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Estado de Minas SAúDE

Estudo associa zika vírus à síndrome de Guillain-Barré e ao aborto

Caso raro foi registrado no estado do Rio de Janeiro


postado em 01/08/2018 11:25 / atualizado em 01/08/2018 11:21

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)
Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), da Fiocruz); da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj); e do Centro de Referência de Doenças Imuno-infecciosas de Campos dos Goytacazes (RJ) investigaram um caso raro de infecção pelo vírus da zika que, simultaneamente, causou a síndrome de Guillain-Barré e aborto. O estudo foi publicado no periódico científico Frontiers in Microbiology.

Desde a emergência sanitária relacionada ao zika vírus na América Latina, entre 2015 e 2016, cientistas investigam possíveis correlações entre a infecção pelo micro-organismo e o desenvolvimento de manifestações neurológicas, como a síndrome de Guillain-Barré, e da síndrome congênita do zika, que inclui diversos distúrbios, como a microcefalia.

No estudo atual, os investigadores analisaram os impactos da infecção por zika numa gestante, de 28 anos, natural do estado do Rio de Janeiro. Durante o período gestacional, a paciente começou a apresentar fraqueza nas pernas e incapacidade persistente para andar – sintomas característicos da síndrome de Guillain-Barré. A manifestação clínica incluía, ainda, erupções na pele, coceira e vômito. A partir da realização de exames obstétricos, foi constatada a morte do feto, com cerca de 15 semanas de gestação.

Em um primeiro momento, amostras do sangue e do fluido cérebro-espinhal da paciente foram submetidas a testes sorológicos para identificação de anticorpos. Os resultados foram negativos para zika, dengue, chikungunya, Epstein Barr e citomegalovírus – microrganismos já identificados como possíveis causadores de quadros de Guillain-Barré. Com isso, foi necessária a realização de análises complementares.

Por meio da técnica de imunohistoquímica, que permite detectar o antígeno viral em células desses tecidos, os pesquisadores conseguiram identificar a presença do zika vírus na placenta e em diferentes órgãos fetais, incluindo cérebro, pulmões, rins, pele e fígado. A análise do tecido placentário apontou infecções e inflamações graves, com sinais de hemorragia, inchaço e necrose pela ação viral.

Imunidade materna

Segundo o pesquisador Marciano Viana Paes, do IOC, um dos autores do estudo, a disfunção placentária está relacionada à falha da ativação da resposta imune materna à infecção. Ainda de acordo com ele, o vírus foi capaz de afetar células que compõem o sistema imune da placenta, conhecidas como "células de Hofbauer". "A infecção do órgão materno-fetal pelo zika foi evidenciada pela produção exacerbada de citocinas e mediadores relacionados à alteração de permeabilidade vascular e da resposta linfocitária, que, embora importantes para o combate à infecção, contribuíram para exacerbar a inflamação", explica o pesquisador à Agência Fiocruz. Apesar de ser uma resposta imunológica importante do organismo à invasão pelos mais variados microrganismos, a reação inflamatória quando exacerbada pode acarretar efeitos danosos como os apontados no estudo.

Os resultados mostram ainda a existência de um mecanismo, ainda desconhecido, que confere ao vírus da zika uma capacidade única de contornar a ativação imunológica materna. Ao invadir a placenta, o micro-organismo provocou diversas alterações no desenvolvimento do feto que levaram ao aborto. As análises revelaram danos às estruturas dos tecidos do cérebro, incluindo áreas difusas de edema, desorganização do córtex cerebral e degeneração de fibras nervosas. A degeneração celular provocou impactos em outros órgãos em formação, como o fígado, os pulmões e rins.

O estudo sugere que os múltiplos efeitos foram resultado da persistência de alta viremia, ou seja, uma grande quantidade de vírus no sangue da paciente, e uma resposta viral exacerbada pelas manifestações neurológicas decorrentes da síndrome de Guillain-Barré. "A síndrome de Guillain-Barré potencializou a infecção pelo zika. O comprometimento da placenta associado aos danos sofridos pelo feto ressalta a importância do aprofundamento da investigação sobre a influência da imunidade materna, diante de uma infecção pelo zika, em relação ao desenvolvimento do feto", ressalta Marciano Paes.

O acompanhamento clínico mostrou que, pouco mais de um mês após a alta, a paciente ainda precisava de auxílio para caminhar e apresentava dores nos membros inferiores. Após cinco meses, ainda havia sequelas residuais e dificuldade de locomoção. Pouco mais de um ano depois, a paciente retornou às suas atividades diárias.

(com Agência Fiocruz)

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