Se quisesse, o empresário Elias Tergilene, de 41 anos, poderia frequentar as rodas “de bacanas”, como chama as pessoas de alto poder aquisitivo. Cacife para isso ele tem de sobra: é sócio de diversos empreendimentos, como uma fábrica de móveis em parceria com um grupo italiano, uma mina de beneficiamento de ardósia voltada à exportação, uma administradora de imóveis para aluguel e os shoppings populares Uai e Oi. Mas é mais fácil encontrá-lo em “quebradas” como o Morro do Papagaio ou na praça da Rodoviária, em Belo Horizonte. “A high society é chata demais. Só aquele papo de ‘filho de rico’, falando de Miami, golfe, balada, marcas. Conversar com o povo é muito mais legal. Não tem frescura, as histórias são mais interessantes. É papo reto. É onde me sinto em casa”, diz, com vocabulário típico das ruas.
E o morro realmente povoa os sonhos do empresário. Sua mais nova iniciativa comercial, a Favela Holding Participações S.A., está de olho no poder de compra nada modesto dos moradores de comunidades de todo o Brasil. Segundo pesquisa divulgada no início deste ano pelo Instituto Data Popular, os mais de 12 milhões de moradores dos morros no país somam um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 56 bilhões, cifra superior a de países como Bolívia e Uruguai. E não é só isso: essa população não só consome, como escolhe produtos de qualidade e prefere fazer suas compras na própria comunidade. É por isso que o principal investimento da nova companhia será a construção de shoppings populares em favelas de cidades como Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus. A previsão é de que seja injetado cerca de R$ 1,2 bilhão em 25 centros de compras até 2018. “Foi-se o tempo em que associávamos favela a pobreza. Hoje, a renda circula, o pessoal tem informação e sabe o que é bom. Nossa parte é aproveitar esse cenário”, afirma.

O shopping no Alemão vai ter 500 lojas, das quais 60% serão reservadas para moradores da própria comunidade, gerando emprego, renda e uma alternativa de carreira profissional para os jovens. “Podemos mudar a matriz econômica da favela, que hoje é o tráfico de drogas. Não se trata de dar apenas dinheiro para o jovem favelado, mas status e poder, que é o que ele conquista quando faz parte do ‘bonde’. E isso o empresário tem: o desafio é mostrar que vale mais a pena empreender do que se envolver com o crime. O nosso negócio é transformar a favela em patrão”, diz Elias, que negocia parcerias com empresas como Honda, Tim, Nestlé, Ambev, Nike e P&G, entre outras, todas interessadas no filão das classes C e D.

Já para o Morro do Papagaio, com 50 mil habitantes, Elias vê outra vocação. Rodeado por bairros de classe A, como Santo Antônio, Sion, São Bento, Santa Lúcia e Belvedere, o lugar parece ser perfeito para a criação de um centro de serviços que vá atender às necessidades das “madames” da vizinhança, como entrega de bolos, doces, salgados e cuidados automotivos. “Que madame não vai querer que busquem o seu carro em casa e devolvam todo certinho, polido, alinhado e balanceado, com toda segurança? Vai bombar!”, afirma. Confiante no sucesso da iniciativa, Elias diz não temer o preconceito dos ricos e garante que será questão de tempo até que a boa fama dos serviços disponibilizados se espalhe.
Francislei Henrique Santos, o DJ Francis, morador do Papagaio, é um dos parceiros de Elias na capital mineira. A varanda de sua casa, que tem uma impressionante vista para a barragem Santa Lúcia, recebe diretores e gerentes de grandes empresas dispostas a ganhar a população. Mas, para isso, garantem os negociadores, é preciso saber jogar de acordo com as regras da favela. “Na economia formal, são ‘não sei quantos’ advogados para fechar um contrato, enquanto aqui vale o papo reto. Se você fechou comigo, está fechado com a Cufa, e vice-versa. E as pessoas têm de saber respeitar isso, porque não temos um passe qualquer: nosso passe vale R$ 56 bi”, diz. Francis garante que o cenário, que já está bom, deve melhorar ainda mais quando outros empresários perceberem a riqueza em meio à paisagem dos barracos. “Nunca houve um cenário tão propício para um diálogo entre setores variados da sociedade. Acredito que, com essa troca, um setor pode e vai complementar o outro”, diz.


Na serralheria, a produção de camas tubulares sob encomenda para lojas de decoração deslanchou e, logo, a empresa tornou-se alvo do interesse do grupo italiano Doimo, que comprou 51% da companhia, hoje especializada em móveis de luxo. Com a entrada de dinheiro, Elias pôde variar seus investimentos. “Um deles foi o prédio localizado na praça da Rodoviária. Depois comprei uma mina de ardósia, uma fábrica de colchões (hoje desativada). Quando percebi, já estava mergulhado naquele ambiente fabril, com um monte de funcionários e uma rotina que não era para mim. Eu sou do comércio. Foi quando, então, decidi abrir o Shopping Uai”, conta.

Além da unidade no centro, existem outras duas so Shopping Uai em Belo Horizonte, ambas na região Norte: uma no bairro Céu Azul e outra em Venda Nova. Em Manaus, capital do Amazonas, existem outros dois centros de compra. Em fevereiro, Elias concluiu a compra de 25% do Shopping Oi, o outro centro de compras popular da capital.
O empresário, que é casado e pai de quatro filhos, reconhece que pensa em negócios o tempo todo. “É isso que me dá prazer.”