Estado de Minas ENTREVISTA

Gustavo Ziller reinventou a vida após burnout e chegou ao topo do Everest

Autor do livro "Escalando Sonhos: o que senti no topo do mundo", o publicitário fala sobre a jornada de autoconhecimento que vai muito além do esporte


postado em 27/04/2026 09:47 / atualizado em 27/04/2026 10:01

"O que me impulsiona hoje é bem simples: continuar curioso", diz Gustavo Ziller (foto: João Pedro Varela/Divulgação)
Do colapso ao cume, uma jornada de reinvenção. Assim pode ser descrita a trajetória de Gustavo Ziller, de 51 anos. Mineiro de BH, o publicitário tem especialização em produção digital em rádio e TV pelo Brighton College of Technology, na Inglaterra, e construiu uma carreira multifacetada que atravessa o empreendedorismo, o esporte e a comunicação. No entanto, depois de um episódio limite em uma avenida de São Paulo e diagnóstico de burnout, ele redefiniu o rumo de sua vida. Abandonou a rotina intensa como publicitário e executivo e encontrou nas montanhas não apenas um novo propósito, mas um caminho de autoconhecimento. Tornou-se montanhista e passou a compartilhar experiências que vão além esporte, mas vivência traduzidas tanto na escrita, com lições sobre resiliência, liderança e ressignificação, quanto na fala, em palestra que impacta milhares de pessoas. Gustavo acaba de lançar o livro “Escalando Sonhos: o que senti no topo do mundo”, sobre a missão que o fez entrar para a história como o 26º brasileiro a alcançar o cume do Everest. No livro, ele revela um chamado à superação, à espiritualidade e ao amor. Um relato sobre coragem e humanidade que envolve a todos. Em entrevista a Encontro, ele fala do que o impulsiona, dos ensinamentos da montanha e de novos projetos. E uma sugestão: leia este bate-papo ouvindo a playlist que leva o nome do livro recém-lançado, que vai de Brigitte Bardot e Serge Gainsbourg (“Bonnie and Clyde”) a Kings of Leon (“Wait for me”) e Chico Science & Nação Zumbi (“Mateus Enter”).

Da virada de chave em 2012 até agora, 2026, qual balanço faz da sua vida? O que ganhou, o que perdeu e o que o desafiou?
 
Entre 2012 e 2026, o balanço não encaixa em formatos pré-definidos. Eu estou mais presente, com mais repertório para me cuidar e uma relação mais honesta com o tempo. Aprendi a conviver com as ilusões de controle, inconstância e uma versão minha que vivia no automático. O que mais me desafiou foi entender meus limites físicos, emocionais e de agenda. E respeitá-los. 
 
E o que o impulsiona? 
 
O que me impulsiona hoje é bem simples, na verdade: continuar curioso. A montanha abriu esse caminho, mas ele se estende para a vida inteira.
 
O que a montanha te ensinou e ensina até hoje?
 
A montanha ensina o básico com uma clareza que a cidade dilui: ritmo, silêncio, decisão. Montanha não negocia. Ou você escuta, ou paga o preço. Aprendi que leitura de cenário é fundamental, e que humildade é ferramenta, não discurso. Até hoje, o principal aprendizado é interno. A montanha não transforma ninguém por si só. Ela amplifica o que já está ali: medo, disciplina, generosidade, vaidade. E te devolve isso sem filtro.
 
O que pretende entregar com o livro “Escalando Sonhos, o que senti no topo do mundo”? Quais conexões espera que as pessoas façam?
 
O livro não é sobre chegar ao topo. É sobre o que acontece antes, durante e depois. Inclusive quando a gente precisa parar. Quis entregar uma narrativa honesta de processo, sem romantizar o cume e sem lustrar o caminho. Espero que as pessoas façam conexões com suas próprias montanhas. Que entendam que o sonho não é linha reta, e que desistir, ajustar rota e recomeçar também fazem parte da travessia.
 
O livro, de certa forma, é o fechamento de um ciclo?
 
“Escalando Sonhos” não fecha uma história. Ele abre. Ainda falta uma montanha no projeto dos 7 Cumes, e isso é simbólico. Ou seja, a vida segue inacabada, como deve ser. E um convite simples: leia com calma. Não como quem busca uma resposta, mas como quem sabe que não existe uma só. Porque, no fundo, é isso que o livro propõe.
 
Como está sendo envelhecer? Como tem enxergado a vida e vivido? O autoconhecimento, as relações pessoais e interpessoais, o amor, a família, a aceitação, o perdão…
 
Levei um tempinho para conceber uma frase sobre envelhecer. É um exercício de lapidação. Hoje eu escolho melhor onde coloco energia: pessoas, projetos, silêncios. E isso muda tudo, de verdade. O autoconhecimento deixou de ser conceito e virou dia a dia. As relações são mais verdadeiras, menos performance e interesse. Amor é presença, família continua a base, amizades também. E sobre perdão, eu penso que não é aquela história de perdoar para ficar mais leve, mas para ficar inteiro, sabe?
 
O que espera que as pessoas absorvam das suas palestras? Encara como uma missão compartilhar suas vivências?
 
Nas palestras, eu tento devolver perguntas melhores, não respostas de efeito. Levo histórias reais, com erro, dúvida e decisão, porque é aí que mora o aprendizado. Não encaro como missão no sentido grandioso. Encaro como responsabilidade. Se a minha experiência encurta o caminho de alguém ou ajuda a sustentar um momento difícil, já valeu.
O programa "Viver pra Valer", na TV Globo, em 2024, terá outras temporadas? Tem outros planos para a TV? Voltar ao Canal Off…
“Viver pra Valer” nasce de uma inquietação que continua viva. Há conversas em andamento para novas temporadas e desdobramentos, porque o tema “viver com intenção” não se esgota. A TV continua sendo um território possível, mas sem ansiedade. Se fizer sentido editorial e humano, eu volto. Se não, existem outras plataformas contando histórias com a mesma profundidade.
 
E o podcast Bucket List? Como tem sido apresentá-lo? Qual tem sido sua lista de desejos?
 
O Bucket List Podcast é talvez o projeto mais íntimo que já fiz. Entrevistar é escutar de verdade o que a pessoa diz, mas de verdade mesmo. E isso muda a gente. Minha lista de desejos hoje é menos sobre lugares e mais sobre estados: presença, saúde, boas conversas, tempo com quem importa. Menos produtos e mais experiências: oceano, terra, montanha… O resto é consequência.
 
Você está em plena divulgação do novo livro, mas já tem planos para o futuro? Novos projetos? O que pode adiantar? É de fazer planos ou seguir o fluxo?
 
Eu faço planos, mas aprendi a não me apegar a eles. Eu coloco direção na vida, mas também deixo o acaso me levar quando sinto que é um caminho. O livro abriu novas frentes: palestras, conteúdos, encontros. Isso já me aponta caminhos. Tem projetos em desenvolvimento, alguns ligados à montanha, outros à educação e conteúdo. Prefiro não me antecipar demais. Tem coisa que amadurece melhor no silêncio, entende?

Os comentários não representam a opinião da revista e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação