Estado de Minas BODAS DE PRATA

Riscos climáticos desafiam setor de seguros, diz CEO da Solutions

Empresário Sérgio Frade analisa evolução do mercado nos 25 anos de operação da empresa mineira


postado em 24/06/2026 07:43 / atualizado em 24/06/2026 08:05

Sérgio Frade, sócio-fundador da Solutions Gestão de Seguros, que nos últimos anos participou de programas de seguros ligados a grupos industriais, operações de infraestrutura e projetos corporativos de empresas como Aperam, ArcelorMittal, Vallourec, Fundação Dom Cabral e Localiza (foto: Fábio Ortolan/Divulgação)
Sérgio Frade, sócio-fundador da Solutions Gestão de Seguros, que nos últimos anos participou de programas de seguros ligados a grupos industriais, operações de infraestrutura e projetos corporativos de empresas como Aperam, ArcelorMittal, Vallourec, Fundação Dom Cabral e Localiza (foto: Fábio Ortolan/Divulgação)
Enchentes, tempestades e ondas de calor passaram a ocupar espaço permanente nas discussões do mercado segurador brasileiro. A ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos elevou custos, aumentou o número de sinistros e obrigou seguradoras, corretoras e empresas a reverem modelos de proteção patrimonial e gestão de riscos.
 
A análise é do sócio-fundador da Solutions Gestão de Seguros, Sérgio Frade. Em entrevista à Encontro, ele diz que essa nova realidade tem levado as empresas a atuarem de forma mais próxima da prevenção, da análise técnica e do monitoramento contínuo de operações empresariais.
 
“Riscos climáticos e cibernéticos passaram a pressionar seguradoras e resseguradoras em escala global. O aumento da frequência e da intensidade desses eventos exige evolução constante nos modelos de precificação, de subscrição e de gestão de riscos”, explica o executivo.
 
Nesse contexto, o mercado segurador assume um papel central na agenda ESG. Mais do que um diferencial, trata-se de um requisito para a sustentabilidade do setor, tanto do ponto de vista econômico quanto social.
 
Um dos exemplos recentes desse cenário foram as enchentes no Rio Grande do Sul em 2025. Embora o mercado segurador tenha desembolsado cerca de R$ 6 bilhões em indenizações, as perdas totais estimadas ficaram próximas de R$ 100 bilhões. Para o executivo, a diferença evidencia a baixa cobertura securitária em parte das operações e patrimônios atingidos, com um potencial de crescimento bastante atrelado a uma mudança cultural no país.
 
Ainda sob o guarda-chuva da sustentabilidade, segundo o empresário, a transição energética e os projetos ligados à agenda ambiental também abriram novas demandas para o setor. Na Solutions, um dos casos recentes envolveu a estruturação do seguro das plantas da multinacional francesa NetZero no Brasil, voltadas à produção de biochar —  uma biomassa com grande poder de sequestrar CO2 da atmosfera que tem alto valor no mercado global de créditos de carbono. 
 
Frade conta que a operação exigiu articulação com o mercado internacional de resseguros para viabilizar coberturas relacionadas a incêndio, explosão, danos elétricos, quebra de máquinas, responsabilidade civil, eventos climáticos e lucros cessantes.
 
De acordo com ele, o projeto apresentou desafios técnicos por envolver um modelo produtivo ainda pouco difundido no mercado de seguros brasileiro. A seguradora suíça Zurich participou da operação com suporte de sua estrutura internacional. “O sucesso da operação esteve diretamente relacionado ao entendimento aprofundado dos riscos envolvidos e à adequada apresentação dessas informações ao mercado segurador”, afirma.
 
As mudanças trazidas pela agenda ambiental ocorrem em um momento de expansão do mercado. Em abril, a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) projetou crescimento nominal de 5,7% para o setor em 2026. O avanço de projetos ligados à sustentabilidade também coincide com uma transformação mais ampla do mercado brasileiro de seguros nas últimas décadas.
 
Ao completar 25 anos de operação em 2026, a Solutions acompanha esse movimento, diz o executivo. Nesse período, uma das mudanças consideradas decisivas para o setor ocorreu em 2007, com a flexibilização do monopólio do resseguro exercido pelo Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). A abertura permitiu a entrada de empresas estrangeiras e ampliou a concorrência em um segmento até então concentrado.
 
Para Frade, a mudança aumentou a capacidade de absorção de riscos e criou novas possibilidades de cobertura para operações industriais, logísticas e de infraestrutura. “A abertura contribuiu para o aumento da concorrência, maior capacidade de aceitação de riscos e redução de custos”, afirma.
 
Outro marco citado pelo executivo foi o impacto provocado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. O episódio levou seguradoras e resseguradoras a reverem critérios de subscrição e gerenciamento de riscos em escala internacional. A crise financeira de 2008 produziu um novo endurecimento das análises, especialmente em operações ligadas ao crédito.
 
Nos últimos anos, Frade diz que a discussão sobre riscos cibernéticos também ganhou espaço. Empresas com operações digitais e bases de dados sensíveis passaram a buscar coberturas voltadas tanto para resposta a incidentes quanto para responsabilidade civil ligada a prejuízos causados a terceiros. Entre 2022 e 2024, as indenizações desse segmento somaram cerca de R$ 90 milhões, segundo dados citados pela corretora.
 
Ao longo dos últimos 25 anos, a Solutions participou de programas de seguros ligados a grupos industriais, operações de infraestrutura e projetos corporativos. Entre os casos acompanhados pela empresa estão operações envolvendo Aperam, ArcelorMittal, Vallourec, Fundação Dom Cabral e Localiza.
 
Nos últimos três anos, a corretora administrou aproximadamente R$ 40 milhões em indenizações destinadas a clientes. Apesar disso, a empresa afirma que a prioridade atual está menos na ampliação desse volume e mais na prevenção de perdas. “Nossa expectativa é que o volume de indenizações seja menor no próximo ciclo. Trabalhamos justamente para isso, por meio de uma atuação consistente em gerenciamento de riscos”, afirma Sérgio Frade.
 
Para tanto, as instalações dos clientes são frequentemente avaliadas por equipes técnicas, em conjunto com as seguradoras, com foco na identificação de vulnerabilidades e implementação de melhorias que reduzam a ocorrência de sinistros.
 
Ao mesmo tempo, a expectativa da Solutions é de crescimento da base de clientes, sustentado pela experiência acumulada e pela confiança construída ao longo dos anos. “Esse é um dos pilares do nosso negócio. Atuamos de forma consultiva, com foco na gestão de riscos e na proteção de empresas e pessoas. Acreditamos que o crescimento está diretamente ligado à capacidade de entregar segurança e previsibilidade aos clientes, especialmente em um ambiente cada vez mais complexo”, diz Frade.
 
Ele avalia que a estratégia acompanha uma tendência mais ampla do mercado, que passou a incorporar gerenciamento de riscos, monitoramento técnico e mitigação de vulnerabilidades antes da ocorrência de sinistros. “Em um cenário de mudanças climáticas, digitalização e aumento da complexidade operacional das empresas, o seguro amplia participação em decisões ligadas à continuidade de negócios e proteção de investimentos”, afirma o empresário.

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