupação média entre 70% e 75% na primeira semana de janeiro de 2026.
PARA NÃO PERDER A TOADA
Confira a programação dos blocos ouvidos nesta reportagem
Então, Brilha!: cortejo no sábado, 14/02, na hipercentro de Belo Horizonte, perto da Avenida do Contorno, entre as ruas São Paulo e Curitiba, a partir das 6h
Havayanas Usadas: cortejo na segunda-feira, 16/02, na Avenida dos Andradas*, a partir das 10h
É o Amô: cortejo no domingo de carnaval, 15/02, na Av. Andradas*, a partir das 15h
Chama o Síndico: cortejo na quarta-feira, dia 11/02, na Avenida Afonso Pena, a partir das 18h
Volta Belchior: cortejo no sábado, dia 14/02, na Av. Andradas*, a partir das 13h
Juventude Bronzeada: cortejo na terça-feira, dia 17/02, na Avenida Assis Chateaubriand, 127, Bairro Floresta, a partir das 9h
(*) Avenida dos Andradas sonorizada para o Carnaval de BH tem a concentração por volta do número 3.560 e a dispersão perto do número 4.000