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Estado de Minas ENTREVISTA | LEôNIDAS OLIVEIRA

'O título da Unesco fez BH redescobrir a Pampulha'

O presidente da Fundação Municipal de Cultura e da Belotur diz que o reconhecimento provocou número recorde de visitas. Contudo, para ele, questão do Iate ainda é a maior preocupação


postado em 10/08/2016 16:36 / atualizado em 10/08/2016 16:44

(foto: Roberto Rocha/Encontro)
(foto: Roberto Rocha/Encontro)
Na emblemática igreja São Francisco de Assis, projetada por Oscar Niemeyer, o painel de Candido Portinari simboliza a transformação: peixes ganham asas e viram pássaros. Além da igrejinha, a Casa do Baile, o Museu de Arte e o Iate Tênis Clube, construídos entre os anos de 1942 e 1943, são os protagonistas do Conjunto Moderno da Pampulha. Assim como os peixes de Portinari, ele está alçando voos para além das montanhas do estado. Foi em Istambul, na Turquia, na madrugada de 17 de julho, que o mais famoso cartão-postal mineiro se transformou, enfim, em Patrimônio Cultural da Humanidade. Minas Gerais foi também elevada ao status de estado brasileiro com mais lugares agraciados pelo título. Já foram reconhecidos Ouro Preto (1980), Diamantina (1999) e o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (1985). A importância histórica do conjunto arquitetônico demorou a ser reconhecida, embora seu nome já estivesse inscrito na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) há 20 anos. “Nem eu sabia disso”, revela Leônidas Oliveira, presidente da Fundação Municipal de Cultural (FMC) e da Belotur.

A candidatura foi retomada em 2012, a partir de um insight de Leônidas quando assistia a uma reportagem na TV que tinha a Pampulha como cenário. “Me veio a questão: Por que o conjunto arquitetônico ainda não virou Patrimônio da Humanidade?”. O arquiteto e urbanista tinha acabado de assumir a cadeira de presidente da FMC. Depois do “ok” do prefeito, foi iniciada uma corrida contra o relógio para elaborar o dossiê de 500 páginas e se comprometer com as exigências da Unesco. Durante a folga de uma semana após o anúncio em Istambul, Leônidas conversou com Encontro. Nesta entrevista, ele fala dos entraves na preparação para o título, da apreensão diante da tentativa de golpe militar durante a reunião em Istambul e do desafio de atender bem o grande número de turistas que terão, agora, a orla da Pampulha como passagem obrigatória.

ENCONTRO – O que você estava fazendo quando saiu o título?
Leônidas Oliveira – Estava em casa e de frente para a televisão, conectada à internet. O anúncio saiu por volta das cinco horas da manhã. Foi quando comecei a berrar. Não tive coragem de viajar a Istambul, na Turquia, porque estávamos preparando algumas ações para reverberar o título por aqui. Eu teria de ficar por lá durante 10 dias. Mas foi emocionante. Fiquei três noites sem dormir. Até o fim do ano, teremos uma programação gratuita para comemorar esse reconhecimento.

Antes disso, houve algum momento de tensão diante da tentativa de golpe militar em Istambul. Passou por sua cabeça que a reunião pudesse ser adiada por longo tempo?
Não pensei que isso pudesse atrapalhar o título. Quando estudei na Europa, visitei muitas vezes Istambul e tenho muito apreço por aquela cidade. Já vivenciei alguns levantes por lá. Em dezembro passado, eu deparei com milhares de homens gritando. A polícia dispersou a turma lançando gás lacrimogêneo. Ao mesmo tempo, perto dali havia algumas pessoas dançando em um bar. É claro que, se o golpe desse certo, tudo seria paralisado. Porém, diferente disso, não acreditava que a ONU pudesse suspender a reunião com tantas nações ali.

A Pampulha já estava inscrita desde 1996 na Unesco, mas só em 2012 a candidatura foi retomada. De onde partiu o gatilho?
Particularmente, nem sabia que o nome já constava na Unesco. No final de 2012, estava assistindo a uma reportagem sobre uma corrida na orla da Pampulha. Vi a igrejinha e me veio a questão: “Por que o conjunto arquitetônico ainda não virou Patrimônio da Humanidade?”. Na mesma hora, entrei em contato com um amigo que tinha acesso à Unesco. Ele me contou que o complexo já figurava na lista de espaços que podiam se tornar patrimônio da humanidade. Aí perdi o medo. Era um domingo. Liguei para o prefeito Marcio Lacerda e ele disse. “Uai, então vamos lá”. Minha primeira viagem com o prefeito foi a Brasília para tratarmos do assunto com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Começamos a buscar parceiros e nos cercar de profissionais gabaritados.

Mas já havia algum dossiê pronto?
Não. Não havia. Elaboramos um dossiê de 500 páginas em dois anos. Fizemos reuniões todas as tardes de quinta-feira com a presença do Iphan. Deixamos as diferenças políticas de lado. É um grande exemplo de que, quando políticos se unem para um ideal coletivo, tudo funciona. Foi, inclusive, o título mais rápido da história concedido pela Unesco, exceto nos casos em que os monumentos são agraciados em caráter de urgência. Nosso diferencial foi não esperar a concretização do título para começarmos as adequações solicitadas pela Unesco.

E, entre as exigências do órgão internacional, qual foi o maior empecilho?
O Iate. Desde 2013 estamos conversando com a diretoria do clube. Foi nessa época que identificamos 4 mil metros quadrados de ocupação que não sabíamos de onde veio. Havíamos feito inúmeras propostas e nada. Estávamos em um momento crucial. Então, sugeri ao prefeito que ele usasse do intrumento previsto pela Constituição. Ele atendeu o meu pedido e assinou o decreto sobre a desapropriação do Iate. Era isso ou o título ficaria ameaçado. Estávamos na maior encruzilhada da candidatura.

E como está o processo para resolver o impasse. O anexo do Iate será, de fato, demolido?
Hoje é o que mais me preocupa. Na última reunião com o Ministério Público entendemos que não podemos assinar nenhum documento até que se descubra como se deu a evolução da ocupação daquela terra. O problema é que o documento da época é muito evasivo. Só temos fotos que registram tal ocupação. Enquanto não tivermos segurança em relação a isso, a PBH não gastará nenhum dinheiro. Um terreno de 3 mil metros quadrados que fica em frente ao clube poderá entrar numa barganha, mas o Iate já informou sobre a dificuldade de construir nesse local. Já existe um projeto executivo de demolição do anexo feito pela Sudecap, mas temos de amarrar isso tudo. Uma coisa é certa: todos estão empenhados em resolver a questão, inclusive, o próprio Iate.

A despoluição do espelho d’água, reivindicação antiga dos moradores, não foi também uma dor de cabeça?
A despoluição da Lagoa da Pampulha não chegou a ser um problema com relação ao título de Patrimônio da Humanidade, visto que a candidatura foi do conjunto moderno, arquitetura, arte e paisagismo. No entanto, a lagoa é parte inerente da paisagem. Paralelo à candidatura, o processo de despoluição já vinha acontecendo. Quando recebemos a visita do Icomos (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), em 2015, a despoluição já estava bastante avançada. Haviam sido retirados 800 mil metros cúbicos de sedimentos e a licitação de limpeza das águas estava pronta. Atualmente, está em plena execução. Hoje, segundo dados técnicos, a água está em melhora constante. Até dezembro, deverá estar completa a despoluição, e o nível três de limpeza, alcançado, o que possibilita esportes aquáticos. Mas o grande ganho é a perenidade, com a redução de 95% do esgoto que chegava ao local, problema histórico resolvido.

E o que falta para cumprir todas as exigências?
Além do Iate, falta a praça Dino Barbieri, cuja obra é de responsabilidade do Iphan. É uma praça desenhada por Burle Marx. Já fizemos obras importantes lá, como fechar o trânsito que passava entre a praça e a igrejinha. O intenso tráfego de veículos poderia, com o passar dos anos, trazer danos à estrutura da capela. Aquele imóvel redondo que fica na parte central da Dino Barbieri será demolido. Portanto, já cumprimos oito das 10 recomendações. As outras, temos três anos para resolver, a contar da data do título.

A Pampulha conseguiu resistir ao avanço da verticalização por fazer parte de uma das Áreas de Diretrizes Especiais (ADE) da cidade, desde 2005. Até que ponto isso influenciou o título?
Influenciou bastante. A ADE na Pampulha nasceu de uma pressão popular, que já se atentava para uma possível verticalização da região. E há um ponto que poucos sabem. A Unesco, com base nas visitas e na própria ADE, criou a proteção mundial. Ela (Unesco) entendeu que, se a Pampulha foi protegida até ali, foi devido à participação popular.

Já foi notado aumento significativo de turistas na orla. Qual o público esperado daqui para frente?
Para se ter ideia, na Casa do Baile, no Museu de Arte Contemporânea e na igrejinha a média era de 150 visitas diárias. Agora, já alcançamos a casa dos 1.500. E tende a aumentar. Na segunda-feira, logo após o título, a primeira coisa que a Belotur fez foi escrever um ofício avisando a Organização Mundial de Turismo. Todos os guias do mundo bebem desta fonte. A Belotur fez um planejamento em 2009 identificando as potencialidades do turismo em BH, que, até então, não contava com o chamado “produto estrela”. Nosso produto era Ouro Preto, e as pessoas nem mais passavam por aqui para seguir para a cidade histórica. Agora, temos o nosso “produto estrela”. Já estamos negociando pacotes de turismo, ou seja, incluindo a cidade nos roteiros.

O que está sendo planejado para atender bem a todo esse público?
Foi criado o projeto Pampulha 2020. E estamos já planejando resolver algumas das principais carências do lugar, como a reforma dos banheiros da praça da igrejinha, que está em andamento. Vamos abrir uma licitação para colocar ônibus turísticos circulando pela cidade. Em um ponto estamos bem, que é a rede de restaurantes que temos à disposição no entorno da lagoa. A novidade é que vamos lançar um Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) para que a iniciativa privada possa explorar a área. É nossa ideia também fechar parte da orla aos domingos, o que já acontece em outras regiões de BH.

Quais as principais carências de infraestrutura atualmente na Pampulha?
Sem dúvida, transporte e banheiro. A Casa do Baile e o Museu de Arte já oferecem banheiros, mas faltam em outros lugares, como é o caso da praça Dino Barbieri, onde eles estão sendo reformados. Sobre o trânsito, nas ruas que dão acesso à orla, está sendo permitido estacionar, mas ainda falta uma revisão de tráfego na região. A segurança sempre preocupa. Já criamos, entretanto, o projeto Patrulha Protegida, com guardas municipais e uma viatura que fica só por conta da orla. A pichação da igrejinha (o crime ocorreu em março deste ano e um rapaz de 25 anos foi identificado e preso) gerou um compromisso maior em relação ao tema.

O que muda na relação da Pampulha com os moradores de Belo Horizonte?
Daqui para frente, acredito que haverá um deslocamento muito grande de moradores de outros bairros para a Pampulha. Eles estarão em busca de lazer e contemplação. O título fez com que BH redescobrisse a Pampulha. Isso tem a ver com projeção de identidade. Toda vez que se mexe com o símbolo e com o pertencimento das pessoas pode dar certo ou errado. No nosso caso, deu certo. Foi assim quando quiseram construir prédios na Pampulha. A população não deixou. Agora, temos de manter. Do contrário, teremos problemas sérios. Todos estarão de olho.

Você está encerrando sua gestão à frente da Fundação Municipal de Cultura. Imaginava ser assim?
Sim. Imaginava, pois tínhamos projetos vigorosos e sabia que poderia dar certo. O Conjunto Moderno da Pampulha está presente nos livros de arte não é por acaso. JK rompeu os paradigmas da época. Ele tinha visão. Eu imaginava que teríamos grande repercussão com o título, só não achava que seria tão grande. Fomos citados em publicações até do Vaticano.

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