
Tanta comoção tem sua razão de ser: Belo Horizonte, afinal, convive com o pesar de seguidos fechamentos de cinemas de rua. Nomes como Odeon, Candelária, Jacques, Brasil, Pathé, Roxy, Usina e CentoeQuatro, por exemplo, existem hoje apenas na memória dos cinéfilos. O caso mais emblemático de todo esse histórico foi o do Cine Metrópole: em 1983, sua sede na rua da Bahia foi demolida para dar lugar a uma agência bancária, em um episódio que gerou protestos e passeatas – que de nada adiantaram.
Não é esse, porém, o destino do Belas, como é carinhosamente chamado por seus frequentadores. “Rapidamente, nos posicionamos acalmando as pessoas, dizendo: ‘Gente, o cinema não está fechando’”, lembra Ana Durães, responsável pelas relações institucionais do local. “Esclarecemos que estamos encerrando aquela parceria, mas que a gente segue firme no propósito de manter o Belas Artes aberto”, completa ela, detalhando que o que está em curso neste momento é a busca por um novo patrocinador principal.
Inaugurado em 1992 na rua Gonçalves Dias, no bairro Lourdes, região Centro-Sul de BH, o Belas Artes tem casca grossa e tem se mostrado resiliente. A própria parceria com a Una, que durou de 2021 a maio de 2025, surgiu em um momento de crise, durante a pandemia da Covid-19, quando a sala precisou lançar uma campanha de financiamento coletivo – o SOS Belas Artes – para enfrentar dívidas acumuladas de aluguel, impostos e benefícios trabalhistas. A mobilização foi intensa e a Una entrou em seguida, como patrocinadora principal, detendo os naming rights do local.
Agora, a saída da instituição foi, segundo ambas as partes, uma decisão conjunta e comunicada com antecedência. E, no momento em que falou com a Encontro, Ana Durães já estava em campo. Ela antecipou que vinha conversando com potenciais investidores, mas tudo ainda em estágio inicial, sem nomes que possam ser revelados. Detalhou, ainda, que a estratégia desenhada pela gestão combina dois caminhos: patrocínio direto, mais simples de gerir, e captação via Lei Rouanet, que permite às empresas direcionar recursos de incentivo fiscal para projetos culturais.

Mudança de perfil não está em discussão
Além do charme de uma sala de rua, todo o diferencial do Belas está na sua programação, elaborada pelo programador e exibidor Adhemar Oliveira, do grupo Espaço de Cinema, e caracterizada pela mistura de filmes de festivais, produções independentes, cinema brasileiro e títulos cultuados. Uma das ambições do local é, também, o estímulo à convivência de diferentes públicos – uma reunião para além da sala de projeção, que vai se estender pelo café, pela livraria ou mesmo pelo saguão, visando se consolidar como um ponto de sociabilidade urbana.
Mudar essa curadoria por razões financeiras, avalia a gestão, seria matar o próprio sentido de existir do projeto. “Se o cinema tem um propósito de existir que não é estritamente comercial e você muda a curadoria dele baseado apenas nisso, você o mata”, examina Durães. “Valeria mais a pena fechar”, frisa.
A questão é que manter uma sala de rua com esse perfil exige patrocínio. “Esse tipo de programação dificilmente se sustenta sem apoio financeiro”, explica Ana. “Os complexos que se sustentam sozinhos são aqueles que exibem filmes muito grandes em mais de uma sala. E mesmo assim, ninguém sobrevive só de ingresso – depende de pipoca, de eventos, de venda de produtos etc.”, contextualiza.
E o momento para a cadeia de exibidores não é dos melhores. A retomada do público presencial após a pandemia existe, mas é lenta. E o adversário, para a gestão do Belas Artes, não é exatamente o streaming. “A gente – e não só a gente, como o teatro, os shows, os parques – compete com a proliferação gigantesca de conteúdo nos celulares. A pessoa que chega em casa, se joga no sofá e, sem se dar conta, passa duas horas rolando as redes sociais. E esse, muitas vezes, era o tempo que ela talvez teria para ver um filme na tela grande”, avalia Ana.
“Ver uma produção em casa é gostoso, mas ir ao cinema é completamente diferente. O som, a tela, a experiência coletiva… Quem nunca foi contagiado pelo riso de todo mundo numa comédia? E poder tomar um café depois, comentar com os amigos... isso é uma coisa muito viva para a cultura e para a vida social das pessoas”, defende.

E não são poucos os cinéfilos que organizam sua rotina a partir da programação do espaço. Adelina Vieira Torres, psiquiatra, é frequentadora do Belas desde que voltou de uma temporada na França, em 1997. Ela costuma emendar uma sessão na outra para tentar gabaritar todos os filmes que entram em cartaz. “Tudo que restou de cinema de filmes de arte e de autor em BH é o Belas Artes.”

Os sobreviventes
Dizer que o Belas Artes é “o último cinema de rua de BH” é uma simplificação que a própria gestão rejeita. A cidade conta hoje com um pequeno circuito de salas que, com diferentes perfis e modelos de gestão, mantêm viva alguma versão dessa tradição.
- O Cine Humberto Mauro: localizado dentro do Palácio das Artes, funciona sob gestão da Fundação Clóvis Salgado, vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. É um equipamento público com programação gratuita orientada ao cinema de arte e independente.
- O Cine Santa Tereza: inaugurado em 1943 e fechado durante a crise das salas de rua nos anos 1980, foi reaberto em 2016 pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Fundação Municipal de Cultura, também com sessões gratuitas.
- O Cine Graciano: mais recente, funciona no bairro Lagoinha. É gerido pela associação Filme de Rua, com foco na produção independente e exibições sem custos.
- O Centro Cultural Unimed-BH Minas: possui duas salas de cinema inauguradas em 2022 dentro do Minas Tênis Clube, na Savassi. Têm acesso aberto ao público em geral, ainda que estejam no interior de um clube.