Amyr Klink fala de suas experiências no mar

Em entrevista exclusiva, o navegador, que já comandou mais de 40 expedições para a Antártica, conta sobre a vida dentro de um barco. Referência em consumo sustentável, ele considera que o Brasil usa sua água com irresponsabilidade

por Marinella Castro 02/01/2018 13:26

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Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Há 32 anos, o navegador Amyr Klink atravessou a remo o Atlântico Sul. Até hoje ele é o único velejador no mundo a completar a travessia. Depois de 100 dias de sua partida da Namíbia, na África, ele chegou ao Nordeste brasileiro 20 quilos mais magro, bem disposto, bem alimentado e hidratado. Consumiu inacreditáveis 2,7 litros de água por dia. Por isso mesmo, ele se tornou uma das maiores referências no país em consumo consciente de água e diz que o gasto brasileiro é exorbitante (200 litros per capita por dia). Autor de livros como Cem Dias entre Céu e Mar e Mar sem Fim, o navegador já completou uma volta solitária ao mundo e comandou mais de 40 expedições para a Antártica. Ele também montou um estaleiro onde construiu o Paratii 2, que é considerado o mais moderno veleiro do Brasil. Nesta entrevista a Encontro, Amyr Klink fala sobre  coragem, medo e conta um pouco sobre a surpreendente e agitada rotina durante cinco meses no inverno da Antártica. "Não há tempo livre quando o mar congela e se está em um lugar isolado geograficamente, quando você é o seu próprio provedor." Filho de pai libanês e mãe sueca, Amyr Klink começou a frequentar Paraty (RJ) ainda muito pequeno e lá aprendeu a remar, habilidade que desenvolveria mais tarde. Com a velejadora e fotógrafa Marina Klink, com quem é casado, ele tem três filhas, Tamara, Laura e Marina Helena, que também participam de algumas expedições ao continente gelado. "Costumávamos deixar as crianças em uma ilha sem grandes perigos, com uma caixa de comida. Quando voltávamos, elas estavam lá, felizes, tinham feito os seus igluzinhos, de dois ou três cômodos. A melhor forma de aprender é fazendo." Em BH, o navegador participou da abertura da exposição de fotografias Linha D’Água – Viagens Oceânicas de Amyr Klink e suas Lições sobre a Água, no Centro de Referência da Juventude, no centro.

Quem é: Amyr Klink, 62 anos
Origem: São Paulo
Formação: Formado em economia pela Universidade de São Paulo (USP) %u2028e pós-graduado em administração %u2028de empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
Carreira: Foi o primeiro e único velejador a completar a travessia do Atlântico Sul em um barco a remo. Há 32 anos, ele saiu da Namíbia, na África, e chegou a Salvador, no Nordeste, após 100 dias. Já realizou 42 expedições à Antártica e sozinho completou também uma volta ao mundo a bordo do veleiro Paratii. É sócio-fundador do Museu Nacional do Mar, em São Francisco do Sul (SC). Escreveu cinco livros, entre eles Cem Dias entre Céu e Mar e Mar sem Fim.

Ao completar a travessia do Atlântico Sul, você havia consumido apenas 2,7 litros de água por dia. No Brasil, gastamos muito. Essa cultura pode mudar?

O Brasil consome quase 200 litros de água per capita por dia, um dos índices mais altos do mundo. É muita coisa (a Organização Mundial da Saúde sugere de 50 a 100 litros/dia por habitante). Por que temos um consumo tão irresponsável? Porque temos fartura, porque é barato. Eu não tenho uma visão muito paternalista nesse sentido. A água deveria ser mais cara. Vá a Israel ver quanto custa. Veja o exemplo de Cabo Verde, um país pobre, que precisa dessalinizar toda a sua água. Alguns países asiáticos, como a Índia, estão em situação muito mais complexa que o Brasil, porque grande parte de sua fonte de água tem origem em geleiras que estão produzindo menos e a situação a médio e longo prazo pode ser dramática. Existe uma consciência para tratar melhor esses recursos, mas aqui no Brasil ainda não estamos muito preocupados com isso, o que é uma pena. As crises hídricas foram importantes para pensarmos no problema. Mas, quando a situação melhora um pouquinho, já esquecemos.

A escassez da água é um risco para o Brasil?
Claro. Temos no Brasil um alto índice de perda, de desperdício. Mais de um terço de toda a água tratada é perdida no transporte até o consumidor. Outro ponto: não temos processos inteligentes, adotados em conjunto, para saneamento de construções isoladas.  Há pouco tempo, o Japão tinha esgoto a céu aberto. O que foi feito? O governo fez um esforço taxando menos, os bancos cobraram menos juros para financiar os equipamentos, os fabricantes reduziram a margem de lucro e os consumidores de água se comprometeram a comprar sistemas de tratamento. Hoje, o Brasil fabrica o melhor sistema de tratamento de efluente doméstico do mundo, que é o sistema Mizumo, mas os condomínios ainda lançam água direto nos rios e nas galerias.

A travessia a remo do Atlântico Sul completa 32 anos. Nesse período, você fez várias outras viagens, como uma volta solitária ao mundo e mais de 40 expedições à Antártica. Qual a diferença entre o Amyr de hoje e o da primeira viagem?
Eu aprendi muito, cometi muitos erros, acumulei conhecimento. Hoje, estou vivendo um processo muito interessante. Estou apostando com muita convicção no mundo do compartilhamento, e essa é uma grande mudança. Desde minha primeira viagem eu fui acumulando coisas, empresas, imóveis. Coisas que ninguém precisaria ter, que trazem despesas e dor de cabeça. Hoje eu não quero mais ter nada, ser dono de nada.

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Temos mania de possuir bens porque vivemos em uma economia de sobrevivência, na qual tínhamos de guardar até linha telefônica" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Nem de um barco?
Nada. Eu vou ser usuário do meu barco, eu alugo meu barco, mas eu não quero ficar cuidando dele. Eu não quero ser dono da minha casa, vou vender minha casa e alugá-la de volta. Eu não quero ter fazenda, helicóptero, carro, avião, nada. Nós somos donos das experiências que adquirimos dentro da nossa casa, do nosso barco. E esta é uma propriedade autêntica: a experiência que construímos.

Acredita mesmo que esse seu pensamento vai ganhar força no futuro?
Claro. Hoje, nas grandes metrópoles, não faz mais sentido gastar 2 mil reais por mês para manter um carro na garagem. Dá para alugar um HB20 por 1.750 reais. E trocar de cor toda semana se quiser. Eu tenho um primo sueco que foi ministro da Economia da Suécia e não tem nada. Hoje eu sou rico, tenho tempo para viajar e tudo que eu preciso compro em benefícios. Nós temos mania de possuir bens porque vivemos em uma economia de sobrevivência, na qual tínhamos de guardar até linha telefônica...

Com esse novo pensamento sobre a vida, você se considera uma pessoa menos ansiosa?

Ansioso eu não deixei de ser, mas estou ficando menos à medida que vou me desvencilhando de âncoras que nos arrastam pela vida. Minha família também percebeu isso. Minhas filhas dizem "papai, não queremos ter nada, nós queremos poder viajar mais". Para elas, as viagens foram importantes. O que elas sabem é uma propriedade eterna.

E o que é coragem? É ir para Antártica sozinho? E o medo?

Ir para a Antártica é simples. Coragem é ter um negócio na rua e estar sujeito a tomar um tiro a cada cinco minutos. É ir trabalhar no escuro. O mundo tem situações muito injustas. Essa matança que vivemos hoje, por exemplo, é pior que uma guerra civil. Medo eu tive quando levei crianças de terceiros, que confiaram em nós, para a Antártica. Levar os filhos dos outros me fez pensar em responsabilidade. Senti muito medo. Mas as crianças se viram bem. Costumávamos deixar a garotada em uma ilha sem grandes perigos com uma caixa de comida. Quando voltávamos, elas estavam lá, felizes, tinham feito os seus igluzinhos, de dois ou três cômodos.

E a solidão?
Associamos solidão ao fato de estarmos longe ou perto das pessoas, o que está errado. Hoje, as pessoas estão juntas, mas cada uma no seu aparelho, sem se falar. Essa hiperconectividade é uma forma de segregação. Ela estimula uma vida de likes que não é autêntica. Autêntico é um abraço, um aperto de mão.

E os seus cinco meses na Antártica? Como foi a experiência de ficar isolado?  Sentiu solidão, o tempo não demorou demais a passar?
No mar, não há tempo para a solidão. Os cinco meses, que antes da viagem pareciam uma eternidade, passaram de repente, como um fim de semana. Eu descobri que não se tem tempo livre quando o mar congela e se está em um lugar isolado geograficamente, quando você é o seu próprio provedor. Na Antártica descobri que nunca havia ficado sozinho de verdade. Eu me dei conta de que, em Paraty, mesmo quando morava sozinho, chegava em casa e minha cama estava arrumada, minha roupa dobrada. Todas as vezes que abri uma torneira tinha água. Nunca pensei como era complicado fazer água. Para fazer cinco litros de água, são necessários 25 litros de neve, que levam três horas para derreter. Um amigo me alertou sobre o risco de depressão, mas o fato é que, com a rotina, a primavera chegou mais rápido do que eu esperava.

Apesar do planejamento, cometeu erros em sua rotina?
Na primeira vez em que fui lavar uma camisa, coloquei sabão demais. Para terminar o trabalho, tive de fazer mais cinco litros de água. Para isso foram mais três horas, mais 25 litros de neve. Quando eu acabei de fazer a água, minha camisa tinha congelado com o sabão. Eu fiquei com raiva, chutei a camisa e a joguei na parede. A manga fez crac e quebrou. Pensei: "Minha vida está um inferno, eu não tenho tempo para mais nada, para esquiar, para escalar. Tudo que eu programei fazer não está dando tempo. Quero uma diarista para me ajudar!".

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Ir para a Antártica é simples. Coragem é ter um negócio na rua e estar sujeito a tomar um tiro a cada cinco minutos.. É ir trabalhar no escuro" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
E não dava para se livrar um pouco dessas tarefas diárias?
Um dia resolvi fazer água para 10 dias, para depois ter tempo livre, dormir 15 horas seguidas e descansar. Depois de 18 horas de trabalho separando neve, eu estava exausto. Fui dormir. Quando acordei, fui pegar minha água e ela estava congelada. Percebi que nunca nos livramos de algumas tarefas. Elas sempre começam de novo.

Qual seu novo projeto de navegação?
Planejamos ir com o Paratii 2 do Nordeste do Brasil até a China, passando pelo Ártico. O mais difícil não é a viagem, o planejamento, é a burocracia.

Você está à frente também de um estaleiro, onde constrói os seus próprios barcos e de clientes...
Todos os nossos projetos entregues estão navegando. Temos uma equipe que se orgulha do que faz, porque faz muito benfeito, da melhor forma. Talvez seja isto que falte ao Brasil, orgulhar-se do que faz. E fazer benfeito não é fazer com luxo ou sofisticação, é fazer com qualidade, simples, dentro do orçamento, dentro do prazo. Começamos também um trabalho interessante de compartilhamento, primeiro de problemas, depois de estaleiro e de barcos.

Falando em colaboração, quando fez sua volta ao mundo, foi surpreendido com a ajuda decisiva de sua mulher, que é fotógrafa...
Na época, eu não havia comprado uma análise sinótica (análise e previsão do tempo de sistemas meteorológicos de grande escala, como depressões, ciclones), que se mostrou fundamental para minha viagem. Mas a Marina [Klink] resolveu pagar pelo serviço. Na época, ela vendeu nossa casa em São Paulo, comprou um serviço americano e a 14 mil quilômetros me dava todas as coordenadas. Andando mais devagar, ficando mais tempo dentro das tempestades, consegui meu objetivo. Aprendi que, quanto mais especializados somos em uma  atividade, mais devemos ouvir quem está de fora.

Notícias como o derretimento das geleiras nos assustam. Sobre as transformações que a natureza vem sofrendo, o que mais o preocupa?
O que me preocupa hoje não é a poluição visível, mas os processos não visíveis, como a acidez dos oceanos e a contaminação de rios em países do Terceiro Mundo e da América Latina. Também nos países africanos e naqueles onde há grandes conflitos e não dá para preservar recursos de maneira inteligente. Temos muitas situações em que a questão ambiental ainda está em segundo plano em função de problemas graves, a exemplo dos conflitos no Oriente e a superpopulação em países como a Indonésia. No Brasil, temos uma competência inédita no mundo para destruir bacias hidrográficas, poluir e contaminar, sendo que ao mesmo tempo temos a legislação ambiental mais restritiva do mundo. Alguma coisa está muito errada aqui. Nós não conseguimos deixar de destruir. Existe também uma questão cultural, de tratar com respeito os insumos naturais, como a terra que usamos para plantar. Nós mostramos que sabemos usar, sabemos aumentar a produtividade, mas não sabemos cuidar. Temos de aprender a cuidar.

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