Estado de Minas DECOR

Mostras em BH revelam harmonia entre moderno e antigo na arquitetura

CASACOR Minas e Modernos Eternos ocupam prédios históricos e mostram como memória e inovação podem dialogar em projetos de arquitetura e design


postado em 28/08/2025 08:39 / atualizado em 28/08/2025 09:19

Ambiente concebido pela arquiteta Laura Carvalho (foto: Gustavo Xavier)
Ambiente concebido pela arquiteta Laura Carvalho (foto: Gustavo Xavier)
Misturar o moderno com o antigo é, para muitos, um desafio quando se fala em decoração. A maioria prefere não correr riscos, e costuma escolher entre um desses estilos para o projeto de sua residência. Outro ponto em questão diz respeito à memória. Há quem ache que crescimento e modernidade são sinônimos de prédios altos e espelhados e edificações antigas são coisas do passado, sinônimo de atraso e subdesenvolvimento.

Duas mostras de arquitetura e design de Minas Gerais assumem este ano o compromisso com a preservação do patrimônio histórico e mostram o paradoxo da disrupção quando se fala em arquitetura. Dá sim para estar em constante evolução e abraçar o moderno por meio de edificações e mobiliário antigos. Prova disso é a escolha dos locais onde ocorrem as duas maiores mostras de arquitetura e decoração de Minas Gerais. A CASACOR Minas, que abre no dia 15 de agosto, escolheu o antigo Instituto Izabela Hendrix, em Lourdes, para sua edição deste ano. Já a Modernos Eternos, que aconteceu entre 24 de junho e 20 de julho, escolheu a Escola Estadual Afonso Pena, localizada na avenida João Pinheiro, para celebrar os seus 10 anos. “A Modernos Eternos BH assumiu o propósito de convidar a cidade a redescobrir e vivenciar seu patrimônio histórico, ao lado do que há de mais contemporâneo. Este ano, tivemos a honra de ocupar a Escola Estadual Afonso Pena em um momento especial, marcando sua renovação por meio de melhorias estruturais, de acessibilidade e conforto para a comunidade escolar, trazendo luz à sua trajetória”, destaca Josette Davis, realizadora da mostra.

Para provar que a combinação entre o antigo e o novo é o antídoto para um mundo efêmero e em constante mudança, selecionamos cinco ambientes da mostra Modernos Eternos 2025 que materializam este conceito. 


Pilares - por Laura Carvalho 

A arquiteta Laura Carvalho(foto: Álvaro Fráguas)
A arquiteta Laura Carvalho (foto: Álvaro Fráguas)
O que configura um pilar subjetivamente? Em busca dessa resposta, a arquiteta Laura Carvalho concebeu esse ambiente, que da mesma maneira que valoriza o clássico, dá boas-vindas ao moderno. “A própria atmosfera escolar me gerou um mix de emoções quando visitei o espaço pela primeira vez! Uma nostalgia misturada com questionamentos: o que carrego dali? Que aprendizados ficaram? O que de fato me sustenta como ser humano?"

Essa reflexão sobre o que nos sustenta como humanos internamente começa pelas escrivaninhas da década de 1950, que foram desmontadas e remontadas de forma a se criar uma estante. Uma interessante metáfora sobre como a educação pode ser transformada e nos transformar. Sobre como, por meio da educação, nos tornamos os arquitetos do nosso cotidiano. Outro elemento, como o gramofone posicionado estrategicamente em frente a um espelho, faz alusão ao futuro, o que está por vir, e nos faz pensar: será o futuro um reflexo do que construímos no passado? Ao lado da estante feita por escrivaninhas, uma surpresa: um bloco de tijolos formado por folhas, onde se encontra um trecho de poesia que pode ser levado pelo visitante, nos lembra: estamos constantemente em desconstrução. 


Quarto Elo - por Patrícia Bigonha 
 
Mobiliário feito sob medida para o quarto se mistura a peças do acervo do Museu da Escola(foto: Gustavo Xavier)
Mobiliário feito sob medida para o quarto se mistura a peças do acervo do Museu da Escola (foto: Gustavo Xavier)
 
 
Um espaço entre o que passou e o que ainda está por vir. Nessa lacuna, Patrícia Bigonha, fundadora da Lipe Design Infantil, nos convida a voltar ao tempo da nossa infância, de forma leve e descontraída. O mobiliário feito sob medida para o quarto se mistura a peças do acervo do Museu da Escola, como a mesa e a cadeira de estudos e o porta-livros que recebe a biblioteca infantil, ressaltando a importância da memória. “Vivemos em um tempo em que tudo é rápido, descartável e trocado com facilidade. Por isso, resgatar móveis com memória, com história, se torna quase um gesto de resistência, e também uma forma de ensinar à criança, desde cedo, o valor da permanência. Mostrar que o que é bom não precisa ser novo, só precisa fazer sentido", explica Patrícia. 
 
A arquiteta Patrícia Bigonha(foto: Álvaro Fráguas)
A arquiteta Patrícia Bigonha (foto: Álvaro Fráguas)
 

Cozinha da Naty - por Marina Diniz

O projeto de Mariana Diniz tem como guia o afeto e a memória(foto: Gustavo Xavier)
O projeto de Mariana Diniz tem como guia o afeto e a memória (foto: Gustavo Xavier)
O projeto tem como guia o afeto e a memória, dois ingredientes indispensáveis quando se fala em morar bem. Seja nos armários, com acabamentos retrô, seja na mesa antiga, local de encontro e boas conversas, tudo convida à troca. O espelho antigo pendurado na parede em frente à mesa reflete o tempo e faz da mistura do novo e do antigo uma receita infalível para a criação de momentos inesquecíveis. “A ideia era equilibrar o moderno com o eterno, por isso trouxemos a ideia de uma cozinha mineira mais clássica, junto a cadeiras de palhinha que remetem ao antigo, mas com um design contemporâneo”, afirma Marina. 
 
A arquiteta Mariana Diniz(foto: Álvaro Fráguas)
A arquiteta Mariana Diniz (foto: Álvaro Fráguas)
 

Homenagem à Afonso Penna Jr. - por Flávio Bahia

Flávio Bahia faz um passeio pela história da arte e do design em seu ambiente, uma homenagem à Afonso Penna Jr(foto: Gustavo Xavier)
Flávio Bahia faz um passeio pela história da arte e do design em seu ambiente, uma homenagem à Afonso Penna Jr (foto: Gustavo Xavier)
Conhecido por trabalhar o clássico e o contemporâneo em seus projetos, Flávio Bahia faz um passeio pela história da arte e do design em seu ambiente, uma homenagem à Afonso Penna Jr. Tomando como base o ano de 1913 – data da construção da casa que viveu o político –, o designer de interiores usa do construtivismo russo, movimento que negava uma arte pura e separada do cotidiano, para criar uma estética própria, que recebe a influência de vários movimentos, como o da própria escola Bauhaus e do Modernismo. Para isso, utiliza peças como a mesa de centro Noguchi, a mesa Le Corbusier LC6 e a poltrona Jean Gillon, que ganha nova estética graças ao tecido africano tramado em ráfia. Outro destaque é a curadoria de obras de arte exclusivamente contemporâneas: obras de Eduardo Sued, José Rufino, Sonia Menna Barreto, Caio Marcolini e João Maciel convidam o visitante a olhar o presente sem esquecer do passado. “Acho que essa mistura do moderno com o antigo humaniza mais o interior. O toque do passado torna o ambiente mais acolhedor", afirma. 
 
O arquiteto Flávio Bahia(foto: Álvaro Fráguas )
O arquiteto Flávio Bahia (foto: Álvaro Fráguas )
 



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