
Felizmente, o Brasil tem lições a dar à maioria das nações nesse quesito. Enquanto globalmente 60% da energia produzida vem de fontes fósseis (extraídas da natureza), como petróleo, carvão mineral e gás natural, a matriz brasileira é uma das mais limpas e renováveis do planeta, com 88% do total gerado por meio de usinas hidrelétricas, solares ou eólicas, entre outras alternativas.
Esse percentual tem crescido nos últimos anos, impulsionado pela expansão acelerada da geração e do consumo fotovoltaico. Os investimentos acumulados no setor já ultrapassam R$ 300 bilhões, considerando tanto grandes complexos quanto sistemas de geração distribuída, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).
A Cemig SIM, subsidiária da Cemig voltada para fontes renováveis, conduz um dos maiores planos de expansão em geração distribuída do país, no valor de R$ 3,8 bilhões, iniciado em 2024.

Desde o início das operações, em 2019, a empresa evitou a emissão de mais de 84 mil toneladas de CO%u2082 na atmosfera, volume equivalente ao plantio de aproximadamente 590 mil árvores adultas.
Após consolidar sua atuação em solo mineiro, onde atende os 853 municípios do estado, a Cemig SIM prepara agora a expansão para o Centro-Oeste. Empreendimentos em Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul estão em análise.
“A Cemig SIM é líder de market share em Minas Gerais, inclusive em áreas fora da concessão da Cemig Distribuição. Esse posicionamento nos deu base para expandir a operação e reforçar nossa proposta de democratizar o acesso à energia solar”, diz Mendonça.
Crescimento da eletromobilidade
A empresa também aposta na integração entre recursos renováveis e mobilidade elétrica por meio do programa Cemig MOB, que oferece descontos de até 20% na contratação do serviço para proprietários de veículos elétricos e híbridos.
Segundo Mendonça, desde o lançamento da iniciativa já foram compensados 2,2 GWh, evitando a emissão de 101 toneladas de CO%u2082. O volume equivale ao plantio de 6.854 árvores adultas ou à retirada de mais de 3 mil veículos movidos a combustíveis fósseis das ruas.
“A eletromobilidade é uma tendência clara de consumo. Os veículos elétricos seguem batendo recordes de vendas no Brasil e já representam cerca de 16% do mercado nacional”, afirma.
Novas experiências para o cliente

“Não nasceu de alguém olhando uma oportunidade e pensando em ganhar dinheiro. Nasceu de uma dor nossa”, conta Victor Soares, CEO e cofundador da empresa.
Victor e os sócios moravam em apartamentos, tinham contas de luz elevadas e queriam consumir uma fonte limpa, mas não tinham a possibilidade de instalar placas fotovoltaicas. Da experiência pessoal surgiu a ideia de criar um modelo capaz de levar os benefícios dessa tecnologia a quem não pode gerar o próprio suprimento.
A Metha iniciou as operações em 2018 e hoje reúne mais de 100 mil consumidores cadastrados, com o objetivo de atingir 200 mil até 2030.
“O desconto chama atenção, mas o problema real era que ninguém entendia a própria conta de luz”, afirma Soares. A empresa apostou em uma experiência totalmente digital e em um modelo de fatura única, reunindo em uma mesma cobrança os custos da distribuidora e da energia compensada. A proposta é simplificar uma relação historicamente marcada por pouca transparência.
O volume gerado pelas usinas da companhia é injetado na rede elétrica e convertido em créditos que reduzem o valor pago pelo consumidor, sem necessidade de instalação de equipamentos no imóvel. Atualmente, a empresa oferece descontos de até 15% sobre a tarifa compensada.
“As pessoas cresceram acreditando que energia é uma coisa sobre a qual elas não têm controle. A conta chega e pronto”, diz. Para Soares, a transformação do setor elétrico segue um caminho semelhante ao da telefonia, com mais concorrência, opções e protagonismo para o público. “Quanto mais opção o consumidor tiver, melhor tende a ser o serviço.”
Ele reconhece que a sustentabilidade ganhou relevância, mas avalia que o principal motor dessa expansão foi econômico. “Foi o que garantiu que boa parte do setor avançasse. As pessoas começaram a investir porque perceberam que fazia sentido financeiramente.”
Uma nova revolução elétrica

A EDF opera em Minas Gerais as Usinas Fotovoltaicas Pirapora, no norte do estado. Com investimento de quase R$ 2 bilhões, o complexo soma 400 MWp de capacidade e cerca de 1,2 milhão de módulos.
“O projeto figurou historicamente como a maior usina solar em operação na América Latina e a maior usina fotovoltaica do Brasil até 2018”, lembra Oliveira. Hoje, a companhia mantém cerca de 2,1 GW de capacidade de baixo carbono no país, atuando nos segmentos solar, eólico, hidrelétrico, transmissão e serviços de operação e manutenção.
Gargalos para o crescimento
Apesar do avanço acelerado, o setor enfrenta desafios estruturais. Segundo Oliveira, o principal gargalo está no escoamento. “Enquanto a nossa capacidade de produção cresceu 40% em cinco anos, a malha de linhas de transmissão expandiu-se apenas 5% no mesmo período.”
O resultado é o aumento dos episódios de curtailment — cortes operacionais determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para preservar a estabilidade da rede.
Outro desafio é o armazenamento. Fora isso, para o executivo, a regulamentação e a adoção de sistemas de baterias em larga escala serão decisivas para o futuro do setor. “O cliente consome energia 24 horas por dia, mas a geração solar está concentrada em determinados períodos. As baterias vêm para ajudar a resolver esse desafio.”
Na geração distribuída, há ainda uma barreira de informação. “A modalidade oferece opções tanto para quem deseja gerar o próprio suprimento quanto para quem prefere o formato por assinatura. São mercados complementares e não substitutivos”, afirma Iuri Mendonça, da Cemig SIM.
Victor Soares, da Metha, acrescenta que o crescimento veloz do mercado também exige atenção do público. Segundo ele, a corrida por investimentos após as mudanças regulatórias dos últimos anos criou um ambiente de forte concorrência e atraiu empresas sem experiência suficiente. “É importante que o consumidor pesquise a reputação da empresa para não ter uma experiência negativa”, conclui.
Evolua Energia investe R$ 260 milhões para dobrar número de clientes

O data lake mencionado é um repositório centralizado que armazena e processa grandes volumes de dados. Um dos frutos dessa estratégia é a Eva, assistente virtual que esclarece até dúvidas complexas, 24 horas por dia. Caso a demanda não seja solucionada, explica o executivo, o atendimento é encaminhado para a equipe humana.
“A implantação do data lake permite que a companhia opere com informações estruturadas e confiáveis, facilitando a tomada de decisões. Todos os nossos indicadores são automatizados em tempo real, o que contribui para escolhas mais rápidas e assertivas”, afirma o diretor.
A Evolua Energia nasceu em 2020, inicialmente focada no segmento de geração distribuída em Minas Gerais. Seus principais acionistas são a Andrade Gutierrez e a Barbosa Melo, que identificaram uma oportunidade de investimento com a abertura do setor por meio desse sistema.
Atualmente, a empresa administra 127 usinas solares, totalizando 143,1 MW de potência instalada. O plano para 2026, segundo João Paulo, é dobrar a base de clientes, saltando dos atuais 25 mil para 50 mil consumidores. Para isso, está em execução um plano de aportes de R$ 260 milhões.
Campos destaca que a estratégia de expansão considera a perspectiva de abertura total do setor elétrico para o público de baixa tensão. O cronograma em discussão prevê que, a partir de 2028, os clientes residenciais sejam incluídos no mercado livre de energia, podendo escolher seu fornecedor.
“Nesse cenário, o setor deverá adquirir características de varejo, com concorrência acirrada. A capilaridade da oferta será um diferencial”, prevê o executivo.

“O desconto é viabilizado pelo modelo de geração distribuída, em que a eletricidade das usinas da Evolua é injetada na rede da distribuidora, gerando créditos utilizados para abater o valor na conta de luz dos clientes. Assim, os estabelecimentos conseguem reduzir custos sem necessidade de investimento ou instalação de painéis solares nos telhados”, explica João Paulo.
A expectativa é expandir a oferta para outros estados atendidos pela empresa, incluindo Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte. “Consideramos que o Nordeste brasileiro tem grande potencial de crescimento no setor de energia por assinatura e temos intensificado a busca por parceiros na região”, afirma.
Em dezembro de 2025, a companhia anunciou um acordo com o Esporte Clube Bahia SAF. Pelo projeto, torcedores que aderirem à geração distribuída terão desconto na conta de luz e poderão receber até um ano de associação gratuita como sócio-torcedor. Até o fim de 2026, novas parcerias deverão ser anunciadas.