Estado de Minas BODAS DE PRATA

Tragaluz completa 25 anos entre a tradição mineira e a alta gastronomia

Restaurante de Tiradentes ajudou a levar ingredientes do estado a mesas sofisticadas e se consolidou como referência da cozinha contemporânea no país


postado em 13/05/2026 06:42 / atualizado em 13/05/2026 06:50

Instalado em um casarão colonial de três séculos, o Tragaluz mantém um ritual de louças inglesas, taças de cristal, guardanapos de linho, luz de velas e flores frescas: cada detalhe faz parte da experiência (foto: Magê Monteiro/Divulgação )
Instalado em um casarão colonial de três séculos, o Tragaluz mantém um ritual de louças inglesas, taças de cristal, guardanapos de linho, luz de velas e flores frescas: cada detalhe faz parte da experiência (foto: Magê Monteiro/Divulgação )
Parecia até uma coisa banal, cotidiana para quem vive pelas bandas de Minas Gerais. Ela, no entanto, não se fez de modesta. Saiu do interior para o mundo sem olhar para trás, ou melhor, sempre olhando para trás. Com uma cor vermelha vibrante e casquinha crocante, salpicada por pedacinhos de castanha, deitada em uma cama de requeijão cremoso quentinho e servida com um sorvete de goiaba, a Goiabada Tragaluz virou celebridade. Saiu no “The New York Times”. Também caiu na boca de franceses, portugueses, alemães...
 
A sobremesa virou uma referência na gastronomia. Nascida há mais de duas décadas no Tragaluz, em Tiradentes, ela abriu caminho para que produtos e ingredientes mineiros ganhassem protagonismo em mesas sofisticadas. 
 
Completando 25 anos de vida, o restaurante é um dos responsáveis por elevar a comida mineira à alta gastronomia – mesmo quando isso não era moda. “Naquela época, jiló, quiabo, carne de porco, goiabada e doce de leite habitavam quase exclusivamente os almoços da tradicional comida mineira”, explica o sócio-proprietário Pedro Navarro. “Tivemos o cuidado – e também a ousadia, mesmo que intuitivamente – de levá-los a um novo lugar: um cardápio à la carte noturno, onde a simplicidade se veste de elegância”, completa.
 
Baseada na tradição, mas com um olhar para o futuro, a cozinha do Tragaluz é contemporânea. Nas receitas, a comida de Minas se encontra com influência do mundo, mas sem perder a identidade. É farta, saborosa, cozida no tempo do fogo, sem pressa.
 
Louças inglesas, taças de cristal, guardanapos de linho, luz de velas e flores frescas. Cada detalhe faz parte da experiência. Funcionando em um casarão colonial tombado erguido há mais de três séculos, o Tragaluz carrega como sobrenome Restaurante Casa. E leva isso a sério – no sentido mais profundo e acolhedor da palavra. 
 
Desde o início, optou-se por uma restauração sensível, quase arqueológica, descascando as paredes até revelar as texturas originais do moledo, da taipa e do pau a pique. Os espaços são cobertos de memórias em forma de fotos e pequenos objetos achados durante as obras, como frascos antigos, pregos de ferro e fragmentos de louças que hoje compõem um delicado acervo logo na entrada.
 
Por outro lado, a cozinha não ficou parada no tempo. “Aprimoramos nossos processos e os resultados refletem uma trajetória sólida, daquelas que souberam enfrentar os inevitáveis percalços do mercado”, diz o sócio. Isso pode ser constatado nas muitas premiações que a casa conquistou durante os anos, como estar, pelo quarto ano consecutivo, na lista dos 100 Melhores Restaurantes do Brasil pela revista “Exame”. 
 
Hoje, o cardápio é assinado por Felipe Rameh, que faz parte da geração de chefs que, no início dos anos 2000, apresentou para o Brasil uma nova cozinha mineira, feita com técnicas globais e valorização de território. “Nos reinventamos continuamente, acompanhando as transformações, sem abrir mão da essência. Investimos em uma estrutura de cozinha mais moderna, com equipamentos e equipe cada vez mais qualificada”, completa Pedro.
 
"Minas é muitas", uma das entradas mais famosas da casa: coalhada seca de ovelha, tomates assados, quiabo crocante com "lardo mineiro", broinha de milho fresco e queijo azul de Minas (foto: Magê Monteiro/Divulgação )
O menu – que é lindo, com vários desenhos feitos a mão e recadinhos de personalidades que por ali passaram, como o escritor Luiz Fernando Veríssimo – tem como estrela principal a galinha d’angola. Um dos principais marcos da casa, desde o início, é a Pintada Tragaluz, que já foi apresentada de diversas formas. A versão atual é servida com arroz caldoso envolto em roti da própria ave, finalizado com coxa e sobrecoxa confitada (R$ 164). 
 
São 12 opções de principais, como o porco assado, purê de banana caramelada, PANCs e minivegetais (R$ 113); o rigattoni com ragu de costela e rabada, muçarela flor de leite, pomodoro, raspa de limão siciliano e PANCs (R$ 132). Mais recentemente, entrou o risoni com milho fresco, guanciale, creme fresco, queijo parmesão e ora-pro-nóbis (R$ 129). 
 
Entre as entradas para compartilhar, a mais pedida é a coalhada seca de ovelha, tomates assados, quiabo crocante com lardo, broinha de milho fresco e queijo azul, jiló e pão artesanal (R$ 78). Apesar da goiabada ser hors concours, vale experimentar o doce de leite ligeiramente queimado com farofinha de nozes, queijo Canastra meia cura e sorvete de queijo (R$ 49).
 
De café a museu
 
Fundado por Zenilca de Navarro, tia de Pedro, o Tragaluz nasceu como uma loja e café. Com a chegada do Festival de Gastronomia de Tiradentes, no início dos anos 2000, o espaço foi logo transformado em restaurante a pedido da clientela. Desde então, só cresceu. “Ao longo desse quarto de século, é nítido perceber que a casa atravessou sua juventude e amadureceu com graça. Tornou-se um destino desejado, uma marca que ultrapassou a serra de São José e segue alcançando novos caminhos e encontros”, diz Pedro, que também está à frente do Instituto Tragaluz, com atuação no combate à desnutrição infantil na região. 
 
A instituição também desenvolve e apoia iniciativas educacionais e culturais, entre as quais o Museu de Arte de Tiradentes (Martir), um espaço com acesso gratuito e, que à noite, se abre de forma exclusiva aos clientes do restaurante. “Partimos de uma ideia que nos acompanha desde sempre: mudar sem, de fato, mudar”, resume o sobrinho de dona Zenilca, a “tia Zê”, que faz questão de caminhar a passos largos sem esquecer que o caminho é mais importante que a chegada.  

Tragaluz
R. Direita, 52, Centro, Tiradentes
De quarta a segunda, a partir das 19h 

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