Bela Gil diz que não faz seus filhos reféns da sua ideologia

Em entrevista exclusiva à Encontro, a chef de cozinha e apresentadora fala sobre seu jeito de ser mãe, como lida com críticas e como viver da maneira mais sustentável possível

por Marina Dias 07/05/2018 16:28

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Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Churrasco de melancia, desodorante caseiro, cúrcuma para escovar os dentes. As escolhas de vida alternativas da baiana Bela Gil, apresentadora do programa de culinária Bela Cozinha, rodaram a internet e já viraram sua marca registrada. Suas substituições ousadas para deixar receitas tradicionais mais nutritivas e naturais viraram até meme. Mãe de Flor, de 9 anos, e Nino, de 2, não é apenas na cozinha ou nos seus próprios hábitos que ela procura seguir seus ideais e uma linha mais natural. Também na maternidade ela tem feito escolhas pouco comuns, como o uso da fralda de pano e a oferta de alimentação vegetariana aos pequenos. A diferença de sete anos entre os filhos trouxe mudanças à maternidade de Bela, como o tipo de parto (hospitalar, no caso da Flor, e domiciliar, no caso do Nino) e a configuração na hora de dormir (no seu bercinho, para a Flor, e na cama com os pais, para o Nino). Ela compartilha tudo isso - erros, acertos, escolhas que manteve, práticas que mudou - no mais recente livro, Bela Maternidade, da editora Sextante. No lançamento do título em BH, em abril, Bela conversou com Encontro sobre sua forma de maternagem, o que pensa das críticas que recebe e as dificuldades por que passam as mães, sendo elas tradicionais ou alternativas.

  • Quem é: Bela Gil, 30 anos

  • Origem: Salvador, Bahia

  • Formação: Fez faculdade de nutrição e ciência dos alimentos na Hunter College e formou-se chef pelo Natural Gourmet Institute, ambos em Nova York (EUA)

  • Carreira: É chef de cozinha natural e apresentadora do programa Bela Cozinha, no canal GNT. Ministra aulas de culinária e palestras por todo o país e é autora dos livros Bela Cozinha, Bela Cozinha 2, Bela Cozinha: Ingredientes do Brasil e Bela Maternidade

ENCONTRO - A merenda supersaudável da Flor foi muito comentada na internet. Qual foi o impacto disso na vida da família?
BELA GIL - A repercussão maior foi comigo, não com a Flor. Foi no meu no Instagram, e nem tudo que aparece lá ela fica sabendo. Mas acho que teve um impacto forte no que a sociedade entende como comida de criança. Foi uma forma de as pessoas repensarem o que é comida infantil, pensarem que as crianças podem comer comida saudável, baseada em legumes, verduras, frutas, cereais, e não necessariamente biscoito de pacotinho. Nesse sentido, teve uma repercussão positiva. Sempre digo que a Flor come de tudo e a gente conversa muito sobre alimentação. Em casa, a alimentação é mais restrita. Não entra animal, temos uma dieta basicamente vegetariana. Também não entra açúcar. Se ela quer comer biscoito, a gente faz. Mas quando ela vai a festas, come bolo, eu não a privo disso. O importante é ela saber que são ocasiões especiais, e é isso que eu acho importante. A lancheira deve ser saudável porque é rotina alimentar, não exceção.

É verdade que sua filha nunca provou refrigerante? Como conseguiu isso?
É verdade. Nós a fizemos entender que refrigerante não é um alimento para a idade dela, não é algo que traz benefícios para sua vida. A Flor entende o refrigerante como uma "besteira". Ela come de tudo, vai do brigadeiro ao suco verde, gosta muito de comer, explorar sabores, não recusa nada. Mas o refrigerante, nós colocamos num lugar diferente. Assim como bebida alcoólica, que a criança entende que não é para ela, o refri ela também entende que não é. Até porque o nosso círculo próximo de amigos e familiares não toma. O primo dela, que é um pouco mais velho (13 anos), também não toma, porque não gosta. E ele é seu ídolo, ela faz tudo que ele faz. Se a criança tiver exemplos de outras crianças - porque adulto, só, não funciona -, vai se sentir mais confortável e feliz de não o fazer.

E o que seriam outros itens que ela considera 'besteiras'?
Bala, pirulito, nada disso ela come. Acho que pirulito ela só provou uma vez, quando a madrinha a levou ao médico, porque eu estava viajando, e deu um pirulito a ela depois. Acho que foi a única vez que ela experimentou. Mas aí são eventos tão pontuais… E a bala foi feita para isso, a besteira foi feita para ocasiões raras, para exceções. Jamais vou oferecer, mas, se acontecer, tudo bem. Temos de entender que, uma vez que o filho não está conosco, precisamos ser muito mais flexíveis, senão viramos aquelas mães "neuróticas".

Anna Fischer/Divulgação
"Acho que meu exemplo, para quem se interessa pela minha forma de maternar, pode servir de inspiração" (foto: Anna Fischer/Divulgação)
Outro acontecimento polêmico foi você ter comido a placenta após o parto do Nino. Como foi essa decisão?
O fato de ter tido o Nino em casa ajudou muito. É uma prática comum em partos domiciliares, até porque, no hospital, você não sabe necessariamente o que vão fazer com a placenta. Em muitos países, queimam, podem estudá-la ou até vender para a indústria de cosméticos, que faz com ela cremes ricos em antioxidantes que rejuvenescem a pele. Eu decidi comer porque sei que ela é rica em nutrientes, antioxidantes, vitaminas e minerais que poderiam me beneficiar no puerpério, para regular os hormônios de maneira mais eficaz. E funcionou muito bem para mim, gostei muito.

De que forma mães que a admiram podem se aproximar da sua postura na maternidade?

Acho que o meu exemplo, para quem se interessa pela minha forma de maternar, pode servir de inspiração. Acho inspirações importantes, mas ninguém é igual a ninguém. Você não tem de ser aquela pessoa na qual se inspira. Pode se inspirar para ser uma pessoa melhor. Pode ver, dentro do que ela faz, que exemplos fazem bem; ver o que aquela pessoa acrescenta, de que forma abre seus olhos. E aí você vê como implementar isso na sua rotina, na sua vida. Você adapta à sua realidade.

Acha que para ter essa forma de maternagem é preciso rede de apoio muito grande?

Não sei quão grande, mas sim, é preciso ter uma rede. E eu tenho uma bem grande, porque tenho uma família grande. A Flor e o Nino têm muitos primos, muitos tios, têm os avós de ambos os lados. E é importantíssimo, porque acho muito difícil criar uma criança sozinha. Agradeço todo dia a meu marido por estar comigo nisso. Imagino como deve ser para uma pessoa solteira, viúva, que more longe de família, ou de pessoas que podem se tornar família. Porque quando a Flor nasceu eu morava em Nova York, longe da família, mas eu tinha uma rede de amigos que eram praticamente familiares. Construir essa comunidade é muito bom. Esses grupos de mães, de pais, de pessoas que estão na mesma situação e podem se ajudar é maravilhoso. E não só para ajudar com seu filho, quando você precisar que alguém fique com ele, mas para mostrar à criança que a realidade vai além da casa dela.

Essa maneira sustentável com que você leva a vida dá muito trabalho?

Hoje eu já não enxergo como um trabalho a mais. Penso duas vezes quando a gente fala que é mais trabalhoso. Talvez no começo, antes de eu realmente entender o porquê das práticas, como o uso da fralda de pano, por exemplo. Quando não temos conhecimento, informação suficiente para entender que aquilo é o melhor caminho para nós, para o meio ambiente, para a sociedade, acabamos achando muito trabalhoso. Existem prioridades. Eu acato essas tarefas, essas alternativas ao sistema moderno comum, porque acredito que é uma forma de viver melhor nesse mundo. Se eu quero viver num mundo melhor, tenho de fazer minha parte. É minha contribuição para o mundo que eu espero. Pode haver pessoas que não tenham o investimento inicial para comprar fraldas de pano, por exemplo (mesmo sabendo que vão gastar mais nas descartáveis, mas de maneira "parcelada"), então podem querer usar, mas não conseguem por questões financeiras. Eu tenho essa condição de comprar, de inserir isso na rotina de casa. E para mim é uma prioridade.

E como gerenciar para que o trabalho "extra" não recaia sobre a mulher?

A questão que você tocou é de quando está implícito que esse trabalho será da mulher. Isso tem de ser conversado. Eu e meu marido desde sempre temos as tarefas bem divididas. É preciso ter um equilíbrio e, para isso, uma combinação prévia do casal. Na realidade da minha família, isso é algo muito bem resolvido. Graças a Deus, eu tenho um marido feminista.

Arquivo pessoal
"Eu e meu marido desde sempre temos as tarefas bem divididas. Graças a Deus, eu tenho um marido feminista" (foto: Arquivo pessoal)
Você diz que fez escolhas condizentes com o momento de cada filho. Pode falar das diferenças entre as duas criações?
Eu não necessariamente mudei de opinião entre um e outro. O que aconteceu foi que fiquei mais bem informada. Desde o parto (da Flor foi no hospital, e o do Nino, em casa) até outras coisas, como a forma de dormir. O Nino dormiu na nossa cama muito tempo, só foi ter o quarto dele com 10 meses e só saiu da nossa cama de vez com quase 1 ano e meio. E a Flor sempre dormiu no próprio berço - eu levantava à noite para amamentar, ficava indo e voltando, virava uma zumbi. De uma gravidez para outra, eu conheci novas práticas. Na época da Flor, eu nem sabia que essas eram possibilidades. Eu até poderia ter conhecido essas práticas e ter resolvido manter o parto hospitalar para o Nino, mantê-lo no próprio quarto, mas achei que essas outras possibilidades faziam mais sentido para mim.

Havia menos informações quanto a essas práticas menos comuns há dez anos...
Acho que sim. Uma das coisas que me fez mudar o parto do Nino, por exemplo, foram amigas próximas que tiveram parto domiciliar. Esse método está mais em voga agora em relação à época em que tive a Flor.

A Flor foi vegetariana até os 3 anos. E o Nino?

Nino é vegetariano. Comeu peixe com minha mãe, quando a gente estava na Bahia, mas em casa não entra animal, então ele não come. Até o dia em que acontecer a mesma coisa que aconteceu com a Flor. Ela um dia estava almoçando com meu irmão e ele estava comendo uma costelinha de porco. Ela devorou a costelinha. Falei "essa menina não pode ser vegetariana de jeito nenhum". Ela tinha 3 anos. Por mais que você tenha uma filosofia, um dever político com suas práticas, também tem de entender quem é seu filho. Pode direcioná-lo, mas não fazê-lo refém da sua própria ideologia. O Nino está nesse caminho ainda. Se ele descobrir que gosta e precisa de carne, em casa não vai comer, mas não vou proibi-lo.

Como lida com julgamentos em relação às suas escolhas?
Lido muito bem. Entendo que, quando não se tem informação, a primeira reação é negativa, é dizer não, "isso não é para mim", "essa pessoa é maluca". Quando desconhecemos algo, é difícil aceitá-lo, temos preconceito em relação àquilo. Então vejo essas críticas exatamente como uma forma de preconceito.

As mães ainda se julgam muito?
Sim, muito. Há vários tipos de maternidade, e óbvio que queremos nos juntar aos semelhantes. Inclusive, há os grupos no Facebook de pessoas pensando da mesma maneira, de mães de cada estilo. Quando você encontra o seu grupo, se sente muito mais forte para atacar quem pensa diferente. E, quanto mais diferente é o outro, quanto mais distante da sua realidade, mais vontade de atacar você tem. As pressões vêm dessa rivalidade. Parece uma competição de quem vai ter o filho mais perfeito. Acho que vai muito por esse lado, de as pessoas acharem que o diferente é errado.

A Flor tem Instagram e aparece no seu canal. Como vocês lidam com a questão de filhos e internet?
Meu marido é totalmente tecnológico, e lá em casa achamos que tudo bem ela ter esse acesso, ter Instagram, isso não é problema. Mas temos de instruir a criança. Dizemos que ela não pode entrar em determinadas páginas, ela tem de nos mostrar o que vai postar antes de fazê-lo. Existem regras. Conversamos sobre o conteúdo, o que pode ser postado, o que não pode. No nosso caso, a proibição não iria funcionar. Então é melhor ela ter e saber como usar.

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