Estado de Minas PET

Calor extremo: como proteger cães e gatos no verão

Altas temperaturas afetam hidratação, rins e respiração dos pets; veterinários explicam riscos e cuidados essenciais com água, alimentação, passeios e ambiente


postado em 26/01/2026 06:23 / atualizado em 26/01/2026 06:48

Nélio Rodrigues, médico-veterinário da Clínica Montreal Vet:
Nélio Rodrigues, médico-veterinário da Clínica Montreal Vet: "Durante o verão, cães e gatos aumentam a frequência respiratória e fazem vasodilatação para perder calor. Esse esforço pode levar à desidratação e até à hipovolemia, caso não tenham água em quantidade suficiente" (foto: Geraldo Goulart Net)
O verão traz dias longos, sol intenso e um desafio silencioso: ajudar cães e gatos a atravessarem a estação com saúde e bem-estar. Diferentemente dos humanos, que regulam a temperatura corporal por meio do suor, os pets dependem da respiração e da vasodilatação periférica para dissipar o calor. Quando o termômetro sobe demais, o corpo deles entra em alerta. “Durante o verão, cães e gatos aumentam a frequência respiratória e fazem vasodilatação para perder calor. Esse esforço pode levar à desidratação e até hipovolemia, caso não tenham água em quantidade suficiente”, explica Nélio Rodrigues, médico-veterinário da Clínica Montreal Vet. 
 
Segundo ele, o organismo dos pets reage com redução do metabolismo e do apetite, o que, aliado à alta temperatura, pode causar estresse térmico, caracterizado por letargia, fraqueza e prostração. “O rim passa a reter mais água para preservar a hidratação, e isso pode causar azotemia pré-renal em casos mais severos”, explica o especialista. Além disso, o calor e a umidade favorecem o surgimento de dermatites e otites, muito comuns nessa época. 
 
Nos gatos, há uma tendência maior a problemas renais e obstruções urinárias, especialmente se não houver ingestão adequada de líquidos. A médica-veterinária Alessandra Amarante Smith Maia, especializada em medicina funcional felina, lembra que os bichanos carregam heranças biológicas do deserto. “Eles se hidratavam pela caça, comendo presas ricas em água. Em casa, ao se alimentarem apenas de ração seca, tendem a beber menos liquido. Por isso, os alimentos úmidos, como saches e patês, são essenciais, principalmente no verão.” A exposição solar também exige cuidados. “Gatos de pelagem clara têm risco aumentado de câncer de pele. O ideal é restringir a exposição direta e manter o ambiente sempre fresco”, reforça Alessandra.
 
A médica-veterinária Alessandra Amarante Smith, ao lado de Camila Silva, tutora dos gatos Rômulo e Oliver:
A médica-veterinária Alessandra Amarante Smith, ao lado de Camila Silva, tutora dos gatos Rômulo e Oliver: "Nos gatos, há uma tendência maior a problemas renais e obstruções urinárias, especialmente se não houver ingestão adequada de líquidos", afirma Alessandra (foto: Geraldo Goulart)
Tutora dos gatos sem raça definida (SRD) Rômulo,  de 4 anos, e Oliver de 11, a técnica de enfermagem Camila Silva Rezende não descuida dos bichanos. “Eu não uso gelo porque meus gatos não se adaptaram a isso, mas eles têm muitas fontes de água pela casa.  Também costumo abrir a torneira da pia em determinados momentos, porque sei que eles adoram”, diz ela. A média adequada é de 50 ml de água por quilo de peso corporal ao dia, mas esse número pode aumentar conforme o calor e o nível de atividade dos pets.
 
Raças de cães de focinho achatado, conhecidas como braquicefálicas, podem sofrer crises respiratórias ao menor esforço físico. Além disso, o calor e a umidade favorecem a proliferação de pulgas, carrapatos e mosquitos, transmissores de doenças graves como leishmaniose, hemoparasitoses e até dirofilariose. “Mesmo fora do verão, o uso contínuo de antipulgas, pipetas e coleiras repelentes é fundamental para prevenir essas doenças. A profilaxia deve ser constante, não sazonal”, diz a médica-veterinária Karina Roque Silva, da Clínica São Francisco de Assis, especializada em nutrição pet.
 
Para estimular a ingestão hídrica, Karina recomenda tornar a dieta mais úmida: “Adicione água à ração seca, ofereça patês, caldos próprios para pets ou petiscos congelados com frutas seguras, como melancia, banana, maçã, melão e cenoura. Jamais ofereça: uva, abacate, carambola, cereja, cítricos, cebola, alho, macadâmia, açaí ou tomate com sementes”. A médica-veterinária explica que o calor também altera o apetite, por isso é comum que os animais comam menos no verão. Nesses casos, a dica é oferecer porções menores em horários mais frescos, como início da manhã e fim da tarde. “Outra sugestão é congelar o alimento úmido em cubinhos para oferecer como lanche refrescante”, diz.
 
O asfalto quente é um dos grandes vilões do verão. Os especialistas orientam que antes de sair para passear com os pets,  é preciso testar a temperatura do piso com a palma da mão. Se estiver quente para você, também estará para o animal. ”O ideal é evitar passeios entre 10h e 16h, preferindo grama e áreas sombreadas. Sempre leve uma vasilha com água e evite longas caminhadas”, diz Nélio Rodrigues. Protetor solar para pets existe e deve ser usado. “Há produtos específicos formulados para cães e gatos, que não causam intoxicação se lambidos. Devem ser aplicados em áreas de pelo ralo ou despigmentadas, como focinho, orelhas e barriga”, afirma.
Casa fresca, pet tranquilo

Ambientes ventilados, sombreados e arejados ajudam a prevenir o superaquecimento. Ventilador e ar-condicionado são aliados, mas devem ser usados com moderação. “Evite jatos de ar diretos e frio excessivo, e mantenha os filtros sempre limpos. Isso evita alergias e doenças respiratórias em humanos e animais”, explica Alessandra. Em viagens ou idas ao veterinário, nunca deixe o pet dentro do carro fechado. Mesmo com janelas entreabertas, o calor interno pode atingir níveis fatais em poucos minutos.
 
Banhos mais frequentes ajudam a refrescar, mas devem ser feitos com xampus veterinários e água de morna a fria. A secagem completa é essencial para evitar fungos e bactérias. “A umidade retida favorece dermatites e otites”, lembra Karina. Sobre a tosa, o cuidado varia de acordo com a raça. “Cães de pelagem dupla, como huskies e golden retrievers, não devem ser tosados, pois o pelo serve de barreira térmica. Já animais de pelagem longa podem receber uma tosa higiênica, apenas para facilitar a ventilação.”
 
Água fresca e disponível é o primeiro passo para evitar o superaquecimento dos animais:
Água fresca e disponível é o primeiro passo para evitar o superaquecimento dos animais: "O ideal é oferecer água limpa em vários pontos da casa. As fontes automáticas estimulam os gatos a beberem mais", diz a médica-veterinária Karina Roque Silva, da Clínica São Francisco de Assis (foto: Geraldo Goulart)
Em gatos, o cuidado é ainda mais delicado. “A tosa total pode ser prejudicial. O ideal é apostar na escovação regular para retirar a pelagem velha e permitir que a pelagem de verão, mais leve e protetora, se sobressaia”, orienta Alessandra.
Sinais de alerta

Tutores devem ficar atentos a salivação excessiva, respiração ofegante, mucosas avermelhadas e secas, fraqueza, tremores, vômitos, diarreia ou descoordenação motora. Esses são sintomas de calor excessivo ou hipertermia, que exigem atenção imediata. “Em casos suspeitos de insolação ou desidratação, o tutor deve levar o animal imediatamente ao veterinário, oferecer pequenas quantidades de água e resfriar gradualmente com panos úmidos. Mas é importante evitar choques térmicos com água gelada e nunca medicar por conta própria”, adverte Karina.
 
Exames de sangue, urina de rotina e de imagem, além de check-ups clínicos, ajudam a detectar alterações antes de se agravarem, mesmo que o animal não apresente sinais clínicos. “A medicina veterinária preventiva nos traz a tranquilidade de que o tutor não será surpreendido com um diagnóstico grave, pois os prognósticos são  avaliados e tratados antes de se agravarem”, diz Nélio. 

Os comentários não representam a opinião da revista e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação