Você sabia que os bairros Carmo e Sion já foram os mais distantes de BH?

Expansão foi provocada pela canalização do córrego Acaba Mundo e inauguração da BR-3, atual avenida Nossa Senhora do Carmo

por Rafael Campos 24/10/2017 15:19

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Colégio Santa Dorotéia/Divulgação
Imagem aérea da região ocupada pelo bairro Sion, em 1951: à direita, o antigo Colégio Sion; ao centro a atual praça Nova York (foto: Colégio Santa Dorotéia/Divulgação)
Na primeira metade do século XX, Belo Horizonte reproduzia a vida interiorana. Era na rua Alfenas que as crianças brincavam de bente altas até tarde. Ou melhor, naquela época, 22h já era considerado madrugada. Haviam escassos automóveis na cidade. De lá para cá muita coisa mudou. Jogar bente altas é impossível na mesma via, hoje, um dos principais corredores de BH: a avenida Nossa Senhora do Carmo. A região onde cresceram os bairros Carmo e Sion já foi considerada o "fim do mundo", quando a cidade não havia se expandido muito para além da avenida do Contorno. Não é à toa que na mesma região existia - e ainda resiste - a favela Acaba Mundo, nome inclusive dado ao córrego que se passa na antiga Alfenas, hoje canalizado e em obras pela prefeitura.

Lineu Ruas, de 80 anos, lembra que brincou muito na rua Alfenas, antes de começar a trabalhar. Seu primeiro emprego foi na padaria Savassi, aos 14 anos. "Tinha até conta no banco", diz ele, que também vendia laranjas trazidas por tropeiros que vinham do município de Moeda, na região metropolitana. As frutas eram comercializadas de porta a porta na rua Montes Claros, que era "uma roça naquela época". "Cabritos corriam soltos por lá", afirma o senhor com uma memória invejável.

Violeta Andrada/Encontro
Alcina e Wanda Garcia, antigas moradoras da rua Grão Mogol: "A igreja sempre movimentou o bairro, com festas, barraquinhas e os famosos casamentos", diz Alcina (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Mas não eram apenas cabritos, vacas e cavalos que corriam por lá. A região foi a primeira casa do Nacional do Carmo, clube de futebol amador de BH. Seu Lineu, um dos fundadores da agremiação, nascida em 1946, conta que o primeiro campo foi construído na rua Boa Esperança. Era em um terreno de terra batida e improvisado, mas que contribuiu para o fortalecimento do clube que mais tarde revelaria nomes famosos, como a jogadora Marta, eleita a melhor do mundo de 2006 a 2010, e do ex-técnico de diversos times e da seleção brasileira Carlos Alberto Silva, morto este ano. Até o arcebispo metropolitano de BH, Dom Serafim Fernandes de Araújo, certa vez, conferiu ao Nacional o feliz título de "Clube Amador mais querido de Minas Gerais". É o que Lineu conta em seu livro Nacional do Carmo - Uma Paixão Imensurável. Depois da rua Boa Esperança, o campo passou para o lugar onde hoje está a praça Nova York, no Sion. Atualmente, o Nacional do Carmo continua atuando, mas no bairro Calafate, na Via Expressa. Na galeria do clube, mais de 500 troféus. "Eu era piolho do time. Estava sempre junto da equipe", diz Lineu.

Boa parte dos moradores da região tem forte ligação com a igreja Nossa Senhora do Carmo. Os carmelitas foram convidados a criar uma paróquia em BH, a pedido do Dom Cabral. Escolheram uma região pobre, ainda chamada de bairro do Mendonça. Poucos sabem que a paróquia foi inaugurada no início da década de 1940, com entrada pela rua Grão Mogol. Nos anos 1960, a igreja passou por ampla reforma e ganhou a fachada atual, virada para a avenida com o nome em homenagem à santa.

Arquivo Igreja Nossa Senhora do Carmo
Imagem da antiga rua Alfenas, atual avenida Nossa Senhora do Carmo: fiéis se aglomeram em um dos festejos promovidos pela Paróquia Nossa Senhora do Carmo (foto: Arquivo Igreja Nossa Senhora do Carmo)
Beatriz Pedras é quem cuida da biblioteca da paróquia. Sim, há um acervo com mais de 50 mil obras entre artigos, almanaques, livros e folhetos por lá. São quase 300 leitores cadastrados. "Entrei na década de 1980, como voluntária, e nunca mais saí daqui", diz Beatriz, que recorda quando Frei Inocêncio faleceu, um dos personagens importantes da história da igreja. "Foi uma grande comoção", afirma.

Dona Alcina Garcia de Araújo, de 80 anos, ministra aulas de catequese desde 1950 na paróquia. "A igreja sempre movimentou o bairro, com festas, barraquinhas e os famosos casamentos", diz dona Alcina, ao lado da irmã, Wanda, de 83. Elas lembram que a vida dos noivos não era fácil na época em que a igreja tinha as portas viradas para a Grão Mogol, sobretudo, no período das chuvas. "Eles viviam perdendo as alianças, que eram levadas pela enxurrada. Sem contar que a rua era de pedra. Mas ninguém deixou de casar por isso", diz Alcina, que frequentou bastante o Cine do Carmo, também mantido pela igreja na Grão Mogol. "Era o cine poeirento", brinca dona Wanda.

Violeta Andrada/Encontro
Lineu Ruas, um dos fundadores do Nacional do Carmo: "Eu era piolho do time. Estava sempre junto da equipe" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
A ocupação do bairro Sion se deu depois do vizinho, a partir de 1928, sendo intensamente povoado na década de 1940. Um dos símbolos do bairro é o antigo Colégio Sion, onde estudou a ex-presidente Dilma Rousseff. Em 1962, a instituição, que só recebia mulheres, foi vendida à Congregação das Irmãs de Santa Doroteia. Na década de 1970, o colégio passou pela primeira expansão e começou a aceitar rapazes.

Com a canalização do córrego Acaba Mundo e a inauguração da BR-3, rodovia BH-Rio de Janeiro, inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek, os bairros cresceram. Se antes o comércio era repleto de armazéns que vendiam de tudo e a rua Alfenas era esburacada, hoje a região é uma das mais completas da cidade e perto de tudo.

Últimas notícias

Comentários