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Capim Santo assume gastronomia do Inhotim com foco na cozinha mineira

Capitaneado pela chef Morena Leite, grupo assume as operações gastronômicas de dois restaurantes e um café no museu, além dos menus dos eventos


postado em 19/03/2026 06:30 / atualizado em 19/03/2026 08:12

Paulista de nascimento, baiana de coração e paraense de alma: chef Morena Leite lidera a criação e a curadoria culinária do Grupo Capim Santo (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
Paulista de nascimento, baiana de coração e paraense de alma: chef Morena Leite lidera a criação e a curadoria culinária do Grupo Capim Santo (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
Foi num 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, em Salvador (BA), que Morena Leite recebeu um convite inesperado: assumir as operações gastronômicas do Instituto Inhotim. Nada mais simbólico. Para a chef, comida é como uma religião. Vestida com sua armadura - uma bandana verde e seu dólmã branco, sempre -, Morena não quer guerra com ninguém. Ao contrário. Quer mesmo é espalhar muito chamego. “Nosso grupo, o Capim Santo, nasceu dentro de uma casa onde a gastronomia faz parte do cuidado, do receber. O Capim tem esse DNA, tem isso na sua veia, essa hospitalidade, essa vontade de falar de identidade, de Brasil. Acho que o visitante do Inhotim pode se sentir seguro de que vai receber um carinho, um afeto, um chamego, por meio de sabores.”
 
Fundado em 1985 pela mãe de Morena, Sandra Marquez, a partir de um pequeno restaurante em Trancoso (BA), o Grupo Capim Santo, hoje uma das principais nomes da gastronomia brasileira, passa a ser responsável, a partir deste 2026, por três espaços culinários do instituto localizado na cidade de Brumadinho: a nova Comedoria Oiticica (antes Restaurante Oiticica), além das novas versões do Restaurante Tamboril e do Café das Flores. A empresa também passa a responder pela culinária dos eventos realizados no museu.
 
A Comedoria Oiticica funciona desde o início de fevereiro como bufê que celebra a gastronomia mineira em toda a sua raiz (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
A Comedoria Oiticica funciona desde o início de fevereiro como bufê que celebra a gastronomia mineira em toda a sua raiz (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
À frente da criação e curadoria culinária do Capim Santo, a chef conta que o chamamento para a nova missão veio de Paula Azevedo, diretora presidente do Instituto Inhotim e já conhecida de Morena de outros carnavais. “Nos encontramos em um almoço na Bahia em 2025… Eu e a Paula Azevedo não nos víamos há muito tempo. A conheci quando ela era diretora do Instituto Tomie Ohtake (SP), onde temos uma unidade do Capim Santo. Quando ela me contou que estava em Inhotim e falou sobre novos desafios, um novo momento do museu e a celebração dos seus 20 anos, houve uma super conexão e uma vontade de realizarmos esse projeto juntas.”
 
Um ano depois do encontro, a desafiadora tarefa começa a dar os primeiros frutos. Inaugurada no início de fevereiro, a Comedoria Oiticica deu o pontapé inicial ao grande projeto. Em formato de bufê, o espaço tem como objetivo apresentar Minas Gerais ao público a partir de um olhar territorial para os ingredientes, modos de fazer e histórias de 12 mesorregiões do estado. Para tanto, foi feito uma espécie de mapeamento, que contou com a curadoria da jornalista e pesquisadora gastronômica mineira Carolina Daher, também colunista da Encontro.
“Faltava em Inhotim um pavilhão da comida, da comida mineira, da comida brasileira. E com a chegada da Morena e de seu Capim, isso vem a acontecer. Agora, temos um espaço que conta sobre nossa cultura alimentar”, afirma Carolina, cuja parceria com Morena vem de longa data. As duas se conheceram no tradicional Festival Fartura, quando dividiram, por um período, a curadoria do projeto. 
 
Doces mineiros servidos na Comedoria; ingredientes e características de 12 mesorregiões do estado serão contempladas no espaço (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
Doces mineiros servidos na Comedoria; ingredientes e características de 12 mesorregiões do estado serão contempladas no espaço (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
Além das características culinárias, Morena lembra que os territórios mineiros também serão abordados por meio de seus cozinheiros mais ilustres no Oiticica. “A Comedoria vai trazer chefs dessas diferentes localidades. Acreditamos que Inhotim é um grande palco e queremos expor as receitas, as histórias e, também, fazer trocas, aprender e ensinar.” O primeiro chef convidado foi Flávio Trombino, do tradicional Xapuri, em Belo Horizonte. Em março, a faixa será de Marina Leite, do restaurante Casulo, da Lapinha da Serra. Em abril, será a vez de Bruna Martins, do Birosca, Gata Gorda e Florestal, de BH.
 
A tradicionalíssima culinária das Gerais será a estrela no local, com pouco espaço para ousadias. “A Comedoria funciona como um tributo à comida mineira. É uma forma de falar dessa hospitalidade na maneira de servir, de comer, de compartilhar. Falar dessa cozinha tão farta de ingredientes. Essa foi a intenção”, conta. À mesa, o feijão tropeiro, o angu, o porco assado, a couve. “Vamos trabalhar uma comida simples, caseira, afetiva. Já o chef mineiro convidado trará a releitura de um prato da sua região e terá um pouquinho mais de liberdade de se expressar”, define.
 
Carolina Daher celebra o novo momento da gastronomia de Inhotim. “A comida é um meio de comunicação, é uma forma de as pessoas entenderem o lugar onde elas estão. Neste sentido, Inhotim ganha ainda mais relevância”, defende. “Antes seus turistas vinham de fora, passavam uns dias lá, voltavam diretamente para o aeroporto e iam embora sem uma experiência sobre esse aspecto tão importante da nossa cultura. Está sendo uma honra podermos apresentar essa riqueza. Minas Gerais é um lugar inacreditável, é um país, não é? E é muito legal a gente poder mostrar todas essas Minas, em um único lugar, para uma pessoa que tá vindo de fora.”
 
Por sua vez, o Tamboril, que será reinaugurado no final de maio, vem trazendo uma comida à la carte com pratos de diversas regiões do Brasil. “A gente vai ter uma moqueca, representando o Nordeste, um pato com tucupi representando o Norte, uma carne do Sul... A ideia é que a pessoa possa fazer uma viagem aqui dentro”. Já o Flores, que também deve reabrir na mesma época, vai ser o ponto de parada do museu para aquele cafezinho com pão de queijo, um suco, um refresco, um sanduíche ou um bolo. 
 
Carne de porco, angu, tropeiro, couve e laranja: Comedoria Oiticica será tributo à cozinha mineira (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
Carne de porco, angu, tropeiro, couve e laranja: Comedoria Oiticica será tributo à cozinha mineira (foto: Victor Schwaner/Divulgação)
A nova operação vem sendo acompanhada por um processo estruturado de capacitação liderado pelo Grupo Capim Santo. Formadas majoritariamente por profissionais de Brumadinho e região, as equipes têm passado por um trabalho contínuo de qualificação técnica, organização de processos e alinhamento de cultura. “A nossa relação com o time local foi maravilhosa, fomos muito bem-recebidos, o mineiro é muito acolhedor e estamos muito felizes. Estamos ainda nos conhecendo, na realidade, né? Tem sido um processo, eu acho que mútuo, de trocas, de aprendizado e de muita alegria”, vibra a chef.
Instigada a fazer um convite ao visitante para conhecer suas novas casas, Morena chama a uma imersão completa: “Uau... Penso que o nosso convite é um convite a se integrar. A gente olha para comida e para o ato da alimentação, não só para o ingrediente e para o prato. É a panela em que a gente vai servir, a maneira como vamos servir, o formato dos ingredientes, as cores do bufê, os uniformes. (O convite é a sentir todo) o ato de toda uma hospitalidade mineira.”

Minas são muitas
Confira os ingredientes selecionado de cada uma das 12 mesorregiões do estado
  • Noroeste: pão de queijo de Paracatu
  • Norte: cachaça de Salinas
  • Jequitinhonha: queijo cabacinha
  • Vale do Mucuri: requeijão moreno
  • Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba: carne de boi e jantinha (prato com arroz, feijão simples ou tropeiro, espetinho de carne, farofa e vinagrete)
  • Centro: surubim do Rio São Francisco
  • Grande BH: jabuticaba de Sabará
  • Zona da Mata: doce de leite de Viçosa
  • Oeste: linguiça artesanal
  • Sul e Sudeste: café
  • Vale do Rio Doce: queijo minas artesanal
  • Campo das Vertentes: fubá de milho branco de Barbacena 
 
Comedoria Oiticica por Capim Santo
Instituto Inhotim. Rua B, 20, Brumadinho
Restaurante aberto de quarta a domingo*, das 12h às 16h
Não aceita reservas
*Nos meses de janeiro e julho, aberto de terça a domingo. 

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