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Estado de Minas MINEIROS DO ANO 2017 | RAFAELA SALGADO FERREIRA

Atrás da grande descoberta

Professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, ela foi premiada na 12ª edição do Programa para Mulheres na Ciência


postado em 03/01/2018 14:43 / atualizado em 03/01/2018 15:52

Rafaela Salgado Ferreita sempre gostou de estudar. Quando ainda era aluna do ensino médio no Colégio Técnico (Coltec) da UFMG, foi convidada para um programa de vocação científica na Fundação René Rachou/Fiocruz. A oportunidade inesperada que surgiu no ensino médio foi decisiva para seu futuro. Ali mesmo ela tomou uma decisão: seria a primeira cientista de sua família. "Aos 15 anos, eu me apaixonei pela pesquisa", lembra a jovem professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, uma das sete cientistas brasileiras premiadas na 12ª edição do Programa para Mulheres na Ciência.

Sem medo de desafios, na faculdade de farmácia da UFMG, Rafaela fez, de novo, uma escolha importante: iria se dedicar a pesquisas para o desenvolvimento de fármacos, um segmento de importância crucial para a sociedade, mas ao mesmo tempo muito complexo. Geralmente leva-se de 10 a 15 anos, da descoberta de uma molécula até um medicamento chegar ao mercado, além de milhões de dólares em investimentos. Os desafios do mundo da pesquisa nunca a desanimaram. Depois da formatura na UFMG, ela foi direto para um doutorado de cinco anos na Universidade da Califórnia e na sequência para um pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), centros onde desenvolveu e aprofundou sua pesquisa, com foco em fármacos para doenças negligenciadas. O nome é referência à quantidade de recursos que essas enfermidades recebem, ou melhor, não recebem para pesquisa. Por acometerem população de menor renda em países pobres, geralmente trata-se de um mercado menos lucrativo para a indústria. "Se desanimarmos diante das dificuldades, nunca chegaremos a uma descoberta", diz Rafaela. "Na pesquisa é importante ser persistente e trabalhar junto, ninguém faz ciência sozinho."

Por sua pesquisa no desenvolvimento de novos medicamentos para doenças como Chagas e a infecção pelo zika vírus, Rafaela levou o prêmio na categoria Química. "Utilizamos técnicas computacionais para desenvolver hipóteses de moléculas que poderiam se tornar fármacos." O Programa para Mulheres na Ciência foi criado há 20 anos e é realizado há 12 no Brasil. É uma iniciativa da multinacional de cosméticos L’Oréal em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Além de valorizar a pesquisa, um dos objetivos é incentivar a presença de mulheres no setor. No Brasil, a participação feminina chega a 50%, mas no mundo a média é desigual: 70% dos cientistas são do sexo masculino. "Percebo que no Brasil a participação de mulheres aumentou nos últimos 30 anos, mas ainda há desigualdade na progressão da carreira. Os pesquisadores com maior remuneração ainda são homens", afirma. O prêmio chegou em ótima hora. "Estamos em um período de cortes de recursos para a ciência e educação, serão 50 mil reais para serem investidos durante um ano."

Quando não está na universidade, Rafaela gosta de aproveitar o sol nas trilhas da Serra do Cipó. Mas suas aventuras no paraíso ecológico de Minas ficarão mais raras. Ela está de malas prontas para a cidade francesa de Montpellier, onde fará um novo pós-doutorado que poderá contribuir para a pesquisa de seu grupo. "Meu grande desejo seria participar do desenvolvimento de um fármaco e ver que a pesquisa desenvolvida por meu grupo contribuiu  de alguma forma para colocar um medicamento no mercado."

  • Rafaela Salgado Ferreira, 34 anos
  • Nasceu em Belo Horizonte
  • Casada
  • Professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e doutora pela Universidade da Califórnia

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