Conheça um pouco da história do bairro Cidade Jardim, em BH

Bairro foi criado para receber famílias abastadas da cidade. Tombamento em 2013 possibilitou que a região seguisse preservada e valorizada

por Rafael Campos 22/11/2017 14:20

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Reprodução/Cláudio Cunha
Vista aérea do bairro Cidade Jardim, em 1955: no centro, o prédio em formato triangular da Faculdade de Odontologia da UFMG, vizinho da sede da fazenda do Leitão. À esquerda, o curso do córrego do Leitão, ainda aberto (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)
As ruas arborizadas e com belas residências modernistas e neocoloniais dão a sensação de se estar em um bairro diferenciado. O sentimento não é equivocado. Cidade-Jardim é, antes de tudo, um conceito urbanístico, idealizado pelo inglês Ebenezer Howard. Inspirado pela ideia, em Belo Horizonte o engenheiro Lincoln Continentino, autor do Plano de Urbanismo da Cidade, entre os anos de 1938 e 1940, propôs a criação de um bairro - na área ocupada pela Colônia Agrícola Afonso Pena - com vias largas, quarteirões compridos e privilegiado por áreas verdes.

Quando o bairro começou a ser idealizado, a capital mineira se expandia. É o que diz a arquiteta Paula Balli Cury em seu artigo "Paisagem Mental e Urbana: A Singularidade do bairro Cidade Jardim em Belo Horizonte". "No período de implantação do bairro Cidade Jardim, a cidade estava se desenvolvendo, a especulação imobiliária nas áreas internas da avenida do Contorno, correspondendo à Zona Urbana do plano de Aarão Reis, ainda era intensa."

Acervo Colégio Loyola
Obras de construção do Colégio Loyola, no fim da década de 1940: um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da região (foto: Acervo Colégio Loyola)
De acordo com o estudo, o engenheiro Lincoln Continentino se mostrava influenciado pelo colega portenho Carlos Della Paolera, à frente da Diretoria de Planejamento, Urbanização e Crescimento de Buenos Aires. No entanto, ao contrário das concepções argentinas de Cidade-Jardim, o bairro mineiro foi criado para receber famílias abastadas. Soma-se a isso a atuação de Juscelino Kubitschek, então prefeito de BH (1940 a 1945), que só tinha uma ideia na cabeça: modernizar a capital mineira. O bairro Cidade Jardim também estava na mira do prefeito.

Foi JK quem doou o terreno na avenida do Contorno, 7.919, para a construção do Colégio Loyola, inaugurado em 1949. "Essa região era muito desabitada e o colégio acabou ajudando no desenvolvimento", diz a professora de língua portuguesa Flávia Guerra Pinto Coelho Volker, que trabalha no Loyola desde 1981. A Congregação das Angélicas também recebeu da prefeitura um lote, na rua Eduardo Porto, com área de 5 mil metros quadrados. Lá, foi construído o Colégio São Paulo, inaugurado em 1953. No mesmo ano, foram abertas as portas da Faculdade de Odontologia da UFMG, na rua Conde de Linhares. Em 2000, a escola foi transferida para o Campus Pampulha e o edifício seguiu fechado. Atualmente, existe um projeto de transformá-lo em Museu Nacional de Ciências Forenses (veja quadro na página 101).

Ronaldo Dolabella/Encontro
Fícus Italiano, da espécie Ficus elástica, na esquina das ruas Josafá Belo com Sinval de Sá: exemplar é tombado pelo patrimônio municipal (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A criação oficial do bairro foi em 1948, por meio da Lei 39, de 30 de julho. No papel, constavam as definições sobre os lotes, que deveriam ter 1 mil m2 de área. Os terrenos foram projetados para receber edificações residenciais, exceto os três cedidos pela prefeitura. A Lei 39, a mesma que criou o bairro Sion, impedia ainda a divisão de lotes e prédios com mais de três pavimentos. Outra exigência era a criação de jardins em frente às edificações. A rua Conde de Linhares foi a primeira a receber residências. Um momento significativo foi a canalização e o fechamento do córrego do Leitão, na década de 1970, que permitiu a abertura da avenida Prudente de Morais. A obra intensificou a ocupação não só do Cidade Jardim, mas de outros bairros da região, como o Coração de Jesus e o Santa Lúcia, que começava a nascer no fim da avenida. Por outro lado, a canalização do curso d’água, anos depois, causaria dor de cabeça em quem trabalha ou mora na Prudente de Morais, devido às constantes enchentes durante temporais.

Mas o crescimento planejado possibilitou que o bairro se transformasse em um dos mais valorizados da cidade. E somado ao tombamento de mais de 100 edificações, em 2013, bem como a inserção do lugar em uma Área de Diretrizes Especiais (ADE), a região ficou protegida da feroz especulação imobiliária. "Quem não gostaria de morar aqui?", indaga a agente de saúde Juliane Roberta Monteiro. Ela mora no Jardim América, na região Oeste, mas frequenta diariamente o bairro por causa das filhas Helena, de 4 anos, que estuda numa creche integral na igreja Santo Inácio de Loyola, e de Silvia, de 8, aluna do Colégio São Paulo. "É uma região muito arborizada e segura. Passo mais tempo aqui do que em meu bairro."

Ronaldo Dolabella/Encontro
Juliane Roberta Monteiro com a filha Helena: "É uma região muito arborizada e segura. Passo mais tempo aqui do que em meu bairro (Jardim América)" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Ronaldo Goodston é arquiteto e mora em uma das belas casas do bairro. O imóvel foi erguido em 1956 e chama atenção de quem passa pela rua Sinval de Sá. "Aqui ainda se mantém ótima qualidade de vida. E o que é melhor, tem tudo por perto", diz ele, que reside ali desde 1982. O arquiteto ressalta que o bairro só teve a paisagem conservada graças ao trabalho do patrimônio municipal.

Além de suas bonitas residências que datam do início da ocupação do bairro, e do emblemático casarão da antiga Fazenda do Leitão - atual Museu Abílio Barreto -, o bairro preserva espécies exuberantes de árvores. É o caso do fícus italiano (Ficus elástica) localizado na esquina das ruas Sinval de Sá e Josafá Belo, também tombado pelo patrimônio. Caminhar pelo bairro também é sentir o gostinho da época em que Belo Horizonte era chamada, com toda razão, de Cidade Jardim.

Futuro museu da investigação

Ronaldo Dolabella/Encontro
Prédio que abrigou a Faculdade de Odontologia da UFMG, entre 1953 e 2000: atualmente pertence à Polícia Federal e deve se transformar em Museu Nacional das Ciências Forenses (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O prédio triangular que abrigou a Faculdade de Odontologia da UFMG de 1953 a 2000 pertence, há quatro anos, à Polícia Federal. Cedido à instituição para abrigar o Museu Nacional das Ciências Forenses, ele pode ser o primeiro da América Latina dedicado a esse fim. De acordo com o perito criminal federal Gyovany Gomes, o projeto arquitetônico do novo museu deve ficar pronto no primeiro semestre de 2018. Ele será submetido ao Conselho de Patrimônio Municipal - por se tratar de imóvel tombado pelo patrimônio - e à Secretaria de Regulação Urbana da Prefeitura de Belo Horizonte. Quem assina o projeto é o arquiteto Flávio Grillo, responsável por outros trabalhos significativos na cidade, entre eles o Centro Cultural Banco do Brasil, na Praça da Liberdade.

Segundo Gyovany, um dos responsáveis pela ideia, o plano museológico, que também está em andamento, indicará os custos para criar o centro cultural. "Será um espaço para especialistas e leigos conhecerem mais sobre a ciência do desvendamento de crimes", diz. A perspectiva do museu não foi divulgada, mas o perito revelou que o prédio deve ganhar cobertura especial e haverá paredes de vidro, para integrar o lugar ao ilustre vizinho, o Museu Abílio Barreto.

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