Estado de Minas ENTREVISTA

Novo presidente da Belotur projeta Carnaval com 6,2 milhões em BH

Eduardo Cruvinel assumiu a presidência da empresa municipal a pouco mais de um mês da festa, com a tarefa de desenvolver a vocação da capital para encontros


postado em 03/02/2026 06:21 / atualizado em 03/02/2026 08:35

"Primeira missão: realizar o melhor carnaval do Brasil", afirma Eduardo Cruvinel (foto: Mateus Meireles/Acervo Belotur/Divulgação)
Nomeado presidente da Belotur a apenas dois meses do maior e mais simbólico evento do calendário belo-horizontino, o Carnaval, Eduardo Cruvinel assume o comando da empresa municipal de turismo em um momento de alta exposição, pressão operacional e expectativa pública. À frente de uma festa que deve reunir mais de 6,2 milhões de foliões e movimentar mais de R$ 1 bilhão na economia da cidade em 2026, o novo presidente estreia no cargo com a missão de entregar o que ele próprio define como “o melhor Carnaval do Brasil”, equilibrando crescimento, segurança, sustentabilidade e convivência urbana.

A nomeação, feita pelo prefeito Álvaro Damião, é definida pelo indicado como de caráter “estritamente técnico”. Cruvinel, afinal, é funcionário efetivo da Belotur há 20 anos, aprovado por concurso público, e conhece a empresa por dentro: passou por áreas como planejamento, eventos, observatório do turismo e estudos de impacto econômico. Turismólogo formado pela Newton Paiva, com pós-graduação em Análise de Políticas Públicas e mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG, ele se orgulha de ter construído uma trajetória voltada à valorização do patrimônio cultural e à transformação da cultura em ativo turístico.
 
  • QUEM É: Eduardo Cruvinel
  • ORIGEM: Bambuí (MG)
  • CARREIRA: Presidente da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur); funcionário de carreira na empresa há 20 anos. Turismólogo formado pela Newton Paiva, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG. Bacharel em Administração Pública pela Universidade Federal de Lavras. Atuou nas áreas de planejamento, eventos, pesquisas e estudos de impacto econômico e já coordenou ações ligadas à economia criativa e atuou em frentes que contribuíram para a obtenção do título belo-horizontino de Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco.
Nesta entrevista à Encontro, Cruvinel detalha os bastidores de sua chegada ao cargo, fala sobre os desafios imediatos do Carnaval – da articulação com blocos e órgãos públicos à questão dos patrocínios – e reforça que todos os recursos para a festa estão assegurados no orçamento municipal. 

REVISTA ENCONTRO - Como se deu o convite para que você assumisse a presidência da Belotur? Foi surpresa ou algo esperado?
 
EDUARDO CRUVINEL - O convite veio com um pouco de surpresa para mim. Ao mesmo tempo, acompanhado de muita alegria e honra. O convite partiu do partido e do próprio prefeito Álvaro Damião, que me procurou diretamente. Isso me engrandece bastante, porque representa um reconhecimento da minha trajetória e da minha dedicação. Sou funcionário efetivo da Belotur, trabalho aqui há 20 anos, passei por concurso público e conheço profundamente a instituição: as pessoas, os processos, o funcionamento. Tenho muito orgulho dessa trajetória. Então, assumir a presidência veio como a possibilidade de contribuir ainda mais, agora em uma posição diferente, tentando colocar a experiência acumulada ao longo desses anos a serviço da Belotur como um todo, de forma mais ampla e estratégica.

Quando essa conversa aconteceu?
 
Foi em meados de dezembro. Pesou muito o fato de eu conhecer profundamente a Belotur, por já ter trabalhado em diversas frentes: eventos técnicos e científicos, planejamento estratégico, acompanhamento de indicadores, pesquisas e estudos. Esse arcabouço todo contribuiu para a decisão dele. Minha nomeação foi estritamente técnica: não tenho filiação partidária nem histórico de atuação político-partidária. Foi uma decisão baseada na minha trajetória dentro da empresa e no meu perfil profissional.

O senhor é turismólogo. Nos conte um pouco sobre sua trajetória. 
 
Eu nasci e fui criado em Bambuí, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Desde a adolescência, sempre tive interesse por idiomas e geografia. Ainda no ensino médio, tive a oportunidade de fazer um curso técnico em turismo no então Cefet-MG de Bambuí. Depois, vim para Belo Horizonte para cursar a graduação em Turismo. Foi meu primeiro contato com a capital, um jovem saindo do interior com esse propósito. Me formei pela Newton Paiva e, logo no primeiro período da graduação, consegui um estágio internacional no Vale Nevado, no Chile. Fiquei lá 30 dias, tive contato com uma das maiores cadeias hoteleiras do mundo e essa experiência validou ainda mais minha escolha profissional. Ainda na graduação, passei no concurso da Belotur. Fiz mestrado na UFMG. Meu trabalho sempre esteve ligado à valorização dos bens culturais que nascem como manifestações da cultura e se tornam atrativos turísticos. Ao longo desses anos, fiz diversos cursos no Brasil e no exterior, participei de formações da Organização Mundial do Turismo, da Fundação Cervantes. 

E como têm sido essas duas décadas de Belotur?
 
Já atuei em várias frentes: liderei o concurso fotográfico da Pampulha, o seminário Cidades e Destinos Turísticos Inteligentes, que teve cinco edições, duas edições da Bienal da Gastronomia. Hoje, sou ponto focal de Belo Horizonte como Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, o que envolve intercâmbio com outras cidades do mundo. Também coordenei o Observatório do Turismo, responsável pelas pesquisas e estudos de impacto econômico do setor, com produção de artigos acadêmicos e dados estratégicos. É uma trajetória longa, construída com muito carinho pela empresa e, sobretudo, com muito amor por Belo Horizonte, cidade que me acolheu e onde vivi metade da minha vida.

Você assumiu praticamente às vésperas do Carnaval, que acontece em meados de fevereiro... 
 
Sem dúvida, a primeira e mais urgente missão, tanto pelos prazos quanto pelo impacto simbólico e econômico, é realizar o melhor Carnaval do Brasil. Esse é o principal desafio inicial da minha gestão. Temos elementos que ajudam muito: a força da sociedade civil organizada por meio dos blocos de rua, um planejamento integrado envolvendo 19 órgãos da Prefeitura e uma festa que é diversa, segura e acolhedora. O Carnaval de Belo Horizonte se destaca justamente por essa integração. As pesquisas mostram que o item mais bem avaliado é a segurança. As pessoas se sentem seguras durante o Carnaval, graças a um trabalho intenso de monitoramento, com o Centro de Operações da Prefeitura atuando de forma contínua. Além disso, quem visita BH no Carnaval sai encantado com a cidade, com a gastronomia, com a hospitalidade. Há um esforço enorme de limpeza urbana, mobilidade e organização. É um trabalho coletivo, que envolve SLU, BHTrans, Guarda Municipal, Corpo de Bombeiros, produtores, ambulantes, catadores, hotelaria e comércio. 

Já existem projeções de números para o Carnaval de 2026? 
 
A expectativa é superar 6,2 milhões de foliões durante o Carnaval de 2026 e ultrapassar R$ 1 bilhão em movimentação econômica na cidade. São números expressivos, que refletem a grandiosidade da festa e o impacto em toda a cadeia produtiva: produtores, fotógrafos, catadores, ambulantes, hotelaria, bares, restaurantes. Esses dados mostram o quanto o Carnaval é um motor econômico e social para Belo Horizonte.

Houve dificuldades com os editais de patrocínio do Carnaval 2026, alguns ficaram desertos. Isso pode trazer prejuízos para a festa?
 
É importante esclarecer um ponto: não há nenhuma preocupação em relação à realização do Carnaval de 2026. Todos os recursos estão assegurados no orçamento da Prefeitura de Belo Horizonte. As licitações, contratos e pagamentos estão sendo conduzidos de forma programada e responsável. O Carnaval está garantido e será o melhor Carnaval do Brasil. Em relação aos patrocínios, seguimos rigorosamente a legislação, sempre pautados pela ética e pela isonomia. Os editais foram publicados e encerrados, e a legislação permite também a captação direta, o que amplia as possibilidades. Além disso, o Carnaval não é feito apenas pela Prefeitura: ele é feito pela população e pelos blocos. Estimamos mais de 800 reuniões de planejamento com blocos e órgãos públicos. Já temos, inclusive, patrocinadores confirmados, como a CDL, que além do aporte financeiro, articula o comércio para que tudo funcione bem durante o período.

Ainda sobre o Carnaval: quais são os principais desafios e oportunidades para esta edição? O que pode amadurecer no modelo atual?
 
O principal ponto é manter e aprofundar a integração com todos os atores: blocos, escolas de samba, produtores, comunidades. O Carnaval é uma festa feita por muitas mãos, e sempre há espaço para evolução. Também é fundamental estimular que as pessoas convidem amigos e familiares, ampliando a difusão do Carnaval de BH. Esse movimento orgânico fortalece a festa e gera impactos positivos para a cidade.

Para além do Carnaval, quais os projetos que a Belotur trata como prioritários?
 
Na sequência do Carnaval, temos a Jornada Pascal, um evento que passa a integrar nosso calendário e que dialoga com o turismo religioso, um segmento que cresce no Brasil e no mundo. Depois, pretendemos entregar ações específicas para o período da Copa do Mundo (que acontece entre 11 de junho e 19 de julho), aproveitando o momento em que o brasileiro se envolve com o futebol. A ideia é estimular o uso dos espaços urbanos, criar ambientes de convivência e proporcionar experiências para quem estiver na cidade durante esse período. Na sequência, temos o Arraial de Belo Horizonte, realizado no Mineirinho, que é um dos eventos mais importantes do nosso calendário. Ele é reconhecido pelo Ministério do Turismo como o quinto maior festejo junino do Brasil e vem se qualificando a cada ano, especialmente no aspecto gastronômico – afinal, falar de festa junina é falar de comida. No segundo semestre, temos também a celebração do aniversário de Belo Horizonte, com uma festa voltada para a população, e a perspectiva de realizar ações integradas no período de fim de ano, unificando Natal e Réveillon, para trazer algo relevante e atrativo para a cidade nesse momento.

No ano passado, logo que Álvaro Damião assumiu a Prefeitura, ele falou à Encontro sobre o desejo de transformar a capital em uma cidade de grandes eventos. Recentemente, tivemos a conclusão do edital Belo Horizonte – Cidade dos Eventos, que destina R$ 3 milhões a 26 iniciativas. Qual é o papel da Belotur nesse projeto?
 
Esse edital, por si só, já traduz muito bem essa estratégia. A Belotur, assim como outras pastas da Prefeitura, realiza eventos diretamente voltados para moradores e turistas, mas existe também uma cadeia muito forte de produtores independentes que movimentam a cidade com eventos ao longo do ano. O edital funciona como um programa de fomento para essa cadeia produtiva. Ao destinar R$ 3 milhões para apoiar eventos com potencial turístico, a Prefeitura estimula a criação, a consolidação e a permanência dessas iniciativas no calendário da cidade. Ele contempla uma diversidade grande de formatos: shows, congressos, feiras, eventos gastronômicos, eventos em espaços abertos e fechados. Isso ajuda a dinamizar o calendário, atrair visitantes de outras regiões e fortalecer a economia local. É motivo de orgulho compartilhar esse investimento com quem produz a programação da cidade no dia a dia, ampliando as opções tanto para moradores quanto para turistas.

Quais são as principais deficiências, obstáculos e desafios da cidade hoje para se transformar numa forte cidade de eventos? 
 
Eu acho que o primeiro ponto é a integração entre o poder público e a iniciativa privada. Às vezes, a iniciativa privada caminha sozinha, e há espaço para uma construção mais conjunta. Todo mundo quer que a cidade brilhe, que os eventos tenham qualidade e que isso gere retorno econômico e social. A entrega de eventos de qualidade passa por fazer com que as pessoas se sintam pertencentes, participantes desses momentos. Esse é o objetivo final. Há desafios, sim, especialmente em áreas como transporte e mobilidade, mas também temos avançado. Um exemplo é a liberação de ônibus gratuitos aos domingos. Outro avanço é o Madrugão, com linhas de ônibus operando em horários estendidos, ampliando o acesso aos eventos noturnos. Também temos o barco turístico da Pampulha, que tem sido um sucesso: todos os passeios saem com lotação máxima, oferecendo uma experiência segura, educativa e gratuita. Esse projeto, inclusive, ajudou a quebrar um estigma de que algo assim não poderia acontecer na Pampulha, que é Patrimônio Cultural da Humanidade reconhecido pela Unesco. Foi uma decisão ousada, com aprendizados, mas também com muitos ganhos, que se tornou um marco para a cidade.

Você mencionou a importância do diálogo com diversos setores. Como você pretende fortalecê-lo?
 
Esse é um ponto central. Acredito que a Belotur mantém uma boa relação com os diferentes setores e segmentos. Belo Horizonte também carrega o título de Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, e a gastronomia é apenas um dos campos criativos envolvidos. Quando recebemos esse título, ele vem acompanhado da diretriz de fomentar também outros campos: audiovisual, música, cinema, design. Tudo isso se conecta. O design está na experiência gastronômica, no prato, na embalagem, no avental, na ambientação. Essa transversalidade é estratégica para a Belotur. Trabalhar a economia criativa como um ecossistema integrado é algo que não perdemos de vista.

Outro tema importante é a sazonalidade. A Belotur pensa em ações para estimular o fluxo turístico fora dos grandes eventos?
 
Sim. O próprio barco turístico é um exemplo disso, especialmente no período de férias. Ele gera fluxo, movimenta a região da Pampulha e acaba estimulando outras atividades no entorno. O calendário de eventos também ajuda a preencher esses vazios, distribuindo atrações ao longo do ano. Temos um segundo semestre forte, um Carnaval que mobiliza meses de planejamento e uma agenda que busca manter a cidade viva e ativa o tempo todo. E é curioso notar que estamos conversando com a Encontro justamente quando nossa campanha turística se chama “Te encontro em BH”. Acho que houve um match simbólico aí, inclusive. Aproveito para convidar vocês a ajudarem a disseminar essa ideia – afinal, encontro combina muito com Belo Horizonte e com a Encontro.

Os comentários não representam a opinião da revista e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação