Estado de Minas NASCIMENTO

Zoológico de Belo Horizonte reproduz espécie extinta na natureza

Filhote de mutum-de-alagoas nasceu sem intervenção artificial e é o primeiro registro de reprodução natural da espécie no Brasil


postado em 19/01/2026 09:22 / atualizado em 19/01/2026 09:39

O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) é uma ave de grande porte, nativa da Mata Atlântica nordestina(foto: Suziane Brugnara)
O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) é uma ave de grande porte, nativa da Mata Atlântica nordestina (foto: Suziane Brugnara)
Um filhote de mutum-de-alagoas nasceu recentemente no Zoológico de Belo Horizonte, em um registro ainda incomum para uma espécie extinta na natureza desde a década de 1970. Atualmente, existem pouco mais de 100 indivíduos da ave no mundo, todos sob cuidados humanos. O nascimento chama atenção por um aspecto específico: o filhote rompeu o ovo sozinho e está sendo criado pelos pais, sem o uso de chocadeiras artificiais.

No Brasil, trata-se do primeiro caso conhecido de reprodução natural da espécie nessas condições. O episódio representa um avanço dentro do Plano de Ação Nacional (PAN) para a conservação do mutum-de-alagoas, que busca ampliar o número de indivíduos geneticamente viáveis com vistas a um futuro programa de reintrodução na natureza.

O filhote é resultado de um dos dois casais que chegaram ao Zoológico de BH em 2018, por meio do PAN. À época, a fêmea tinha pouco mais de um ano de idade e o macho aproximadamente seis meses, ambos oriundos de cruzamentos em criadouros legalizados. A formação do casal exigiu um trabalho prolongado de manejo e observação comportamental.

Segundo a chefe da seção de aves do Zoo de BH, a bióloga Márcia Procópio, o processo foi marcado por desafios desde o início. “No começo, a fêmea não aceitava o macho, pois ele ainda não havia alcançado a maturidade sexual. Depois, ele passou a atacá-la nas tentativas de aproximação. Tivemos que construir uma área cercada dentro do recinto para permitir um convívio, sem contato e, gradativamente, fomos trabalhando com enriquecimentos ambientais e outras estratégias que permitiam manter os dois juntos, em segurança, por mais tempo a cada dia”, comenta.

A observação diária do comportamento do casal orientou novas intervenções ao longo dos anos. Os primeiros cruzamentos ocorreram, mas não resultaram em filhotes autônomos — aqueles que conseguem romper a casca do ovo sozinhos e são criados pela mãe, condição considerada mais adequada para programas de conservação com foco em reintrodução.

Diante desse cenário, a equipe optou por não utilizar chocadeiras artificiais e concentrou esforços na ambientação do recinto. Foram realizadas mudanças no paisagismo, com criação de isolamentos visuais artificiais e naturais, sombreamento semelhante ao de áreas florestais, além da diversificação de poleiros e ninhos, entre outras intervenções voltadas à redução de estresse e estímulo ao comportamento natural da espécie.

Após essas adaptações, a equipe monitorava um ovo já posto pela fêmea quando ocorreu o nascimento do filhote, que rompeu a casca sozinho e deixou o ninho nos primeiros dias de vida. O episódio passa a integrar os dados acompanhados pelo PAN, cujo objetivo inclui a manutenção da diversidade genética e o aprimoramento das técnicas de manejo da espécie.

Por ter sido a primeira instituição brasileira a registrar a reprodução do mutum-de-alagoas nessas condições, o Zoológico de Belo Horizonte passa a contribuir com estudos e pesquisas sobre o comportamento reprodutivo da ave. O filhote, com pouco mais de 15 dias de vida, permanece em um recinto reservado, com cerca de 20 metros quadrados, junto aos pais, fora da área de visitação. Outros dois indivíduos da espécie podem ser vistos pelo público na Praça das Aves da instituição.

Mutum-de-alagoas

O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) é uma ave de grande porte, nativa da Mata Atlântica nordestina e endêmica da região conhecida como Centro Pernambuco, faixa florestal ao norte da foz do rio São Francisco. A espécie esteve por séculos envolta em incertezas científicas, em razão da semelhança com o mutum-cavalo, encontrado na Amazônia.

O registro mais antigo do animal data do século XVII, quando foi descrito pelo naturalista alemão Georg Marcgrave, integrante da expedição científica de Maurício de Nassau. Apenas em 1951, o ornitólogo Olivério Pinto identificou características que permitiram reconhecer o mutum-de-alagoas como uma espécie distinta.

Quando essa diferenciação foi estabelecida, a ave já se encontrava em acentuado declínio populacional, até desaparecer completamente da natureza. Atualmente, todos os indivíduos existentes vivem em cativeiro, e o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Mutum-de-alagoas articula esforços para preservar a diversidade genética da espécie e estruturar, em longo prazo, estratégias que possam viabilizar seu retorno ao ambiente natural.

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