
O Luce, estilizado pelo ex-chefe de design da Apple Jony Ive, abandona a tradicional assinatura Ferrari por um formato futurista com elementos aerodinâmicos flutuantes e lanternas escondidas. Ao preço de 550 mil euros (US$ 640 mil), o carro tem potência de 1.050 hp dos quatro motores elétricos (um em cada roda) e autonomia de 530 quilômetros. A novidade está sendo construída no novo “e-prédio” da fábrica de Maranello, na Itália, e as entregas começam no último trimestre deste ano.

O formato exterior e interno do Luce é assinado pelo LoveFrom, o estúdio de design fundado por Jony Ive (a mente por trás do design do iPhone e MacBooks) e o designer Marc Newson. Ive e Newson tiveram total liberdade para dar forma ao primeiro BEV da Ferrari. Eles desenharam o exterior e interior simultaneamente para garantir consistência absoluta e “singularidade”, significando que a parte externa do carro reflete o interior altamente tátil, minimalista e futurista.
O exterior do Luce lembra uma estufa de plantas com vidros escuros que se estendem em direção à dianteira e à traseira do carro. A carroceria de alumínio complementa a “estufa” na frente e atrás, com spoilers como elementos integrados e flutuantes. Na frente, o fluxo de ar passa entre a extensão do para-brisa e o spoiler flutuante. Na traseira, o fluxo de ar se move a partir do fim da lanterna de trás para sob o spoiler traseiro integrado. O único elemento de design típico de uma Ferrari são as duas lanternas circulares da traseira, visíveis apenas quando o carro está ligado. Quando o carro para, elas desaparecem, porque são elementos em OLED atrás de um painel minimalista de vidro preto traseiro.
As portas traseiras do Luce estão articuladas na parte de trás, mas um pilar central fixo permite que elas se abram de forma independente das portas dianteiras. Para melhor entender, no outro modelo quatro portas da Ferrari, o SUV Purosangue, o pilar central fica integrado dentro das portas traseiras, que só podem ser acionadas quando as portas dianteiras estiverem abertas.

O comportamento do Luce em curvas entrega uma direção confortável, afirmou Gianmaria Fulgenzi, diretor de desenvolvimento de produto. Para ele, o modelo é “o Ferrari mais confortável de todos os tempos”, devido ao que ele chama de curva ativa, ou seja, cada roda é independente em termos de entrega de potência, esterçamento e amortecimento. Os quatro motores elétricos independentes permitem torque vetorial ideal, assim como controle ativo para minimizar o sobre esterçamento e o sub esterçamento (saídas de frente ou de traseira), disse Fulgenzi.
A Ferrari, que inicia as entregas do Luce no último trimestre de 2026, tem expectativa de que o preço médio do VE suba para cerca de 700 mil euros porque os clientes normalmente adicionam 150 mil em opcionais e itens personalizados. A Ferrari constrói os motores elétricos, inversores e controles de potência “em casa”. Ou seja, não depende de fornecedores externos. As células das baterias foram desenvolvidas em parceria com a SK On, que também as produz. O volume esperado de produção e vendas do lançamento não foi divulgado.
Após a apresentação do Luce, as redes sociais foram inundadas com memes críticos, comparando o Luce a um aspirador de pó, a um tamanco de borracha ou ao modelo Fiat Multipla, de péssima lembrança – um minivan quadrado da década de 1990 apontado por muitos como o carro mais feio do mundo. Comentários críticos vieram de todos os lados. O primeiro-ministro da Itália, Matteo Salvini, disse que gostaria de saber o que o fundador Enzo Ferrari, morto em 1988, diria sobre o carro. O ex CEO da Ferrari Luca Cordero di Montezemolo não titubeou ao afirmar que o cavalinho rampante, logo da Ferrari, deveria ser retirado do modelo.
Os investidores também tremeram. As ações da Ferrari caíram 8,4% no dia seguinte ao lançamento. Um investidor afirmou que a ação Ferrari foi “penalizada pela decepção estética”. No segundo dia, as ações caíram mais 0,1%. Mas, no dia 15 de junho, as ações se estabilizaram após o choque inicial, mas ainda sem apagar totalmente a reação negativa inicial. Segundo a agência Forbes, o consenso é que o mercado não rejeitou a eletrificação da Ferrari em si, mas reagiu ao receio de que o Luce se afaste da identidade tradicional da marca. A discussão migrou de uma crítica ao carro para uma avaliação de quanto ele poderá contribuir para os lucros futuros da Ferrari.

O CEO da Ferrari, Benedetto Vigna, defende o Luce dizendo que os críticos deveriam ver o carro. Ele discorda dos que dizem que o modelo é uma cópia de outros veículos elétricos no mercado, inclusive chineses. “Se você vir e testar o Luce, imediatamente compreenderá que ele não é uma cópia e não tem nada em comum com outros VEs produzidos por outras montadoras, seja em termos de interior, exterior e desempenho,” disse ele. Vigna ressalta que houve “grande interesse” no carro, inclusive de novos clientes, o que parece ser o alvo principal com o lançamento. A Ferrari poderá ter menos problemas na venda do Luce do que apregoam as redes sociais.
Falem mal, mas falem de mim
Felipe Munoz, da consultoria Car Industry Analysis, disse que a Ferrari tinha consciência do falatório que o Luce iria gerar, tendo em vista a quebra deliberada com a tradição, e pontuou que publicidade negativa é ainda publicidade. “A partir do aspecto da comunicação, eles conseguiram que o mundo voltasse a atenção para o Ferrari elétrico”, afirmou ele. “Na questão conhecimento, o objetivo foi atingido, porque era o único assunto naquele momento.”
Munoz descreveu o Luce como um “produto de virada” – não para ser um líder de vendas, mas a chave para a nova tecnologia que insere e posiciona a Ferrari na era elétrica. Quem acompanha o setor lembra bem de outras “bolas curvas” da Ferrari – o modelo com tração integral FF de 2011 e o SUV Purosangue de 2022 também levantaram ceticismo antes das vendas, que no final registraram sucesso. Outros analistas dizem que a Ferrari esperava “sobrancelhas levantadas” com a apresentação do Luce, mas a reação abrupta do mercado foi além do que era esperado. Agora, só resta aguardar a evolução dos pedidos para saber se o risco valeu à pena.
Ficha técnica - Luce
- Potência: 772 kilowatts, 1.050 hp
- Torque máximo: 990 Nm
- Aceleração 0 a 100 km/h: 2,5 segundos
- Velocidade máxima: 310 km/h
- Autonomia (em fase de homologação): 530 km
- Capacidade bruta do pacote de baterias: 122 kilowatt horas
- Voltagem: 800
- Potência máxima de recarga: 350 kW
- Peso em ordem de marcha: 2.260 kg
- Peso do pacote de baterias: 630 kg
Fonte: Ferrari