Estado de Minas ENTREVISTA

Bets: professor da UFMG explica por que apostar é uma furada

Professor da UFMG faz alerta contra apostas online e explica por que, em qualquer disputa contra uma banca, é impossível o usuário sair no lucro


postado em 28/09/2026 07:42 / atualizado em 28/09/2026 08:03

"Os jogos já são planejados para que a banca tenha lucro; basta ter apostadores, quanto mais, melhor", afirma o professor (foto: Pádua de Carvalho)
O debate sobre as plataformas virtuais de apostas, também conhecidas como bets, tomou conta do noticiário nos últimos tempos, quase sempre pelo viés dos problemas que deixam para trás: famílias endividadas, publicidade agressiva com nomes famosos e impactos na saúde mental. É uma discussão necessária, mas que costuma chegar tarde — quando o estrago já está feito.

 

O professor Bernardo Nunes de Lima, do Departamento de Matemática da UFMG e um dos coordenadores do Probabilidades no Futebol, propõe olhar para o problema por um ângulo anterior a tudo isso. Antes da abordagem econômica, social ou de saúde pública, há uma resposta matemática simples e definitiva sobre os palpites pagos — e ela não deixa margem para dúvida: apostar é uma furada. Amparado na Lei dos Grandes Números, o pesquisador explica por que, em qualquer jogo disputado contra uma banca — da Mega-Sena às plataformas esportivas —, o resultado a longo prazo já está decidido antes mesmo do primeiro bilhete ser submetido.
 
  • QUEM É: Bernardo Nunes Borges de Lima, 52 Anos
    Casado, dois filhos
  • ORIGEM: Belo Horizonte (MG)
  • CARREIRA: Professor titular do Departamento de Matemática da UFMG, onde leciona desde os 24 anos — seu único emprego. Pesquisador na área de Teoria da Probabilidade, com foco em modelos de percolação e mecânica estatística. Um dos fundadores do projeto de extensão Probabilidades no Futebol, da UFMG.
  • TRAJETÓRIA Formado em Engenharia Civil, nunca exerceu a profissão: ingressou direto no mestrado em Matemática na UFMG e, em seguida, no doutorado em Teoria da Probabilidade pelo IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Fez estágios de pós-doutorado no CWI (Centrum Wiskunde & Informatica), em Amsterdã (Holanda), e no próprio IMPA. Em 2004, ao lado de outros dois docentes, criou a iniciativa Probabilidades no Futebol, motivado pela indignação com a divulgação de prognósticos esportivos sem embasamento científico na imprensa.
    A iniciativa — que já recebeu financiamento da Fapemig e promoveu minicursos pelo interior de Minas usando o futebol como fio condutor — é mantida hoje por três professores e conta com alunos de graduação voluntários em iniciação científica. Recentemente, publicou pelo Projeto Euclides — coleção do IMPA considerada a mais importante de matemática em língua portuguesa — o livro “Probabilidade”, em parceria com o professor Leonardo Rolla, do Departamento de Estatística da USP. É casado com uma professora do Departamento de Engenharia Sanitária da UFMG e pai de duas filhas, uma delas cientista da computação.
É esse recorte, quase sempre ausente do debate público, que orienta a conversa a seguir. Nela, Bernardo fala sobre a origem das produções audiovisuais que o departamento tem feito para o Instagram e TikTok para popularizar esse alerta, o efeito inesperado de ver esse conteúdo replicado por colegas em sala de aula e por que a matemática já deu o veredicto final. Leia a íntegra da entrevista a seguir:
 
Bernardo, o que te levou a começar essa série de vídeos sobre probabilidade e apostas esportivas? Havia um episódio ou uma percepção específica que disparou essa ideia?
 
Isso é parte de algo maior: o projeto de extensão Probabilidades no Futebol da UFMG, coordenado pelo meu colega do Departamento de Matemática, o professor Gilcione Nonato. Temos um site que divulga probabilidades de diversos eventos relacionados a partidas futebolísticas, já conhecido e largamente acessado. A questão dos palpites pagos sempre esteve nos rondando. Todo estudante de matemática já foi perguntado por algum conhecido sobre como melhorar as chances em algum jogo — se for especialista em probabilidade, então, nem se fala!
 
Em qualquer disputa contra uma banca, seja Mega-Sena, bets ou roleta, a resposta dada pela ciência é trivial: não aposte! Vínhamos amadurecendo a ideia de produzir materiais em formato audiovisual sobre esses temas. Como o assunto é extremamente atual e relevante, tiramos a ideia do papel. Um episódio curioso ocorreu na última Copa do Mundo: nossa página foi invadida por uma dessas casas de apostas e tivemos que deixá-la fora do ar durante toda a segunda metade da competição, o que afetou também boa parte dos portais do nosso departamento.
 
Como surge, na prática, a ideia de ‘traduzir’ conceitos complexos para uma linguagem dinâmica e acessível ao público geral? E como funciona essa gravação?
 
O projeto sempre teve esse caráter de divulgação científica. Já escrevemos artigos, ministramos palestras e minicursos, sempre com o futebol como fio condutor. Porém, as entregas nem sempre andavam na velocidade que desejávamos, pois temos nossas obrigações acadêmicas na UFMG. A vontade de gravar materiais sempre existiu, mas nós três — os professores à frente do projeto — sequer tínhamos redes sociais.
 
O grande estímulo veio de uma estudante de Iniciação Científica orientada por mim e voluntária no projeto, a Luiza, aluna do 4º período. Ela criou os perfis no Instagram e TikTok, e agora grava, edita e posta os conteúdos, além de apresentar alguns deles, como o do Colecionador de Figurinhas. Em geral, o processo é bem simples: buscamos ideias de temas, alinhamos um roteiro sucinto e gravamos.
 
O senhor já trabalhava com probabilidade aplicada ao esporte antes de as bets ganharem esse protagonismo, ou essa frente nasceu justamente da explosão das apostas nos últimos anos?
 
Trabalho com pesquisa em Probabilidade desde que concluí meu doutorado, em 2003. A iniciativa Probabilidades no Futebol existe desde 2004, bem antes do advento das bets no Brasil. As casas online foram liberadas por aqui em 2018, mas anos antes já éramos procurados por empresas sediadas no exterior — com as quais, destaco, nunca tivemos qualquer vínculo.
No meu caso, sempre fui fascinado pela mecânica dos jogos de azar; os primórdios do projeto e boa parte do seu desenvolvimento inicial foram motivados por isso. O ser humano sempre teve o desejo de medir o acaso: menções a jogos de sorte ou azar existem desde que há escrita e aparecem mais de uma vez no Velho Testamento, por exemplo.
Hoje, porém, observamos um grave problema social, econômico e de saúde mental, chegando a episódios de violência explícita, que tem entre suas causas principais a ignorância sobre conceitos probabilísticos. Acredito que é um dever da comunidade matemática falar sobre isso, e os vídeos são uma pequena contribuição nesse sentido.
 
Que tipo de retorno esse conteúdo tem gerado?
 
Na verdade, se compararmos com o alcance do nosso site, a penetração nas redes ainda é pequena. Algo que prejudica é que publicações sobre jogos de azar sofrem restrição etária, mesmo quando são explicitamente contrárias à prática. O retorno que temos recebido é modesto, mas muito elogioso. Às vezes recebo comentários dizendo que os vídeos são abstratos ou difíceis de acompanhar... esperamos aperfeiçoar os próximos.
 
Parte da sua audiência é formada por outros professores, certo? Isso indica que eles estão se municiando para levar esse debate para a sala de aula, gerando uma reverberação que as métricas digitais não captam. Como o senhor soube disso e o que representa ver o projeto virar ferramenta pedagógica?
 
Não chegaria a afirmar que há uma ampla reverberação, mas sim: tenho a impressão de que o alcance é maior entre os educadores, o que é ótimo. Eles certamente recebem essa demanda sobre apostas vinda dos alunos. A maioria das pessoas até intui que apostar é uma furada, mas gostaríamos que todas tivessem certeza disso. Que tenham ciência do fato, mesmo sem compreender os meandros técnicos — eu não sei todos os detalhes de fabricação de uma vacina, mas, na minha família, não temos dúvida em tomá-las. Ao mesmo tempo, devemos estimular os estudantes a entender a teoria por trás; isso é a busca pelo conhecimento.
 
Na sua avaliação, o tema das apostas pode se mostrar um gancho eficaz para engajar jovens no aprendizado de matemática?
 
Certamente. Fala-se muito que o domínio da matemática é crucial para o exercício da cidadania. Por exemplo: toda vez que apostamos em um evento, existe um valor médio esperado para aquele palpite, calculado por uma média ponderada. Isso pode ser ensinado nas escolas. Toda vez que esse valor médio é negativo, trata-se de um péssimo negócio para o jogador; e não é surpresa que, em qualquer disputa contra a banca, esse valor esperado seja sempre negativo. A questão das bets está aí gritando para ser debatida. É um gancho perfeito para ensinar matemática e, ao mesmo tempo, nos dá a resposta definitiva: não aposte!
 
Muito se discute sobre bets pelo viés econômico e social (endividamento, publicidade, impacto familiar). Mas o senhor defende que há um aspecto anterior a tudo isso, de natureza estritamente matemática. Pode explicar essa ideia?
Já escutamos, aqui mesmo em Belo Horizonte, casos com desfechos trágicos e grande repercussão na mídia, além de episódios violentos causados por endividamento. Porém, isso é apenas a ponta do iceberg. A base é uma enorme massa, em sua maioria de jovens adultos, que joga por diversão, por se achar esperta demais, por fé no time ou por excesso de estímulo comercial... mas que, sobretudo por falta de letramento matemático, perde dinheiro em silêncio. É isso que deveríamos combater. Só uma fração dos perdedores vai virar notícia, embora todos contribuam para a tragédia.
 
Em termos simples, a máxima de que “a banca sempre ganha” é matematicamente verdadeira? Que princípio sustenta essa afirmação?
 
Antes de qualquer argumento técnico: alguém acha mesmo que as casas de apostas gastariam fortunas com propaganda e contratariam celebridades para distribuir dinheiro ao público? É difícil de acreditar.
Do ponto de vista matemático, o que sustenta a frase “a banca sempre ganha” é a Lei dos Grandes Números, cujo primeiro registro surgiu em 1713, na obra póstuma Ars Conjectandi, de Jakob Bernoulli. Esse teorema afirma que, se observarmos as repetições de um evento aleatório, a média aritmética dos resultados observados converge para o valor médio teórico.
 
Por exemplo: se lançarmos um dado comum de 6 faces e ele for honesto, o valor médio teórico de um lançamento é: (1+2 3 4 5 6)/6=3,5. A Lei dos Grandes Números diz que, ao rolar o dado milhares de vezes, a média dos resultados vai se aproximar cada vez mais de 3,5. Portanto, às casas de apostas cabe apenas estruturar o jogo para que o valor esperado de cada palpite seja positivo para elas — o que significa ser negativo para o jogador. Logo, as bancas não têm interesse algum em fraudar partidas. Observe que as fraudes relatadas são sempre operadas por apostadores. Os jogos já são desenhados para dar lucro à casa; basta ter apostadores — quanto mais, melhor.
 
Esse ângulo matemático muitas vezes fica de fora do debate público. Por que o senhor acha que ele é tão pouco explorado, sendo a explicação mais direta do problema?
 
Existe a questão da visibilidade: o que dá notícia é o caso trágico, associado à violência. Como em quase tudo no Brasil, discutimos mais as consequências do que as causas. Mas o fator principal é que é difícil divulgar matemática. Existe aquela percepção errônea de que é um bicho de sete cabeças, então prefere-se evitá-la.
 
Se pudesse deixar um único alerta para um jovem que pensa em começar a apostar, qual seria?

Um único: não aposte! Se me permitir mais alguns: estude! Sobrou um dinheirinho? Poupe, quite dívidas, gaste com algo útil! Invista em você, e não no dono da casa de apostas.

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