
Também inteligentíssima, aproveitou o ensejo e adotou a personagem vestida de um humor ácido para suas postagens sobre as normas da língua portuguesa, etiqueta e oratória . Fez sucesso. Hoje, soma 7,5 milhões de seguidores no Instagram, 752 mil no TikTok, meio milhão de inscritos no Youtube e segue contando. Mas não só.
Após um período conturbado — com um casamento dos sonhos, em 2024, com o deputado estadual por São Paulo Lucas Bove (PL) com direito a cerimônia na Itália, seguido de uma separação turbulenta, apenas três meses depois, com relatos de agressão física e ameaças —, Cintia segue, aos 43 anos, em frente com a vida. E, neste 2026, ela está com tudo. E não está prosa.
Além de ter lançado, neste primeiro semestre, dois livros — “A Dor Comum - A urgência que nos une” (Editora Planeta, 144 pp, R$ 49,90), escrito juntamente com a jornalista e ativista gaúcha Manuela D’Ávila, e “Sexo, amor e hipérboles” (Maquinaria Editorial, 208 pp, R$ 59) —, a influenciadora ampliará ainda mais seu alcance: vai estrear na TV aberta neste mês de maio com o quadro “Calma, que eu explico”, no “Domingo Espetacular”, na Record. Proposta que trará a ela um novo tipo de visibilidade, “com desafios diferentes e muito estimulantes, como eu gosto”, diz.

Formada em Letras pela UFMG, Cíntia desenvolveu um método de ensino que a levou a se tornar um fenômeno no mercado editorial. A escritora estreou no mundo literário em 2018 com o livro “Sou Péssimo em Português”, depois lançou “Um Relacionamento Sem Erros de Português”. Foram mais de 150 mil livros vendidos.
Agora, celebra o fato de falar sobre a língua portuguesa em um programa de grande alcance popular. “É democratizar um conhecimento que, por muito tempo, foi tratado como inacessível, excessivamente técnico ou reservado a uma elite intelectual e econômica. Espero quebrar essa barreira (ainda que muitos me rotulem elitista): mostrar que é possível aprender com leveza, com humor e sem perder a profundidade. A língua não precisa ser um instrumento de exclusão; ela pode — e deve — ser uma ferramenta de autonomia e de expressão; e não podemos negar a relevância da norma-padrão nesse processo”, determina.
Antes da comentada estreia na TV, chegou às livrarias em março “A dor comum - A urgência que nos une”, obra que nasceu de um encontro inusitado entre a influenciadora, associada à direita e com certa resistência às feministas, e Manuela D’Ávila, ex-deputada federal historicamente vinculada à esquerda e ao feminismo. As duas foram entrevistadas conjuntamente em um programa da GloboNews. E o que era expectativa de um diálogo bélico se mostrou um momento de escuta, reconhecimento mútuo e reflexões.

“Me vi, primeiro, vulnerável, por não dominar amplamente esse debate. Depois, sendo movida por desafios, fui em busca de leitura, de pesquisa, e o temor inicial cedeu lugar a uma mente mais segura e, inclusive, mais consciente de que esse debate é interminável e de que a aprendizagem ali seria compartilhada, justamente por sermos duas mulheres que falam de lugares diferentes sim, mas também de lugares que nos apresentam similitudes. Em resumo, dividir essa escrita foi me permitir a, em nome da aprendizagem, correr riscos”, conta.
Cíntia se arriscou por um tema relevante. O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da última década. Foram 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024, quando houve 1.492 casos. Os dados, divulgados no último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
“A experiência desse diálogo me desnudou uma realidade para a qual eu estava adormecida e, por que não dizer, alienada a outra realidade. Entendi, a partir da minha experiência e dos relatos das experiências de outras mulheres, os riscos que corremos apenas por sermos mulheres, e quanto agravante há quando vivemos na negação desses riscos. Eu tenho de acreditar em mudanças, obviamente, pois eu sou exemplo de mudanças. A saída está na união, no fortalecimento das mulheres, na representatividade feminina nos espaços de poder”, afirma.
A escuta, nesse cenário, diz a mineira, deixou de ser um gesto passivo e passou a ser um ato de refinamento, de elegância, de educação. “Escutar exige silêncio — e o silêncio, atualmente, é quase uma ousadia. Exige também humildade intelectual, o que não combina muito com a necessidade contemporânea de estar sempre certo, de ter sempre razão”, afirma.
Ao final de todo este processo, a pergunta que não quer calar: é possível dialogar com quem pensa diferente? Para Cíntia, sim. No entanto, não é uma experiência automática e exige maturidade emocional e alguma disciplina intelectual.
“O primeiro equívoco é acreditar que diálogo existe para convencer. Não, não existe. Debater para vencer um debate é já desistir de compreender. E, sem compreensão, não há diálogo — há disputa – e briga. Dialogar é, antes de tudo, separar o debate das ideias do debate de pessoas (de identidades), algo que muita gente ainda não aprendeu a fazer. O outro não é o seu argumento”, determina.
Ao ser provocada se é possível falar do feminismo em uma pauta que ultrapasse esquerda ou direita ou defender os direitos das mulheres sem rótulos ideológicos, Cíntia alertou que é necessário “separar o real do ideal”. Para ela, a discussão deve estar além da polaridade política, “mas não está, infelizmente. Eu me posiciono em favor das mulheres, de nossos direitos e sua garantia. Da nossa liberdade e segurança. Isso não deveria ser postura de direita ou de esquerda, mas um cuidado óbvio e de todos. Apesar dos avanços nesse tema, ainda há muito o que melhorar, senão não estaria havendo esse aumento tétrico do número de mulheres assassinadas. Muito a melhorar, haja vista ainda ser necessário explicar por que a mulher precisa de mais proteção.”
Ousadíssima
Quase simultaneamente ao lançamento em duo de “A dor que nos une”, a autora se lançou em voo solo com “Sexo, amor e hipérboles”, uma coletânea de 30 contos eróticos. A obra traz um ensaio fotográfico de Cíntia, tem prefácio escrito por Sônia Rodrigues, filha do escritor Nelson Rodrigues (1912-1980), e ilustrações inspiradas na obra do artista expressionista austríaco Egon Schiele (1890 - 1918). Nas páginas, personagens desafiam discursos morais em nome do desejo.
“Falar de sexo, amor e exageros (hipérboles), por meio de contos, foi um processo bastante natural. Até porque eu narrei situações vividas por mim ou ouvidas. Ora fui protagonista, ora fui coadjuvante, ora fui ouvinte das cenas. A hipérbole entra no exagero de algumas ações e reações”, explica ela, que fala também sobre o desafio de se aventurar pela primeira vez neste gênero literário. “O conto tem uma virtude que me seduz profundamente: ele entra e vai embora antes que o leitor consiga se recompor. Há, sim, um impacto mais rápido. Não há espaço para dispersão. Cada palavra precisa merecer estar ali, entende? É necessário saber escolher. E isso é um exercício deveras atraente para uma escritora como eu.”
Cíntia está segura de que todos vão se reconhecer em seus contos. E quanto à reação dos leitores, acha complexo verbalizar um único cenário: “As pessoas são individuais, ainda que vivendo no coletivo. Uma reação única, não a espero. Eu escrevo justamente para provocar reações distintas. Quero o leitor desconcertado, às vezes incomodado, ocasionalmente seduzido… e, em muitos momentos, exposto. Isso porque, quando alguém se reconhece num texto e pensa ‘isso não sou eu’ — é exatamente aí que eu sei que acertei”, diz.

Diante de tantos projetos — ela também segue com seus cursos e palestras por todo o país —, a profissional reconhece que seus dias têm sido bastante intensos. Mas, sobretudo, gratificantes. “Cada um desses projetos carrega uma parte importante de mim, então acompanhar a repercussão tem sido quase como assistir a diferentes capítulos da minha própria história ganhando o mundo – e mais, como comentei esses dias com um amigo, um desses projetos, o livro, me faz almejar, no futuro, um reconhecimento de relevante escritora no país”, ambiciona.
História de sucesso que Cíntia reconhece ter sido herança dos ensinamentos da avó materna, dona Orlandina, por quem foi criada. “Vovó foi uma mulher extremamente ligada ao trabalho e à autonomia feminina. Aliás, foi a pessoa que mais teve fé em mim... Cheguei até aqui graças a ela, que me deu acesso a uma das melhores escolas de Belo Horizonte”, lembra a mineira, que pediu para que a avó a colocasse, à época, no colégio Promove, uma das melhores instituições de ensino na década de 1990, localizada no bairro Serra.
Com a avó, a influenciadora conta que aprendeu o significado de amor incondicional. “Ela era alegre, adorava dançar e tinha muita fé…” Aprendeu também a importância da independência. Além de uma boa escola, dona Orlandina a matriculou no inglês e num curso de etiqueta. Tudo em apoio aos desejos da neta, que já visionava o futuro. “Ela me criou para ser independente, para ser vencedora, para ser rica. ‘Nunca dependa de homem, nunca dependa de homem…’ Era o que ela me dizia quase diariamente. Seja como for, deu certo. E não há um dia em que eu não converse com ela, conquanto tenha partido em 2010”, confessa.
Cíntia se recorda com carinho da infância na capital mineira, que se dividia entre o bairro em que vivia, o Carlos Prates, e o Funcionários, onde uma tia morava. “Tenho muitas lembranças positivas. Eu era a garota popular do colégio, mas gostava muito de ficar sozinha para ler histórias em quadrinhos e livros da coleção Vagalume e do (escritor) Pedro Bandeira. Nunca tomei recuperação, ainda que fosse festeira. Nos últimos anos em que residi em BH, morei em Lourdes, onde eu havia comprado um apartamento”, conta ela, que se mudou para São Paulo em 2019.
Ainda hoje a escritora mantém muitas relações com a cidade. Especialmente pelos vínculos afetivos — a mãe, Rogéria, o irmão, outros familiares e principais amigos seguem vivendo nas alterosas. Por esse motivo, sempre que a agenda permite, Cíntia dá uma escapada para sua “querida Beagá”, como diz. Vem normalmente por poucos dias e costuma fazer programas curtos, como visitar alguns amigos ou encontrá-los em restaurantes na região de Lourdes.
É em uma clínica da cidade também, a Lenzavi, que Cíntia faz seus tratamentos de beleza. “Eu sou, digamos, intensamente e bastante criteriosa quando se trata de cuidados estéticos e de saúde. E priorizo a confiança. Eu me sinto segura lá”, determina a bela, que admite gostar muito de se cuidar, mas encara esta rotina mais como uma disciplina do que como um luxo. “Para mim, cuidar da imagem é também uma forma de coerência com o que comunico: atenção aos detalhes, equilíbrio e constância.”

Mente afiada, alma confiante, corpo em dia, como será que vai o coração de Cíntia? Após o casamento citado no início desta reportagem com o deputado estadual Lucas Bove, a influenciadora iniciou um novo relacionamento com o deputado federal Fred Costa (PRD-MG), mas o casal decidiu tomar “caminhos diferentes” em dezembro de 2025. Desde então, se diz tranquila. “Nas minhas contas, já tive três casamentos; nas contas da mamãe, quatro. Risos... Mas não quero mais me casar. Estou bem feliz sozinha, na minha linda casa. Tenho paz, organização e liberdade”, finaliza, pleníssima.
Saiba mais
Título: ”A dor comum - A urgência que nos une”
Crédito: Ed. Planeta/DIVULGAÇÃO
Autoras: Cíntia Chagas e Manuela D’Ávila
Editora: Planeta
Páginas: 144
Preço sugerido: R$ 41,17 capa comum; R$ 39,90 e-book
Título: ”Sexo, amor e hipérboles”
Crédito: Ed. Maquinaria Editorial/DIVULGAÇÃO
Autora: Cíntia Chagas
Editora: Maquinaria Editorial
Páginas: 208
Preço sugerido: R$ 59,90