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Estado de Minas SAúDE | MULHER

Rejuvenescimento íntimo não é só questão de estética

Procedimentos permitem que mulheres recuperem a saúde, a autoestima e o prazer


postado em 18/10/2017 13:25 / atualizado em 18/10/2017 13:35

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)
Usar calça jeans ou calcinha de lycra mais apertada, assim como o simples hábito de andar de bicicleta, pode significar um transtorno para algumas mulheres. O desconforto de sentir a genitália roçando no tecido ou no banco, chegando a ferir os grandes lábios, leva muitas a questionarem se teriam algum problema. Mas, acostumadas a se calar diante de anos de preconceito e repressão no que diz respeito à sexualidade feminina, a maioria prefere fingir que nada está acontecendo e se esquiva de buscar ajuda profissional. Em pleno século XXI, poucas são as que têm conhecimento sobre o chamado rejuvenescimento íntimo, que pode ser realizado por meio de procedimentos estéticos ou cirúrgicos.
 
A situação se agrava ainda mais quando, além da aparência, ocorrem sintomas como falta de lubrificação, incontinência urinária e dor durante o ato sexual, entre outros inconvenientes. "É comum mulheres que não se sentem bem com suas partes íntimas negligenciarem sua sexualidade, o que gera vários transtornos emocionais", diz a ginecologista Luciana Regis, da Clínica da Pele. Ela explica que, fora as questões externas, ações de relaxamento e alargamento da vagina decorrentes de partos consecutivos e do envelhecimento natural, na fase da perimenopausa e pós-menopausa, exigem atenção em todo o sistema genital feminino.

A dermatologista Eveline Bartels:
A dermatologista Eveline Bartels: "O rejuvenescimento íntimo possibilita um estreitamento do canal vaginal, o que resulta em uma melhora na satisfação sexual" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A designer de ambientes e móveis Elisiane Pereira, de 31 anos, lembra o drama que viveu na adolescência. Desde que teve ciência da sua libido, percebeu que a anatomia de sua genitália não lhe agradava. "A aparência incomodava, também ocorriam alguns ferimentos por conta do atrito da vulva com as roupas", diz. Ao iniciar sua vida sexual, passou a sentir muita dor após o ato. Por muito tempo, o único pensamento que vinha à sua mente é que, se tivesse um órgão padrão, não passaria por tudo aquilo. "Eu acreditava no que via em revistas, TV, filmes, o que piorava ainda mais a minha realidade." A não aceitação do próprio corpo a levou a anos de angústia. Por diversas vezes pensou em se submeter à cirurgia, mas não tinha muita informação nem queria se expor buscando orientação médica. Somente em 2012, após ver uma reportagem sobre a obra do artista Jamie Mccartney, intitulada O Grande Muro de Vaginas, foi que mudou a sua percepção. Durante quatro anos o artista inglês realizou moldes em gesso de órgãos genitais de 400 mulheres em contextos diversos, como antes e depois do parto, vítimas de câncer e após cirurgias plásticas. "Desde então, ficou claro para mim que eu não estava sozinha e que não existia nenhum padrão a ser seguido. O importante era o meu bem-estar." Ela libertou-se de seus medos, venceu os preconceitos e buscou ajuda médica. Descobriu que possui endometriose, doença que acomete o útero, gerando dor e até infertilidade. "A partir daí a parte estética da minha genitália ficou em segundo plano, pois havia questões mais urgentes a resolver. Mas entender o que, de fato, estava acontecendo comigo foi libertador."

O surgimento do chamado rejuvenescimento íntimo fez com que mulheres com problemas semelhantes ao de Elisiane vislumbrassem novos horizontes. Aos poucos, tanto elas quanto os especialistas perceberam que não se tratava de uma futilidade estética, mas, sim, de uma questão de saúde e conquista de qualidade de vida. Passou-se a considerar que, dependendo do incômodo, além da vida sexual, o lado emocional da mulher é seriamente comprometido. Exceto em casos graves, os procedimentos estéticos são indicados na maturidade sexual, logo após os 18 anos, quando a paciente pode optar por tratamentos mais ou menos invasivos. "Nos casos cirúrgicos, o ideal é aguardar o mínimo de dois anos após a primeira menstruação", orienta a cirurgiã plástica Cíntia Mundin.

A cirurgiã plástica Raquel Virginia conta que muitas mulheres chegam aos consultórios desacompanhadas:
A cirurgiã plástica Raquel Virginia conta que muitas mulheres chegam aos consultórios desacompanhadas: "Nem mesmo os familiares têm ciência do que está sendo realizado" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Não há apenas um procedimento indicado para quem se sente desconfortável com sua região íntima. A cirurgia de vaginoplastia corrige a flacidez, remodela os músculos pélvicos e auxilia em casos de incontinência urinária decorrentes de queda da bexiga. Já a labioplastia traz alívio para as mulheres que desejam reduzir o tamanho dos lábios vaginais. A chamada radiofrequência age aquecendo a região de forma branda e controlada. "A energia utilizada no tratamento aquece os tecidos da vulva e da vagina, induzindo à produção de colágeno e à regeneração vascular", diz o cirurgião geral Cleinis de A. Mafra Jr., da Clínica EndoColono. São os lasers, no entanto, que promovem uma verdadeira revolução quando o assunto é rejuvenescimento íntimo. O que antes poderia ser feito somente mediante procedimento cirúrgico ou medicamentoso, hoje, pode ser realizado de forma rápida, segura e quase indolor. Pacientes vítimas de câncer, por exemplo, não podem fazer reposição hormonal e por isso sofrem com o ressecamento da vagina. "O laser aumenta a hidratação, textura e lubrificação", diz a dermatologista  Eveline Bartels. "Possibilita um estreitamento do canal, além de ajudar a controlar alguns casos de incontinência urinária de esforço, resultando em uma melhora na satisfação sexual da paciente." Na parte estética, auxilia na redução da flacidez dos grandes lábios, além de tratar e renovar a pele, promovendo o clareamento da região.

A decisão sobre qual procedimento deve ser realizado, contudo, requer avaliação de profissionais capacitados. Muitas vezes, a análise deve ser multidisciplinar, realizada por ginecologista, dermatologista, fisioterapeuta, cirurgião plástico e psicólogo. "É inútil buscar um padrão de beleza para a vulva, tendo em vista que cada corpo tem sua especificidade. Mas é possível melhorar a qualidade de vida da mulher e aumentar a sua autoestima", diz a ginecologista Luiza de Miranda Lima, da Quanta Laser. Antes de se submeter a qualquer intervenção, é preciso passar por uma avaliação ginecológica.

A cirurgiã plástica Cíntia Mundin: exceto em casos graves, os procedimentos estéticos são indicados na maturidade sexual, logo após os 18 anos(foto: Divulgação)
A cirurgiã plástica Cíntia Mundin: exceto em casos graves, os procedimentos estéticos são indicados na maturidade sexual, logo após os 18 anos (foto: Divulgação)
O Brasil é o líder no ranking mundial em cirurgias íntimas. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), somente em 2016 foram quase 19 mil intervenções, 45% a mais que no ano anterior. A busca pelo procedimento cresceu em âmbito mundial, levando à inclusão da cirurgia no relatório anual da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos pela primeira vez neste ano. No topo das cirurgias mais realizadas estão lipoaspiração do monte púbico (redução de gordura na região púbica), labioplastia ou ninfoplastia (redução dos grandes lábios) e rejuvenescimento interno da vagina (via laser, ácido, entre outros). Em Belo Horizonte, as queixas mais comuns nos consultórios são relacionadas à hipertrofia de pequenos lábios e escurecimento da vulva. "Outra preocupação constante diz respeito ao alargamento do canal vaginal", diz o cirurgião plástico Eduardo Cabral da Costa.

Entretanto, apesar das estatísticas, as mineiras ainda não se sentem à vontade para falar abertamente sobre o assunto. Nos consultórios médicos, é comum chegarem sem acompanhante. "Na maioria dos casos, nem mesmo os familiares têm ciência do que está sendo realizado", diz a cirurgiã plástica Raquel Virginia. "Somente 10% das minhas pacientes fazem esse tipo de procedimento." A encarregada administrativa Maria Luíza Gabriela, de 29 anos, é uma delas. Ela começou a se sentir incomodada com a estética de sua vulva por volta dos 25 anos. O que mais a marcou foi a sensação que sentia ao colocar lingerie ou biquíni e notar um certo volume. "Os lábios eram muito grandes e eu tinha vergonha." O constrangimento era tanto que nem conseguia compartilhar sua frustração. Sofreu sozinha, até começar a pesquisar sobre o tema na internet e descobrir que o problema não era só dela. Lendo relatos de outras mulheres, sentiu-se motivada a procurar ajuda profissional. Em julho deste ano, fez a cirurgia que mudaria a sua vida. A família foi informada uma semana antes, mas sem detalhes de qual intervenção seria realizada. "Renasci. Recuperei a minha autoestima".

O cirurgião plástico Eduardo Cabral da Costa: em Belo Horizonte as queixas mais comuns das mulheres são relacionadas à hipertrofia de pequenos lábios e escurecimento da vulva(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O cirurgião plástico Eduardo Cabral da Costa: em Belo Horizonte as queixas mais comuns das mulheres são relacionadas à hipertrofia de pequenos lábios e escurecimento da vulva (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Especializada em sexualidade humana, a psicóloga Sônia Eustáquia considera que, quando a mulher se inclui em uma condição estética favorável, naturalmente se sente mais realizada e sedutora. E recorda que as primeiras preocupações com as zonas erógenas surgiram quando elas passaram a fazer sexo por prazer, e não somente para procriar. "A partir daí, as mulheres começaram a olhar para o próprio corpo de uma forma diferente, com mais intimidade e cuidado, buscando a sua satisfação pessoal, e não somente a do parceiro", diz. No entanto, a descoberta também trouxe inseguranças, margem para comparações e, muitas vezes, tornou-se motivo de sofrimento. "A preocupação com a aparência dos seios e das genitálias foi se tornando cada vez maior à medida que o corpo ficou mais exposto publicamente, o que no passado era impensável." Por outro lado, nem sempre a conquista de um ideal estético vai suprir todas as carências emocionais e psicológicas femininas. "O sexo começa e termina na cabeça, quando a mulher se permite desejar e fantasiar. Por isso, não adianta atrelar a questão física a algo inerente ao modo como se pensa, sente e enxerga a realidade."

Para otimizar o pleno funcionamento da genitália feminina, os especialistas indicam terapias complementares, entre elas, a fisioterapia do assoalho pélvico. A análise da função da musculatura local, por meio dos componentes de força, resistência, tônus, controle, coordenação e reflexo, determina quais exercícios devem ser realizados. "O treinamento dos músculos do assoalho pélvico ocorre por meio da contração voluntária repetitiva e do relaxamento, visando melhorar o desempenho e a capacidade de ativação muscular da região", diz a fisioterapeuta Elza Baracho. Segundo ela, a técnica é uma importante ferramenta na prevenção e tratamento das incontinências urinárias e anais, prolapso dos órgãos pélvicos e disfunções sexuais. "Exemplos são os transtornos de dor genitopélvica com ou sem penetração, ou diminuição da libido e do prazer em razão de um músculo mais flácido", diz. Para a ginecologista Iracema Fonseca, do mesmo jeito que se trabalha os demais músculos do corpo, é importante que a mulher se preocupe em fortalecer a musculatura do assoalho pélvico. "Especialmente quando se prepara para uma gestação, seja para auxiliar na hora do parto seja em sua recuperação posterior", diz.

Entenda as cirurgias da intimidade Perineoplastia

Realizada na parte externa do órgão genital feminino, busca reconstituir os músculos do períneo, que sofre com as ações de relaxamento e alargamento decorrentes de partos consecutivos ou do envelhecimento

Vaginoplastia

Corrige a flacidez muscular presente no local, promovendo o estreitamento do canal vaginal, com o objetivo de remodelar os músculos pélvicos e auxiliar na correção de possíveis casos de incontinência urinária decorrentes de queda da bexiga, além de aumentar o prazer do ato sexual à mulher e a seu parceiro

Labioplastia

Redução dos grandes lábios vaginais em mulheres que sofrem com o aumento excessivo de pele e flacidez na região e correção da hipertrofia dos pequenos lábios, pelo aumento de tamanho

Lipoaspiração do Monte de Vênus

Região acima da vulva, o monte de vênus é a parte da genitália feminina coberta por pelos e constituída por tecido gorduroso. Indicada para mulheres com excesso de gordura no púbis

Estreitamento do canal vaginal


Indicada para mulheres que passaram por partos normais ou que, mesmo em decorrência da ação do tempo, possuem a sensação de que a vagina perdeu a elasticidade natural. O procedimento fecha o músculo e devolve o tônus

*Custo médio das cirurgias: R$ 8 mil

Rejuvenescimento íntimo sem cirurgia

Radiofrequência controlada

Atenua o relaxamento do canal vaginal ao produzir o seu estreitamento. Aumenta a lubrificação reduzida com a atrofia vaginal relacionada à menopausa. Melhora a tonicidade da pele dos grandes e dos pequenos lábios. Além de tratar incontinência urinária e fecal em casos leves e moderados.

Manutenção: anual
Custo médio de cada sessão
: de R$ 1 mil a R$ 2,5 mil

Rejuvenescimento vaginal a laser

Além de reduzir o alargamento da vagina, o procedimento é indicado para tratamentos de incontinência urinária, atrofia e secura vaginais, recuperando ainda a cor natural da pele genital. Método indolor, não precisa de anestesia.

Manutenção: de seis em seis meses.
Custo médio da sessão: R$ 2 mil

Preenchimentos com ácido hialurônico

Indicado nos casos de flacidez dos pequenos e grandes lábios, para dar volume ao local.

Manutenção
: a cada ano e meio
Custo médio da aplicação
: R$ 2 mil

Peelings Químicos

Realizados na parte externa da genitália, com produtos específicos para a região, têm a função de clareamento.

Manutenção: 1 a 2 meses.
Custo médio da sessão: R$ 600

Cosméticos

Produtos e cremes diários com a função de rejuvenescimento e de clareamento íntimo

Fontes: especialistas consultados

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