
Herdeiro de uma trajetória construída atrás do balcão, o percurso de Daniel é desenhado todo dia, com novidades e ideias que impactam de forma positiva também os seus concorrentes e outros nichos da gastronomia mineira. O movimento que toma conta dos estabelecimentos é constante, reunindo diferentes faixas etárias em torno das mesas. O que começou há mais de 40 anos, hoje se tornou um ecossistema gastronômico que reúne bares, restaurante japonês, marmitaria, estacionamento, novos projetos de varejo e um público que, segundo Daniel, já ultrapassa a marca de 30 mil pessoas por mês. “Tudo começou com o pastel. Desde sempre, foi um negócio relacionado a pessoas, a cuidar delas, a amparar o cliente e acompanhar a evolução do mercado”, diz. O pastel a que ele se refere é um dos petiscos mais pedidos do Redentor, nas versões queijo, carne e camarão.

Ele aprendeu fazendo e observando e hoje aplica nos negócios da família uma filosofia que mistura tradição, disciplina operacional e uma atenção quase obsessiva ao cliente: “Sou um gestor que tem a visão da loja, não a de trás do balcão. Minha perspectiva principal é a de quem está atendendo o cliente, de gerente, de lidar com os problemas”, afirma. Essa origem molda sua maneira de administrar. Enquanto muitos empresários enxergam números antes de indivíduos, Daniel faz o caminho inverso: “Numa sexta-feira à noite, a prioridade não é fechar estoque. É resolver o problema do cliente, do funcionário, dar conta do rojão”, diz.

Para Daniel, formado em administração pela Fumec, o cliente quer mais do que comida ou bebida: “É o público que gosta de ser bem atendido, que o garçom chame pelo nome, de ficar à vontade”. Essa cultura também se reflete internamente. O grupo mantém funcionários com 15 ou 20 anos de casa e produz anualmente uma gazeta para contar as crônicas e as novidades da rede (tiragem de 1 mil exemplares), um registro com colaboradores e clientes. Tem ainda investimento nas redes sociais e canal no YouTube, que abarcam o negócio como um todo.
Necessidade de crescer
O empresário rejeita a ideia de crescimento por vaidade. Para ele, cada casa nasceu porque a clientela, a operação e a equipe exigiam novos espaços. “O crescimento do Redentor é uma necessidade da corporação, não é uma ambição.” Foi assim com o Moema, que ele criou ‘sozinho’ há três anos. O bar surgiu quando a casa-mãe, que acaba de completar 23 anos, já não conseguia comportar seu público. “As pessoas não conseguiam lugar para se sentar”, lembra. A solução foi ocupar o imóvel ao lado e criar um ambiente diferente, mas conectado à mesma essência: chope bem tirado, atendimento próximo e atmosfera vibrante. “Para sobreviver por anos no mercado, não basta gostar de abrir restaurante, mas sim gostar de tocá-lo. Pegar no chifre do boi e dar consistência ao negócio a longo prazo. E assim fazer a diferença”, diz.

A história da Raiz, aliás, resume bem o espírito do grupo. Durante o período de isolamento social, o delivery do Redentor ganhou força, especialmente com os hambúrgueres. Aproveitando estrutura, equipe e logística, nasceu a ideia. “Foi para otimizar e tentar fechar as contas, literalmente”, revela Daniel. E a iniciativa virou um empreendimento sólido. A produção funciona em um galpão no Prado e há um ponto de venda na rua Grão Mogol (Carmo). Em breve, uma segunda unidade será aberta na Savassi, no quarteirão do Redentor. “Entendemos que era uma boa alternativa para o cliente e para nós. Econômico, prático e saudável.”
Embora evite falar de números, Daniel reconhece que o Grupo Redentor atingiu um patamar raro no mercado brasileiro. “Hoje, somos o maior vendedor de chope Brahma de Minas Gerais e o quarto do país.” Em média, são comercializados mais de 3 mil litros por semana. Até chegar à mesa, a bebida passa por um longo processo. Os barris ficam armazenados na câmara fria do bar, onde descansam por um dia inteiro. Na hora de servir, é usado gás nitrogênio, responsável pela cremosidade nos três dedos de espuma que cobrem os sete tipos de chope disponíveis na casa.
O chope acabou virando símbolo da operação, uma espécie de assinatura afetiva do local. “Acredito que somos uma das esquinas mais movimentadas do Brasil e do mundo. É de dar orgulho, falamos de 700 pessoas sendo atendidas ao mesmo tempo. Todo mundo saindo feliz, nenhum copo vazio na mesa, nenhuma confusão, a experiência fluindo.”
Visão contemporânea

Fabiano acompanha desde o desenvolvimento de pratos até o controle de Custo das Mercadorias Vendidas (CMV), fornecedores e processos. Também participa das viagens de pesquisa gastronômica ao lado do empresário. No ano passado, foram à Espanha, parte do projeto Moeminha pelo Mundo, e em setembro o destino é o Peru. “Da Espanha ao Rio de Janeiro, viajamos juntos para nos atualizar, buscar fontes novas não só para a culinária, mas para o empreendimento como um todo. Temos uma comunicação transparente, sem filtro e de mão dupla”, diz.



Novos projetos
O Grupo Redentor segue em expansão. O próximo passo é investir em cortes especiais de carne. Até o fim do ano, será inaugurado o Braseirito, açougue inicialmente voltado para atender às operações da rede nos três primeiros meses. O objetivo é profissionalizar ainda mais o controle do produto, principal custo da cozinha. “Elas representam hoje mais de 60% do nosso gasto com alimentação”, explica Daniel.

Já o Braseiro, projeto de parrilla para 180 lugares ao lado do Redentor, segue em desenvolvimento. O imóvel já pertence ao grupo, mas Daniel prefere amadurecer o conceito antes da inauguração. “Queremos nos tornar especialistas em carnes como somos com o chope e no atendimento. E o Braseirito fará esse papel”, diz.
Mesmo com tantos planos simultâneos, o empresário fala do amanhã como algo inevitavelmente orgânico. “A empresa precisa continuar evoluindo para não ficar para trás”, afirma. A meta é avançar cerca de 20% ao ano, mas sem comprometer a qualidade ou o controle. “Sem esticar a corda. Não queremos abraçar o mundo e destruir o que já temos.”
O horizonte inclui novos empreendimentos, varejo, aperfeiçoamento gastronômico e até sonhos mais ousados. Um deles envolve produzir os próprios insumos. “Quem sabe daqui a cinco anos vamos querer uma fazenda para fabricar nossos queijos, plantar frutas, criar gado e começar um farm-to-table?”, planeja.
Mesmo com a agenda tomada, o atleticano Daniel encontra tempo para o lazer ao lado de amigos e da família. É casado há menos de um ano com a arquiteta Simone Dias, que presta serviços para as casas. Ele se diz um atleta não reconhecido: pratica tênis, futebol, surfe, wakeboard, escalada e é aficionado por trilhas de bicicleta.
Enquanto isso, a esquina segue pulsando. “Um dos nossos lemas é: busque a excelência diariamente! Assim vamos estar sempre evoluindo. Buscar a perfeição no serviço não é querer ser melhor que os outros, é buscar o nosso melhor constantemente”, afirma o gestor.
Daniel, que revela ter sido sempre um observador do pai, tornou-se extremamente parecido com ele. “Carrego as mesmas preocupações em resolver as coisas, de que o importante é estar todo mundo bem e funcionando, ainda que tenhamos problemas no caminho, e com as mesmas manias”, diz ele, que quando garoto pensou em ser jogador de futebol. “Mas eu sempre soube o que queria fazer e onde queria estar. E meu pai me viu chegar até aqui.”
Orgulhoso, claro, do desempenho maiúsculo do filho, Fausto Dias conta que a vocação de Daniel para os negócios na área já dava sinais desde que ele tinha 13 anos e o acompanhava na rotina da empresa. “Depois, vieram suas próprias escolhas na formação acadêmica, sua vontade genuína de trabalhar conosco e de se tornar o gestor. Com essas habilidades, principalmente nas conexões humanas e no marketing, ele se tornou sócio-diretor. Uma escolha aplaudida pelo nosso maior patrimônio, os colaboradores que operacionalizam as lojas. Assumindo o desafio, Daniel se mostrou, imediatamente, capaz profissionalmente e muito humano com a equipe. Os resultados estão demonstrados pelo sucesso das casas”, diz.
Os desafios de uma região de BH
Poucos empresários falam da Savassi com o nível de pertencimento de Daniel Ribeiro. Nascido e criado no bairro, ele transformou o zelo com o entorno em parte da estratégia comercial desse polo gastronômico da cidade. “Meu maior concorrente não é o meu vizinho. A maior ameaça é a região começar a ficar deteriorada. O Redentor é resiliente, afinal são 23 anos de história e já teve época em que era só a gente. Mas, hoje, moradores, comerciantes, prefeitura e polícia participam de reuniões em busca de melhorias”, diz. “Com as novas casas, atraímos um público diferente e o movimento aumentou não só para nós, mas para os arredores e para a Savassi como um todo. Muitos frequentadores já não vão mais para o Vila da Serra; o miolo começou a pipocar novamente”, completa.
Ao longo dos anos, Daniel investiu em infraestrutura urbana, ajudou na instalação de câmeras de vigilância, financiou a revitalização de espaços abandonados e participa ativamente das discussões sobre segurança e ocupação do território. “O empreendedor deve ir além dos seus negócios. Ao zelar pelo que está fora, protegemos o que está dentro”, diz.
Para ele, o fortalecimento do local depende de ação coletiva: “Não adianta um estabelecimento bombar sozinho e ao redor estar tudo largado”. O grupo investiu R$ 40 mil em um Olho Vivo, sistema de videomonitoramento doado à Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e à Polícia Militar (PM). Também custeou uma pintura artística em parceria com o Mascate e o Inventura Studio. O mural retrata uma cena com a Serra do Curral, Milton Nascimento, o vira-lata Caramelo, mesa de boteco e uma mãe ensinando o filho a soltar pipa e a sonhar. E, mesmo diante de tantos gargalos urbanos, o empresário acredita na retomada da área: “A Savassi está bem assistida, mas a manutenção leva tempo. Uma árvore não fica grande e bonita rápido.”
Para Helênio Soares, presidente da Associação dos Moradores da Savassi (AmoSavassi), o cenário atual é consequência de um conjunto de fatores: “A região continua sendo um dos principais símbolos de BH, mas é inegável que sofreu, nos últimos anos, um processo de enfraquecimento da atuação do poder público em questões essenciais de zeladoria, limpeza e ordenamento”, afirma. Segundo ele, dois problemas concentram, hoje, as maiores preocupações: “O crescimento da população em situação de rua e a falta de asseio urbano acabam gerando a degradação dos espaços públicos e desconforto para residentes, comerciantes e frequentadores.”
Para o dirigente, porém, as soluções passam necessariamente pelo diálogo entre diferentes setores da sociedade. Ele afirma que, desde novembro de 2025, associações ligadas ao bairro tentam ampliar a interlocução com a administração municipal. A iniciativa reúne a AmoSavassi, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o Sindicato do Comércio Lojista de Belo Horizonte (Sindilojas) e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH): “Temos propostas concretas para melhorar a limpeza e o ordenamento, mas é fundamental que o poder público esteja disposto a dialogar e construir saídas conjuntas”, diz.
Mesmo diante das transformações, Helênio considera que o principal patrimônio do lugar continua sendo sua capacidade histórica de reunir tribos diferentes. “A Savassi nunca foi apenas um ponto comercial ou gastronômico. Ela sempre foi um espaço de convivência, encontros, cultura, vida nas ruas e circulação de público. E continua forte porque oferece algo que a internet não substitui: o contato humano e a experiência presencial da cidade. Revitalizá-la não quer dizer mudar sua essência, mas atualizar sua capacidade de organização, sustentabilidade e convivência urbana. Modernizar a região não significa descaracterizá-la; representa preservar sua alma e, assim, unir tradição, inovação, cultura e qualidade de vida em um mesmo território.
Por dentro do Grupo Redentor
- Redentor: com 23 anos de mercado, o bar tem como marca a vivência da boemia carioca na capital mineira. Carro-chefe do grupo, a casa faz parte da cultura gastronômica de BH, reconhecida pelo chope tirado com perfeição, pela clássica culinária de boteco e pelo prestigiado bufê de almoço.
- Bar da fila: extensão do Redentor, o espaço foi inaugurado em julho de 2025 para acomodar com mais conforto quem aguardava por uma mesa na casa principal. O local oferece petiscos e drinques exclusivos para embalar a espera.
- Moema: com três anos de mercado, o projeto nasceu inspirado nos bares paulistanos, sem perder o acolhimento mineiro, e logo se tornou um case de sucesso. A coquetelaria autoral e o cardápio gastronômico são seus maiores atrativos, consolidando uma comunidade tão fiel que os clientes participam até da festa de fim de ano dos colaboradores.
- Moeminha: anexo do Moema inaugurado em junho de 2025, o local oferece uma atmosfera mais intimista. O projeto também trouxe melhorias estruturais importantes para a equipe do grupo, viabilizando a ampliação de vestiários, refeitório, área de descanso, estoque e cozinha.
- Marú: inaugurado em março de 2025, na esquina das ruas Fernandes Tourinho e Levindo Lopes, o espaço funde o conceito de sushibar ao dinamismo de um izakaya. Com pegada urbana, a proposta une a culinária japonesa à atmosfera descontraída de boteco que o belo- horizontino tanto gosta, equilibrando esses dois universos.
- Raiz Marmitas: criada durante a pandemia, a marca completou cinco anos em constante expansão. Em julho de 2025, o centro de produção foi transferido da rua Grão Mogol, no Carmo, para o Prado. Em breve, além da unidade no Sion, a marca ganhará uma filial na Savassi, bem próxima ao Redentor, servindo como ponto de retirada e pronta-entrega de refeições congeladas. A operação já soma mais de 2 mil entregas mensais