Conheça a história do bairro Mangabeiras, em BH

Região começou a ser loteada na década de 1960 e a calmaria de outrora ainda é notada por lá. Antes da ocupação, a busca por pedras preciosas prevalecia na região

por Rafael Campos 14/05/2018 16:54

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Arquivo/Estado de Minas
O bairro nos anos 1970: casas começavam a brotar na região, com a Serra do Curral ao fundo (foto: Arquivo/Estado de Minas)
Ao subir a avenida Agulhas Negras, a sensação é de estar saindo da cidade grande. O clima quente e a cena de prédios enfileirados vão ficando para trás. Aos poucos, vai apontando na paisagem a Serra do Curral. À esquerda, o Parque das Mangabeiras, a maior área verde de Belo Horizonte, com os seus 2,4 milhões de metros quadrados e 59 nascentes. Em meio a esse conjunto natural, há ainda residências que começaram a brotar por lá na década de 1960, no governo de Israel Pinheiro.

O atual número de moradores é de quase 2 mil, segundo o Censo (2010) do IBGE, mas não atrapalhou o sossego da região, predominantemente de casas. Até hoje pode ser notada certa calmaria que remete à época em que toda aquela área comportaria uma fazenda. A área rural chamada de Mangabeiras começou a ser loteada na década de 1960, quando a capital mineira via acelerado o seu processo de expansão - sobretudo pelo surto modernista de Juscelino Kubitschek, prefeito de BH, nos anos 1940. A antiga chácara, então, virou Companhia Urbanizadora Serra do Curral (Ciurbe) e os lotes foram disponibilizados em leilões para serem vendidos. Em 1973, o Mangabeiras foi, de fato, criado pelo Decreto Municipal 2.317, de 16 de janeiro. Naquele ano, residências de alto padrão já se destacavam nos morros da serra.

Ronaldo Dolabella/Encontro
A advogada Luciana Moreira e os filhos Henrique, de 9 anos, e Eduardo, de 8: "Meus pais sempre sonhavam morar aqui. Jogávamos bola na rua e colhíamos frutas nas casas dos vizinhos", diz ela (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Sobre os primórdios do bairro, no entanto, é preciso voltar a 1895, dois anos antes de BH ser inaugurada, quando se iniciou a exploração de pedras preciosas na Pedreira do Acaba Mundo. Até uma linha de bonde foi criada para ajudar no transporte dos materiais extraídos. A década de 1950 foi marcada também pela exploração de minério de ferro na Serra do Curral. É o que conta a Coleção Histórias de Bairros - Região Centro-Sul, do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte. "A mineração feita de forma irresponsável levou à destruição da vegetação de uma parte da Serra do Curral e colocou em risco os cursos d’água que ali nasciam", conta a publicação. Se por um lado a atividade minerária colocava em risco o meio ambiente, por outro, possibilitou o surgimento do Parque das Mangabeiras, em 1982. A uma altitude de 1,3 mil metros, a área verde foi projetada por Roberto Burle Marx. Além da diversidade de fauna e flora, o parque abriga áreas de lazer, que atraem a vizinhança, moradores de outras partes da cidade e turistas. Até o fechamento desta edição, o parque estava interditado em função dos trabalhos de prevenção e combate à febre amarela. A Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica informou que estava em contato com a Secretaria Municipal de Saúde com o objetivo de reabrir o local em breve.

Outro símbolo do bairro é a Praça Governador Israel Pinheiro. Foi por lá que a então maior autoridade da Igreja Católica, o papa João Paulo II, celebrou, em 1º de julho de 1980, uma missa e declarou a célebre frase: "Que belo horizonte". Com isso, a praça passou a ser conhecida como Praça do Papa, inaugurada mesmo em 1983, com a presença de pelo menos 4 mil pessoas.

APCBH/Ascom
BH em expansão: na década de 1960, os caminhos eram abertos para a porção sul da cidade. A avenida Afonso Pena seguia rumo ao futuro Mangabeiras (foto: APCBH/Ascom)
O bairro Mangabeiras, no entanto, não era feito só de residências, muito verde e de praça. Em 1974, o oftalmologista Hilton Rocha adquiriu um terreno aos pés da Serra do Curral. Ali, cinco anos depois, foi inaugurado o Instituto Hilton Rocha, que viria a ser referência em oftalmologia no país. Em 1993, contudo, Hilton Rocha faleceu e divergências internas resultaram no fechamento da instituição. Para saldar dívidas trabalhistas, o imóvel foi leiloado e arrematado pelo Grupo Oncomed, em 2009, por 16 milhões de reais. Desde o ano passado, o prédio está sendo reformado e adequado para receber um centro de tratamento de câncer. A previsão é de que as obras sejam concluídas no final de 2019, de acordo com o médico Amandio Soares, um dos diretores da Oncomed.

Mas e o comércio? A avenida Bandeirantes, que hoje é o principal centro de lojas e serviços do bairro, foi concluída em 1979. Até então, os moradores do Mangabeiras tinham de recorrer à Savassi ou ao centro de BH para realizar compras. A psicóloga Renata Borja, de 46 anos, mora desde os 4 no bairro. "Não tinha nem padaria por perto. O jeito era encomendar pão e leite, que vinham de Kombi", diz. A distância do comércio naquela época, contudo, não diminuía o privilégio de se morar bem pertinho da natureza. "Quando éramos criança, íamos brincar na montanha. Deparávamos com coelhos e corujas", afirma a psicóloga, que faz questão de ressaltar que a vida no bairro não mudou muito de lá para cá. "As maritacas ainda são frequentadoras da minha casa. Vejo o sol nascer na montanha e se pôr no horizonte." A descrição da rotina de Renata se assemelha com a da advogada Luciana Moreira, de 47 anos, que reside ali desde os 13. "Meus pais sempre sonhavam morar aqui. Jogávamos bola na rua e colhíamos frutas nas casas dos vizinhos", diz. A prática de aproveitar os pés de fruta da vizinhança ainda se conserva. A casa de Luciana Moreira tem pés de jabuticaba, maçã, pitanga, acerola e uva. Nem precisa dizer qual é o lugar preferido dos filhos Eduardo, de 8, e Henrique, de 9 anos. "É um bairro que deve ser preservado", afirma a advogada.

GEDOC/EM
O papa João Paulo II, em 1980, na Praça Governador Israel Pinheiro, durante sua primeira visita ao país: "Que belo horizonte", disse o pontífice (foto: GEDOC/EM)
Essa é a mesma opinião do também advogado Rodrigo Bedran, presidente da Associação de Moradores do Mangabeiras. Por isso, em seu segundo mandato continua priorizando a segurança dos moradores e visitantes. "Temos a Rede de Vizinhos Protegidos e cerca de 90% das casas têm câmeras, dispositivos aliados na atuação da Polícia Militar e da Guarda Municipal", afirma Rodrigo, que já sente a diminuição de crimes na área. Dessa forma, a vida e o clima dos anos 1960 parecem não tão distantes.

E o Comiteco?

Se você frequenta o Mangabeiras, provavelmente já deve ter passado por vias que, na verdade, pertencem a outro bairro, o Comiteco. Trata-se de uma pequena área, com menos de 1 quilômetro quadrado, mas que reúne cerca de 1,7 mil moradores, conforme Censo do IBGE de 2010. O nome é o mesmo de uma imobiliária que em 1938 adquiriu o terreno às margens da Serra do Curral para um novo loteamento. A empresa existe até hoje. Assim, a área mais à direita da avenida Agulhas Negras até à Praça JK  é o Comiteco (confira o mapa). Os limites entre os dois bairros não são muito claros. De acordo com moradores, algumas ruas, como a Comendador Viana, pelo menos para os Correios, faz parte do Mangabeiras e ao mesmo tempo do Comiteco. A despeito disso, Rodrigo Bedran, presidente da Associação do Mangabeiras, diz que a sua preocupação é atender os interessentes dos residentes de ambas as áreas. Sem distinção.

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