Nos primeiros anos de BH, bairro Serra era repleto de chácaras

Planejado pelo engenheiro Aarão Reis, chefe da Comissão Construtora da Nova Capital, a região recebeu propriedades rurais e algumas delas ajudaram a abastecer de alimentos a capital mineira

por Rafael Campos 15/12/2017 14:47

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Acervo do Museu Histórico Abílio Barreto/Fundação Municipal de Cultura
Registro de 1898 da rua Chumbo, atual Estevão Pinto, na Serra: a via recebeu as primeiras chácaras da região (foto: Acervo do Museu Histórico Abílio Barreto/Fundação Municipal de Cultura)
Nos primeiros anos da recém-criada Belo Horizonte, o que se via na região do bairro Serra eram grandes chácaras. Isso não foi por acaso. Era o planejado pelo engenheiro Aarão Reis, chefe da Comissão Construtora da Nova Capital. A área era pertencente à zona suburbana de BH, já que se localizava fora dos limites da avenida do Contorno. Durante alguns anos eram das chácaras da Serra que partiam produtos de hortifrúti para abastecer a cidade. As primeiras chácaras foram construídas na rua do Chumbo, atual Estevão Pinto. Logo em seguida, foi a vez de a rua do Ouro receber moradias com imensos quintais. Por isso que a região foi desenhada bem diferente de outros bairros de BH, ou seja, com terrenos amplos, grandes quarteirões e ruas estreitas.

Muitas das chácaras chegavam a ficar quase encobertas pela mata nativa, formada por mangueiras e bambuzais. É o que conta Nereide Beirão na obra Serra, da série BH a Cidade de Cada um. "Os primeiros lotes foram vendidos em leilão em 1896, 15 meses antes da inauguração da cidade, dia 12 de dezembro de 1897", escreve. Ainda de acordo com o livro, algumas figuras públicas importantes da época e que participaram da construção de BH decidiram viver ali, como o engenheiro Bernardo Joaquim de Figueiredo, responsável pelo projeto de arborização da cidade, e o primeiro prefeito da capital mineira, Adalberto Ferraz.

Acervo José Goes/Reprodução João Carlos Martins
Avenida Afonso Pena, acima da avenida do Contorno, com o bairro Serra à esquerda: na década de 1950, já havia muitas casas, além de árvores, remanescentes das chácaras (foto: Acervo José Goes/Reprodução João Carlos Martins)
Além da mata nativa, água era abundante. Escorria por ali o córrego Serra, daí o nome do bairro. Além disso, havia muitas nascentes, por isso não eram raras as pontes construídas para não atrapalhar os cursos d’água. O bonde era o sistema de transporte público da época. As duas linhas que faziam o trajeto do centro à Serra foram inauguradas em 1905. O transporte sobre trilhos subia a avenida Afonso Pena, cruzava a avenida Paraúna, atual Getúlio Vargas, e pegava, à esquerda, a Cláudio Manoel. O desembarque era na rua do Chumbo.

Hoje, não existem mais chácaras, córregos a céu aberto ou bondes no bairro. Uma característica, contudo, se mantém desde os tempos de Aarão Reis: ruas com nomes de metais. Além da mais famosa, a rua do Ouro, há vias nomeadas de Níquel e Alumínio. Com o passar do tempo, outras seriam renomeadas como forma de homenagear moradores tradicionais, a exemplo de Bernardo de Figueiredo, Dona Marianinha, Dona Salvadora, Dona Cecília e Manoel Gomes Pereira. A rua do Chumbo virou "Estevão Pinto" em 1946, nome do ex-secretário de interior e educação do estado e professor da Faculdade de Direito, morto naquele ano. Mais tarde, outra rua voltaria a ser batizada de "Chumbo", desta vez, bem mais curta e de apenas um quarteirão. As vias Estevão Pinto e Ouro tornaram-se as principais do bairro. Na rua do Ouro, você sobe, sentido bairro, na Estevão, você desce, sentido centro. O Colégio Sagrado Coração de Maria foi inaugurado em 1930. Na época, a instituição era chamada de Colégio Sacré Couer de Marie, devido às suas raízes francesas. "Nosso colégio já faz parte da vida e da história deste bairro", diz Adriana Fátima Pereira, de 49 anos, uma das funcionárias mais antigas da instituição que até os anos 1970 recebia apenas meninas.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Adriana Fatima Pereira, uma das funcionárias mais antigas do Colégio Sagrado Coração de Maria: "Nosso colégio faz parte da vida e da história deste bairro" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A partir de 1950, a Serra já tinha outra cara, que em nada lembrava a aura rural ou bucólica de antes. Além das chácaras já em menor número, as residências, com quintais mais acanhados, já tomavam conta. Foi nessa época também que um conjunto de vilas começou a se destacar. Moradias simples foram construídas nos morros da Serra do Curral. Com o tempo, o lugar ficaria conhecido como Aglomerado da Serra, hoje, formado por seis vilas (Marçola, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Conceição, Novo São Lucas e Santana do Cafezal). Trata-se de um dos maiores aglomerados do país, com mais de 38 mil moradores, segundo Censo do IBGE de 2010. De acordo com a coleção Histórias de Bairros de Belo Horizonte, os primeiros moradores do que viria a ser o Aglomerado da Serra saíram do centro, onde moravam de forma improvisada. Famílias que vieram do interior do estado para tentar a sorte na nova capital também ajudaram a engrossar a população do lugar.

Mas, para muitos, o bairro também representava diversão. E bota diversão nisso. Além dos clubes Olympico (1940) e Minas II (1980), que atraíam tradicionais famílias, outra opção fazia a alegria de muita gente. Eram as Olimpíadas da Rua Amapá, disputadas todos os anos em agosto. O engenheiro Júlio Grilo, de 65 anos, foi um dos coordenadores do evento. De acordo com ele, a brincadeira atraía pessoas de vários bairros. Entre as modalidades tinha corrida, salto e até arremesso de ovo. "Não tinha premiação. Era pura farra", lembra Júlio. As gincanas começaram em 1970, com cerca de 200 participantes. No ano seguinte, já eram mais de mil, segundo Grilo. "Já fechamos a avenida Afonso Pena para os jogos. Tínhamos apoio da prefeitura e tudo mais", afirma o engenheiro, que na época morava na rua Herval. Além das gincanas, as festas agitavam a juventude da época. Eram as famosas "Horas Dançantes" nos fins de semana.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Colégio Sagrado Coração de Maria (antigo Colégio Sacré Couer de Marie), na rua Estevão Pinto, inaugurado em 1930: até a década de 1970, instituição só recebia meninas (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Alice Coelho de Assis, de 63 anos, também não perdia uma só edição das olimpíadas e das festas no bairro. "Os rapazes nos tratavam como irmãs. Eles nos protegiam", diz Alice, sobre o clima de descontração e de amizade. "Até hoje, quando encontramos alguém da turma, é uma grande festa", afirma. Alice, hoje proprietária de um restaurante no Lourdes, diz que sente muita saudade daquela época. "Era aqui que nos reuníamos todas as tardes", diz ela, olhando para a calçada da rua Amapá, próxima à Monte Sião.

Esse clima de outrora está sintetizado na música Rua Ramalhete (também uma das vias do bairro), do compositor Tavito: "De uma rua e seus ramalhetes/do amor anotado em bilhetes/daquelas tardes". Na mesma canção, a lembrança do Colégio Sagrado Coração de Maria, na rua Estevão Pinto. "No muro do Sacré-Coeur/ de uniforme e olhar de rapina/ Nossos bailes no clube da esquina/ Quanta Saudade!" É, muita saudade!

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