Rubens Menin e Ricardo Guimarães: a dupla de empresários que faz o Galo alçar voos maiores

Sem interesses pessoais ou financeiros, mas com muita disposição para investir no clube que amam, eles estão muito próximos de ajudar o Atlético a se tornar um dos mais estruturados times de futebol da América Latina

por André Lamounier e Carolina Daher 16/10/2017 12:49

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Cláudio Cunha e Ronaldo Dolabella/Encontro
O empresário Rubens Menin e o banqueiro Ricardo Guimarães: eles doaram o equivalente a 100 milhões de reais para o Atlético Mineiro (foto: Cláudio Cunha e Ronaldo Dolabella/Encontro)
Cena 1: Era 15 de fevereiro de 1963. Ainda de calças curtas, com 6 anos de idade, o menino Rubens saiu de casa, no Funcionários, com o irmão Sérgio. Eles pegaram um ônibus até a avenida Silviano Brandão e caminharam empolgados em direção ao estádio Independência. Com a dupla, o primo Mário. O trio estava ansioso para assistir às defesas de Marcial, primeiro goleiro do Atlético a ser convocado para a seleção brasileira. O Campeonato Mineiro havia começado em julho do ano anterior e aquele jogo, entre Atlético e Cruzeiro, definiria o campeão do torneio estadual. O Atlético levou a melhor. Foi o suficiente para consolidar de vez as cores que tomariam o coração de Rubens, que fazia sua estreia em um estádio de futebol. "Nosso dinheiro era muito pouco, não tinha isso de ter camisa do time", diz ele, que brincava de bola como zagueiro no time da rua. "Futebol era nossa grande diversão. Ir ao estádio, a maior glória para um garoto como eu."

Cena 2: Início da noite de 30 de novembro de 1983. A partida entre Atlético e Villa Nova no estádio Castor Cifuentes, em Nova Lima, definiria um dos finalistas do Campeonato Mineiro. O Galo precisava da vitória. Ricardo, um jovem estudante de 22 anos, decidiu enfrentar uma estrada horrível para finalmente chegar ao destino. Estava, contudo, na companhia de milhares de outros torcedores. Era muito mais gente que espaço disponível. Ricardo não titubeou. Subiu na marquise do estádio e ali ficou, com outros três atleticanos. Era isso - ou nada! "Eu tive de ficar meio de lado, não podia nem mexer", lembra. "Caso contrário, perdia o jogo e o lugar." Esse não foi, nem de longe, o único dia que Ricardo teve de se desdobrar por causa de futebol. Já enfrentou viagens longas e passou muitos perrengues para ver seu Galo jogar. "Valeu cada momento."

Em comum, as duas histórias têm um ponto: a paixão pelo Atlético Mineiro. Nas memórias de Rubens e de Ricardo estão vivas as lembranças de menino de quem presenciou nos estádios jogadas incríveis de seus ídolos, vitórias inesquecíveis e gols, muitos gols memoráveis. "Eu não me esqueço daquele jogo Atlético e América de Natal, no Campeonato Brasileiro de 1977, que o Galo venceu por 6 a 0", diz Rubens. "Foi o gol mais bonito do Reinaldo. Ele tirou dois caras com o corpo, depois deu um drible desconcertante no terceiro e chutou no ângulo esquerdo. A coisa mais maravilhosa." Esse gol - que ganhou até placa no Mineirão - é famoso e pode ser visto na internet. "Ver no YouTube não é a mesma coisa. Só quem viu ao vivo entende."

Ronaldo Dolabella/Encontro
Rafael Menin, copresidente da MRV Engenharia: "Não inventamos a pólvora. Pegamos o que há de melhor em todo o mundo e trouxemos para a Arena MRV" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Vestidos de forma simples e despojados de qualquer luxo e pompa, é comum encontrar Ricardo e Rubens com suas famílias em meio à arena lotada nos jogos do Atlético. Eles facilmente poderiam se passar por mais um torcedor do Galo divertindo-se com as jogadas do equatoriano Cazares e a vontade do alagoano Luan, o menino maluquinho do Atlético. Mas os dois empresários têm pouco em comum com a maioria dos torcedores que assistem às partidas despretensiosamente. No caso deles, a chamada "tamanha paixão" não se resume ao ato de torcer. Com incansável disposição para patrocinar e apoiar financeiramente o clube, eles foram além: decidiram doar parte de suas riquezas pessoais para o Atlético. Tornaram-se os maiores mecenas de que se tem notícia no futebol brasileiro. "O Atlético é uma das minhas maiores alegrias", diz Ricardo Guimarães.

Rubens Menin Teixeira de Souza, de 61 anos, é o fundador e presidente do conselho da MRV Engenharia, maior construtora da América Latina, um colosso empresarial que faturou cerca de 5 bilhões de reais em 2016. Sua empresa é exemplo mundial de foco, persistência e sucesso.

Ricardo Annes Guimarães, de 56 anos, é acionista do BMG, maior banco de empréstimos consignados do país, que registrou patrimônio líquido de 2,6 bilhões de reais no ano passado.  O BMG é reconhecido por sua enorme capacidade de inovação, que o fez desbravar o segmento de crédito consignado, que depois viria a se tornar uma das vedetes do mercado financeiro.

Ricardo e Rubens conheceram-se em 1994 por causa do tênis. Esportistas e praticantes da modalidade, rapidamente tornaram-se muito amigos. Graças a essa amizade, a história do Clube Atlético Mineiro mudaria para sempre.

Pedro Nicoli/Encontro
(foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Foi durante a gestão de Ricardo Guimarães como presidente do Atlético (de 2001 a 2006) que Rubens deixou de ser apenas torcedor para tornar-se também conselheiro do Galo. Quando assumiu a presidência, Ricardo encontrou um clube em situação dificílima, sem crédito na praça e sem dinheiro nem para a compra de material médico. Ele então criou a Associação dos Amigos do Galo. Uma entidade cujo objetivo era trazer pessoas influentes para a agremiação. "O Galo estava numa penúria danada", diz Rubens Menin. "Nós nos unimos para ver como cada um poderia ajudar." Nascia aí o embrião de um movimento de apoio ao clube que mexeu com o coração - e o bolso - dos dois empresários. Muitos dos atuais conselheiros do Atlético surgiram dessa associação, como Maurício Campos, Rodolfo Gropen e Lásaro Cândido da Cunha. "O objetivo desse grupo era apenas construir o melhor para o clube, sem qualquer interesse pessoal", afirma Ricardo.

Os tempos eram difíceis para o alvinegro. Nessa época, uma auditoria independente contratada pelo Atlético apontou que, entre 2000 e 2007, o clube teve um prejuízo operacional de 147,5 milhões de reais. Ricardo lembra que o Galo sequer conseguia pagar despesas rotineiras, como os salários dos funcionários. Mais uma vez, o banqueiro não titubeou. Assumiu, como pessoa física, grande parte da dívida e emprestou ao clube, em condições sem iguais, cerca de 100 milhões de reais. Tornou-se o maior credor do Atlético. De pronto, concedeu moratória do valor emprestado até julho de 2012. Ou seja, até aquela data, o valor da dívida ficaria congelado, sem qualquer incidência de juros e correção monetária. Um negócio, pode-se dizer, de pai para filho. "A forma que eu encontrei de ajudar naquele momento foi esta: conseguir recursos mais longos e taxas muito baixas", diz. Atualmente, são pagos 200 mil reais, mensalmente, a título de juros e correções. "É um valor que não aperta, não sangra o clube", diz o credor, Ricardo Guimarães. De fato, o valor é irrisório se considerados o faturamento do clube (de cerca de 300 milhões anuais) e o montante que foi emprestado. Já houve meses em que, por aperto do clube, o valor mensal simplesmente não foi pago. "A generosidade do Ricardo com o Atlético é surpreendente", diz o atual presidente da agremiação, Daniel Nepomuceno. "Poucas pessoas sabem, de fato, o que o Ricardo Guimarães faz pelo Galo." Além disso, pelo acordo feito com o clube, sempre que o time vendesse um atleta, 15% do valor líquido destinado ao Atlético seria usado para abater na dívida com o empresário. No entanto, nas duas maiores negociações já realizadas pelo clube nos últimos anos, com a venda de Bernard para a Ucrânia e de Lucas Prato para o São Paulo, o valor combinado não fora repassado ao empresário-credor. "Ficamos sem dinheiro", disse Daniel Nepomuceno. "Mais uma vez, o Ricardo nos atendeu." A preferência de Ricardo Guimarães sempre foi a de atuar nos bastidores. Ele jamais se deslumbrou e não gosta de aparecer. Em anos de mecenato, são raras as entrevistas que concedeu sobre o assunto.

Divulgação e Samuel Gê/Encontro
(foto: Divulgação e Samuel Gê/Encontro)
Como cartola, a gestão de Ricardo Guimarães à frente do Galo foi marcada por dois fatos. O primeiro, triste: o rebaixamento do time em 2005 para a série B. O segundo, importantíssimo, foi o conjunto de ações feitas fora das quatro linhas, em prol do clube. As finanças foram acertadas e todas as energias voltaram-se para criar e construir a Cidade do Galo, em Vespasiano, local que hoje abriga o melhor CT (Centro de Treinamento) esportivo do Brasil e um dos cinco melhores do mundo, segundo a imprensa especializada.

O espaço existia desde a década de 1980, quando um terreno de 100 mil metros quadrados fora adquirido ainda na administração de Elias Kalil, pai de Alexandre Kalil. "Elias Kalil foi um visionário", afirma Ricardo. "Quem, na década de 1980, ousaria comprar uma área naquela região?" No terreno onde Ricardo decidiu construir o CT, havia apenas um acanhado prédio. Mas, a partir de 2001, as obras ganharam vulto. Foram feitos investimentos na construção de um hotel para os atletas profissionais, além de um campo com dimensões oficiais. Em 2005, todas as divisões do futebol amador foram transferidas e alojadas nas modernas instalações, inauguradas oficialmente um ano depois. "Ter um espaço como esse era essencial para o Atlético crescer", afirma Ricardo. "Eu quis priorizar aquele dinheiro que nem tínhamos para investir no CT." As obras duraram quatro anos e, segundo Ricardo, só foi possível tocá-las graças aos recursos doados pelo grupo de atleticanos fanáticos que formava a Associação dos Amigos do Galo. "Se contássemos apenas com os recursos que o clube conseguia levantar via patrocínio, seria impossível finalizar o CT."

Em dezembro de 2004, quando Ricardo Guimarães ainda era mandatário, uma área vizinha ao CT e ainda maior do que ela - de 140 mil metros quadrados - foi colocada à venda. O terreno caía como uma luva para as necessidades do clube de expandir o CT, com a construção de novos gramados e instalações. Faltava, contudo, o óbvio: o dinheiro. Mas Ricardo Guimarães, novamente, não titubeou. Comprou, ele próprio, como pessoa física, o terreno (hoje avaliado em 25 milhões de reais) que foi integralmente doado para o Atlético. "Só nós, atleticanos, conseguimos entender essa paixão", diz ele. Atualmente, a Cidade do Galo se prepara para inaugurar mais quatro campos (no total, são oito), construídos sob a gestão de Daniel Nepomuceno. Um deles conta com uma arquibancada com capacidade para 2 mil pessoas, para atender os jogos da equipe sub-23 e da base atleticana.

Pádua de Carvalho/Encontro
O presidente Daniel Nepomuceno deixa o comando do clube em dezembro para assumir a empresa chamada Arena MRV, que coordenará as obras do estádio: "O Galo é formado por um conjunto de pessoas de bem que dedica sua vida ao Atlético" (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
Após a saída de Ricardo Guimarães, foi eleito Ziza Valadares, que, em 2008, renunciou ao cargo. Começava a era Alexandre Kalil. Com seu jeito franco, corajoso e sem papas na língua, Kalil foi logo adotado pela massa de torcedores. Bandeiras com seu rosto passaram a tremular nas arquibancadas. Na parte administrativa, chegou disposto a equilibrar as dívidas e valorizar a marca do Atlético. Com staff bem montado, reestruturou a agremiação, enxugou a folha de pagamento e passou a negociar com os patrocinadores de igual para igual. "Alexandre acabou com aquela cultura de ficar mendigando dinheiro", afirma Daniel Nepomuceno, que foi vice-presidente na gestão de Kalil. "Ele dizia que o Galo tinha de ser sustentado pela própria grandeza." Ricardo Guimarães também concorda: "Alexandre Kalil fez o Atlético mudar de patamar." Além de reorganizar a casa internamente, Kalil voltou-se para aquilo que mais alegra o torcedor: futebol. Trouxe nomes de peso para o time, como Ronaldinho Gaúcho, o goleiro Victor e Diego Tardelli. Durante seu mandato, o time conquistou vários títulos, entre eles a Libertadores, a Recopa Sul-americana e a Copa do Brasil. Kalil tornou-se o mais vitorioso de todos os presidentes que o clube já teve.

No final de 2013, o Galo disputou o Mundial Interclubes, em Marrocos. Após ser derrotado por uma equipe marroquina, o sonho de ser campeão mundial acabara para o Atlético naquele ano. "Foi uma ducha de baixo-astral", conta Rafael Menin, filho mais velho de Rubens e atual copresidente da MRV. "Decidimos reagir e mudamos nossa viagem." Com outros 15 amigos, entre os quais Marcelo Patrus e Renato Salvador, Rafael, Rubens e Ricardo seguiram para além-mar. Foram conhecer o estádio do Dragão, do Futebol Clube do Porto, em Portugal. Moderna e funcional, a arena tem capacidade para 50 mil expectadores, tendo sido palco de grandes shows, como Rolling Stones, Coldplay, One Direction, e de eventos como a Race of Champions. "Ficamos impressionados", diz Rafael. "Se uma cidade de apenas 500 mil habitantes podia ter um estádio desses, é lógico que nós também." Estava acesa a chama daquela que viria a ser a Arena MRV.

De volta ao Brasil, o grupo estava empolgadíssimo - e com sede de gol. "Depois da construção da Cidade do Galo, o passo seguinte seria, sem dúvida, a construção do estádio", disse Ricardo Guimarães. "São dois os pilares que sustentam um clube de futebol: o CT, que é a base; e o estádio, que é o futuro." Ricardo e Rubens marcaram reunião com o então presidente Alexandre Kalil. Ele escutou os planos e gostou do que ouviu. Disse: "Seria ótimo, mas isso é um devaneio!" Rubens respondeu: "toda obra começa com um devaneio. Vamos trabalhar na ideia?" Kalil deu positivo.

Denis Medeiros/Encontro
O prefeito Alexandre Kalil, que presidiu o clube de 2008 a 2014: com seu jeito franco, corajoso e sem papas na língua, ele acabou adotado pela massa de torcedores e foi decisivo na profissionalização do futebol (foto: Denis Medeiros/Encontro)
"Voltamos da viagem de Portugal convencidos de que não havia jeito de um clube sobreviver no futuro sem estádio próprio e moderno", afirma Rubens. Na manhã seguinte à conversa com Kalil, Rubens Menin recebeu uma mensagem em seu celular. Era de Kalil e dizia: "Não consegui nem dormir esta noite". O entusiasmo de Alexandre Kalil era evidente - e o sonho de ter a casa própria já tinha um trio de atacantes. O passo seguinte era contratar um bom arquiteto para desenvolver o projeto e fazer os estudos necessários. Uma condição foi imposta: o clube não poderia gastar dinheiro com projetos que não fossem aprovados pelo conselho. Havia um outro detalhe: era fundamental que tudo fosse mantido em absoluto sigilo. Rubens Menin disse que assumiria todos os custos e que ajudaria a pesquisar possíveis terrenos. Escalou o filho Rafael, meticuloso engenheiro, para liderar a fase de estudos e projetos. Rafael contratou o arquiteto Bernardo Farkasvölgyi, um dos mais renomados da capital e com larga experiência em tramitação de grandes projetos na prefeitura de BH. Num golpe de sorte, um terreno no bairro Califórnia, zona Noroeste da cidade, com topografia perfeita para a construção de uma arena, fora oferecido à MRV. Rubens e Rafael decidiram comprar a área com recursos da família Menin. Como num quebra-cabeça, as peças pareciam se encaixar à perfeição. Rafael e Bernardo debruçaram-se sobre o projeto. Fizeram inúmeras reuniões e passaram a se falar semanalmente. Visitaram arenas no Brasil e no exterior. Entre idas e vindas, foram mais de 400 revisões até que o projeto final ficasse pronto, dentro do orçamento que fora proposto: 410 milhões de reais. "Não inventamos a pólvora", disse Rafael. "Pegamos o que há de melhor em todo o mundo e trouxemos para a arena. Esta é uma vantagem de fazer depois da Copa: saber exatamente o que deu certo e o que deu errado."

De tão envolvido com o projeto, Rafael passou a dedicar noites e mais noites em pesquisas na internet sobre estádios mundo afora. Enviava tudo para o arquiteto Bernardo. "O estádio só vai existir por conta da paixão da família Menin", diz Bernardo. "Muito mais do que dinheiro, eles doaram tempo e um esforço incomum para viabilizar esse sonho." Fora o intangível, o que se sabe é que Rubens e Rafael investiram 6 milhões de reais do próprio bolso nos estudos e projetos arquitetônicos. O terreno, de 192 mil metros quadrados, avaliado em 60 milhões de reais, foi doado pelos Menin para o clube. Ao contrário do que se ouviu de maledicentes, a MRV não tem nenhum outro terreno, nem projeto próximo ao estádio. Também não será ela quem cuidará da construção. Uma nova empresa será montada para gerir a obra, que será realizada por uma construtora paulista, praticamente já contratada. "No Brasil, as pessoas não estão acostumadas com doação", afirma Rubens Menin. "Nos Estados Unidos, isso é comum. Se uma pessoa estuda em Harvard, depois ela adota um laboratório ou banca a reforma da biblioteca, por exemplo." Ele sabe do que está falando. Desde 2002, Rubens Menin tem negócios nos EUA, nas áreas de construção e imobiliária. Na decisão da família Menin, um fator foi preponderante: "Desde a gestão de Kalil, percebemos que a profissionalização no Atlético era definitiva", diz Rubens. "Ele (Kalil) é o maior dirigente esportivo de todos os tempos."

A engenharia financeira para a construção do estádio não estava, ainda, concluída. Seria necessário vender uma fatia do DiamondMall, shopping pertencente ao Atlético; conseguir um patrocínio master e ainda vender cadeiras cativas para sócios-torcedores. A negociação do shopping consumiu um ano de trabalho e a contratação de empresa especializada em negociar ativos desse porte (os serviços foram pagos pela família Menin). A melhor proposta veio da Multiplan, que já administra o centro de compras e ofereceu 250 milhões de reais por 50,1% do shopping. "Além de boa financeiramente, essa proposta trazia consigo outro grande benefício: a certeza de governança para um dos principais patrimônios do clube", diz Rafael Menin. "Afinal, o shopping será administrado pela melhor empresa do setor na América Latina." Tudo caminhava bem, mas faltava o que parecia ser o mais difícil: a aprovação no conselho do clube, condição indispensável para a continuidade do projeto. Apesar de todas as dificuldades e percalços, Rubens e Rafael não hesitaram. Continuaram a investir dinheiro do próprio bolso sem que houvesse nenhuma garantia de sucesso. Pelo contrário. Durante um bom período, era grande a crença de que os conselheiros não aprovariam a venda do shopping. Dois terços dos conselheiros tinham, afinal, de votar pelo sim. Dois novos jogadores entraram em campo para reverter o placar: Daniel Nepomuceno e José Salvador Silva, médico, conselheiro e fundador da rede Mater Dei de saúde. Antes da aprovação no conselho, era imprescindível ter garantia do patrocínio da arena e da venda das cadeiras cativas. Uma grande empresa de alimentação nacional esteve muito próxima de fechar o patrocínio, mas declinou nos últimos minutos. Sobrou para quem? A MRV assumiu o compromisso de pagar 60 milhões de reais pela cota master, que dá nome ao estádio, durante 10 anos (com possibilidade de prorrogação automática por mais cinco). Assim nasceu a Arena MRV.

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O advogado Sérgio Sette Câmara, atual vice-presidente do Conselho Deliberativo do Atlético: em dezembro, ele será eleito presidente do clube para o triênio 2018/2020 (foto: Divulgação)
Outros 100 milhões de reais deverão vir da venda das cadeiras cativas. Era preciso alguém que desse garantia a essa venda. Sobrou para quem? O banco BMG assumiu o compromisso de, se preciso, adiantar os valores de parte das cativas. Depois de muita ginástica arquitetônica e financeira, jogo de cintura e paciência (bota paciência nisso!), o projeto foi à votação no conselho do clube em 18 de setembro. O resultado final surpreendeu até os mais otimistas: 325 a favor; apenas 12 contrários. Vitória dos quase 7 milhões de torcedores atleticanos, que apoiaram o projeto maciçamente. Foi também uma vitória pessoal de Daniel Nepomuceno. Ele deixa o comando da agremiação carregando um trunfo: a absoluta união dos conselheiros do clube. "O Galo é formado por um conjunto de pessoas de bem que dedica sua vida ao Atlético."

Entre essas pessoas de bem, estão, claro, os mecenas desta história. Para os quais todos gostaríamos de perguntar: O que leva, afinal, uma pessoa a doar tanto dinheiro, além de tempo e energia, ao clube do coração?

Rubens Menin: "Pessoalmente, eu digo a meus filhos: não estamos nesta vida a passeio. Temos de deixar nossas marcas. Eu queria fazer isso por essa cidade."

Rafael Menin: "Nós construímos uma empresa séria, ética, que gera empregos e faz diferença na sociedade. Mas, como pessoas físicas, também podemos contribuir com creches, hospital e, por que não, com lazer? Por que não contribuir com o Galo, que é uma grande paixão?"

Ricardo Guimarães: "É o que se pode chamar de atleticanidade, é um estado da alma. Eu sempre quis ajudar a cuidar do clube"

Há milionários que dedicam tempo e parte de sua riqueza à aquisição de obras de arte e carros velozes. Rubens e Ricardo decidiram investir no Atlético - na forma de patrocínio ou simplesmente de doação. Entrarão na história como os mecenas que ajudaram o Atlético a construir sua casa própria. Graças a eles, muitas crianças vão sorrir, ao verem gols dos ídolos alvinegros no estádio do clube. "O vínculo formado entre uma criança e seu time dura para sempre", diz Rafael Menin, ele próprio forjado nas arquibancadas do velho Mineirão.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Rodrigo Resende, diretor de comunicação, marketing e vendas da MRV: "Muitas vezes, é por meio do patrocínio do time que o torcedor tem seu primeiro contato com a marca" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Esporte na veia

A história da MRV com o esporte começou no vôlei feminino. Em 1996, a empresa estreou estampando sua marca nas camisetas das atletas do Minas Tênis Clube. Era só o primeiro passo de uma história cheia de vitórias e que transformou a MRV na maior patrocinadora privada do esporte brasileiro. "Em marketing esportivo não existe benfeitor", diz Rubens Menin, presidente do Conselho da MRV. "É um ganha-ganha." Ele sempre foi apaixonado por esportes em geral. Compareceu  - sempre na companhia dos filhos Rafael e João Vitor - a  diversas corridas de Ayrton Senna e Nelson Piquet. Presenciaram juntos jogos emblemáticos da NBA, a liga americana de basquete. Também estiveram presentes quando Gustavo Kuerten, o Guga, ganhou por duas vezes o título do torneio de Roland-Garros, na França. "O esporte corre nas nossas veias", diz Rubens.

Isso contaminou, claro, a cultura da empresa, que passou a investir altas cifras em marketing esportivo. "Graças às redes sociais, temos hoje enorme engajamento do público através dessas ações", diz Rodrigo Resende, diretor de comunicação, marketing e vendas da MRV. "Muitas vezes é através do patrocínio de um time que o torcedor tem seu primeiro contato com a marca." Atualmente são 16 times e atletas patrocinados. O apoio vai desde o vôlei de Taubaté, passando pelo handebol de Londrina até a lutadora de MMA Kenya Miranda. Já em campo, é parceiro, além do Atlético Mineiro, do São Paulo, Flamengo, Santa Cruz e América. A relação com o Galo é antiga, a MRV é patrocinadora desde 2003 e, desde então, vai colecionando fãs e admiradores. No início deste ano, no Facebook da MRV, um torcedor deixou o seguinte recado: "Fechei a compra do meu apê só porque a MRV patrocina meu time".

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(foto: Divulgação)
Arena MRV: como será a casa própria do Galo

O barulho dos tratores no terreno de 192 mil metros quadrados, no bairro Califórnia, na região Noroeste de BH, vai soar como música para os torcedores alvinegros. A previsão é de que os trabalhos comecem no próximo ano e sejam concluídos até o final de 2020. Antes disso, o projeto tem de ser enviado à Câmara Municipal - o que deve acontecer ainda este mês - para ser apreciado pelos vereadores. Até lá, resta aos atleticanos sonharem acordados com a casa própria. O terreno, doado pela família Menin, tem localização estratégica. Próximo à Via Expressa, BR-040 e Anel Rodoviário, o público não deve enfrentar gargalos para alcançar o estádio, algo que acontece no Mineirão, na Pampulha, e no Independência, no Horto. Existe ainda a possibilidade de uso do metrô, já que a estação do Eldorado, em Contagem, fica a pouco mais de 1 km do estádio.

A fachada da Arena MRV, desenhada pelo arquiteto Bernardo FarkasVölgyi, vai homenagear a torcida dos anos 70, que esticava faixas brancas e pretas nas arquibancadas do Mineirão. No entorno do estádio, a esplanada será usada para diversificar as atrações, com a realização de eventos gastronômicos, feiras e shows, por exemplo. "É um projeto de arena que vai permitir múltiplas atividades, e não apenas partidas de futebol", diz o arquiteto Bernardo, também atleticano. Uma das principais novidades será a volta da Geral, com ingressos a preços populares.

Do ponto de vista comercial, a Arena MRV foi pensada para alimentar os cofres do clube. "Hoje,  no Mineirão ou Independência, de cada 100 reais gastos pelo  torcedor, apenas 17 reais ficam com o clube. Na nossa arena, será quase 100% de retorno", diz Daniel Nepomuceno, presidente do Atlético. A estimativa é de que a receita com a nova casa gire em torno de 4,2 milhões de reais por mês, contra despesa de cerca de 1,6 milhão de reais mensais. O empreendimento, contudo, tem potencial para muito mais. Candidatos para explorar grandes shows já despertam interesse. Segundo Daniel, ainda não é o momento para analisar propostas de exploração comercial. "Isso só vai acontecer quando estivermos na terraplanagem", diz. Daniel Nepomuceno deixará o comando do Galo em dezembro deste ano, para assumir a presidência da empresa chamada Arena MRV, que coordenará as obras. "Quero entregar o estádio pronto", afirma. Para o comando do clube será eleito o advogado e atual vice-presidente do conselho Sérgio Sette Câmara.

Quando se trata de futebol, o exemplo que mais inspirou a concepção veio da Itália, onde o também alvinegro Juventus foi campeão nacional por seis vezes consecutivas após construir o seu estádio, em 2011, que custou o equivalente a 420 milhões de reais.

O que vai ter por lá

46 bares
36 camarotes
3,6 mil lugares no espaço Vip
46 mil m2 de área da esplanada
41,8 mil lugares nas arquibancadas
2,6 mil vagas de estacionamento

(Colaboraram Daniela Costa e Rafael Campos)

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