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Palácio das Artes chega aos 55 anos olhando para memória e para o futuro

Complexo cultural de Belo Horizonte prepara série de ações em 2026, com livros sobre sua trajetória, temporada especial da Sinfônica e a 100ª ópera


postado em 12/03/2026 06:33 / atualizado em 12/03/2026 07:02

Fachada do Palácio das Artes: encomendada por JK a Oscar Niemeyer, na década de 1940, instalação cultural só foi inaugurada em março de 1971 (foto: Paulo Lacerda/Divulgação)
Fachada do Palácio das Artes: encomendada por JK a Oscar Niemeyer, na década de 1940, instalação cultural só foi inaugurada em março de 1971 (foto: Paulo Lacerda/Divulgação)
Corria o ano de 1971 quando, precisamente no dia 14 de março, no descerrar do verão, a capital mineira assistiu à inauguração oficial de um complexo arquitetônico que, no curso do tempo, tornou-se referência mundo afora no campo das artes e da cultura: o Palácio das Artes. Já de fora, a imponente estrutura branca chamava atenção de quem passava pela avenida Afonso Pena por seu arrojo e magnitude. O que, na verdade, não se constituía propriamente uma surpresa. Afinal, o projeto havia sido encomendado, na década de 1940, por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, a ninguém menos que Oscar Niemeyer (embora a planta tenha posteriormente sofrido intervenções de outro arquiteto, Hélio Ferreira Pinto). 

Fato é que ali, naquela noite, o maestro Isaac Karabtchevsky adentrava ao palco do Grande Teatro para a apresentação de “O Messias”, de Händel, no que seria a coroação do evento. Um corte temporal para 2026 traz o icônico complexo às vésperas de soprar as velinhas de 55 anos, na expectativa de que a nova idade traga feitos dignos de ficarem marcados na história da instituição - tais como o lançamento das primeiras publicações dedicadas ao registro da sua trajetória, a estreia da centésima ópera por lá produzida e a comemoração dos 50 anos de atividade da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. 

Noite de inauguração, em 1971, com orquestra tocando sob a batuta do maestro o maestro Isaac Karabtchevsky(foto: Acervo Fundação Clóvis Salgado/Divulgação)
Noite de inauguração, em 1971, com orquestra tocando sob a batuta do maestro o maestro Isaac Karabtchevsky (foto: Acervo Fundação Clóvis Salgado/Divulgação)
Feitos que, para o jornalista Sérgio Rodrigo Reis, presidente da Fundação Clóvis Salgado, órgão vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult) que gere o Palácio das Artes, justificam uma celebração especial. O conjunto de eventos está inserido no arcabouço “Palácio das Artes – 55 anos: Ontem, Hoje. Sempre”, que, como o próprio título indica, lança luz sobre o passado, reverenciando os pioneiros e tratando de organizar memórias, saúda o tempo presente e vislumbra um futuro que não irá se desvencilhar do calço de sua história. Na verdade, a palavra memória é uma chave para o entendimento do que foi organizado pela gestão. 

“O Palácio das Artes é uma instituição riquíssima, poderosíssima... Mas a verdade é que a narrativa do que aconteceu aqui, desde a fundação, nunca foi efetivamente consolidada. Para citar um exemplo, os corpos artísticos (Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico, Companhia de Dança Minas Gerais) não têm uma publicação, um livro, narrando a sua história”, assinala. Do mesmo modo, emenda ele, as óperas por lá encenadas. “E o que ocorre é que algumas pessoas (referindo-se aos profissionais envolvidos nessas produções no curso dos anos) estão indo embora - e, com elas, a memória”. 

O presidente da FCS prossegue: “Portanto, embora o marco de 55 anos não seja, vamos dizer assim, o que comumente chamamos de ‘data redonda’, foi a que o momento nos presenteou. E, assim, a gente está se apropriando dela para pensar no ontem, no hoje, no sempre - os pilares que norteiam a programação deste ano”, explana. Um dos destaques, aponta ele, são as cinco publicações de cunho memorialístico a serem lançadas. “O Palácio e Sua História”, assinado pelo jornalista Mauro Werkema, o mais longevo presidente da Fundação Clóvis Salgado, está pronto e vai ser o primeiro a ser lançado, em março. 

A publicação seguinte, “O Palácio e Suas Óperas”, escrito pela diretora artística da Fundação, Cláudia Malta, está em fase final de ajustes. “Neste 2026, vamos fazer quatro montagens para, assim, chegar ao marco de cem óperas”, comemora o presidente. O acervo de artes plásticas da instituição será o tema do terceiro livro, “O Palácio e sua Coleção”. “Desde a origem, o Palácio das Artes tem uma coleção muito potente. No entanto, um acervo que pouca gente de fato viu”, afirma. O lançamento será desdobrado em uma grande exposição. 

Paralelamente, outros dois livros estão sendo gestados. Um deles é “O Palácio e a Orquestra”, e trata dos 50 anos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. A escrita está a cargo do pesquisador e regente Marcelo Ramos. Já “O Palácio e a Companhia de Dança” vem sendo conduzido pelos próprios integrantes do grupo. 

Os livros terão uma versão impressa, mais limitada, com distribuição gratuita, e uma online, que permanecerá como uma fonte perene de pesquisa.
 
Incêndio atingiu o prédio da instituição em abril de 1997 e marcou de forma trágica a trajetória da instituição (foto: Paulo Lacerda/Divulgação)
Incêndio atingiu o prédio da instituição em abril de 1997 e marcou de forma trágica a trajetória da instituição (foto: Paulo Lacerda/Divulgação)
 

Universo online

Uma atenção especial está sendo direcionada ao Canal Palácio das Artes no YouTube, hoje, na opinião do presidente da FCS, obsoleto. “Começamos a produzir conteúdo e vamos relançá-lo com uma linguagem visual toda modernizada, feita pela Hardy Design. A proposta é, a cada semana, subir um conteúdo diferente”, detalha. O novo canal deverá ir ao ar entre o final de março e início de abril.

SInfônica, 50 anos

Também dentro das comemorações, um dos corpos artísticos mais emblemáticos do Palácio das Artes, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, terá uma temporada especial, que, de acordo com a programação já divulgada, prevê encontros históricos e grandes nomes da regência nacional e internacional. Entre eles, maestros que ajudaram a construir a trajetória dela, “em concertos que celebram o passado, o presente e o futuro da instituição”. Entre os convidados, estão Roberto Tibiriçá, Sílvio Viegas, Marcelo Ramos, Priscila Bomfim, Gabriel Rhein-Schirato e André Brant, entre outros não menos importantes.

E mais…

A programação “Palácio das Artes – 55 anos: Ontem, Hoje. Sempre” prevê, ainda, ações referentes ao cinema, por meio do Cine Humberto Mauro, e novidades como intervenções expográficas, que vão situar, para o público, as personalidades que dão nome aos espaços da Fundação - como o próprio Clóvis Salgado (1906 - 1978), leopoldinense, médico e incentivador das artes, que foi vice-governador e governador de Minas, além de Ministro da Educação no governo JK.

Ano vai marcar montagem da 100ª ópera

O Palácio das Artes celebrará sua 100ª montagem operística neste 2026. “Il Maestro di Cappella”, de Domenico Cimarosa, será encenada no segundo semestre, em outubro, sob a regência de André Brant, no Centro Cultural do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região. Mas a temporada operística da instituição terá início bem antes, com “As Bodas de Fígaro”, de Wolfgang Amadeus Mozart, com direção cênica do italiano Mario Corradi. A estreia está prevista para 17 de abril. 

Já entre 30 de julho e 2 de agosto, acontece uma edição especial do projeto Viva a Ópera. Com direção cênica de Pablo Maritano e regência de Gabriel Rhein-Schirato, ex-integrante da OSMG, as apresentações vão ocorrer nos galpões do Centro Técnico de Produção e Formação da FCS, situados na vila Marzagão, no município de Sabará. “Esse projeto visa recuperar os grandes momentos de nossas óperas e tem uma dupla função. Primeiramente, nos obriga a rever todo o acervo, o que traz a exigência de revitalizá-lo - como fica guardado, é necessário esse processo. E, em segundo lugar, permite que o público entre no processo de criação”, contextualiza Sérgio Rodrigo Reis, presidente da Fundação Clóvis Salgado.

O Palácio das Artes vai disponibilizar ônibus para levar os interessados do teatro, na avenida Afonso Pena, até a vila Marzagão. Ao chegar, o público vai se deparar com peças de cenários de diversas montagens. “De repente, as luzes principais vão se apagar e focos serão direcionados a detalhes que remetem a várias óperas. Desse modo, o espectador é convidado a viajar na história, a adentrar os bastidores, as coxias, que, na verdade, é onde de fato a magia acontece”.  

Em 12 de setembro, estreia em Diamantina a ópera “Chica da Silva”, com música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcus Bernstein e Flávia Bessone. A obra narra a trajetória da escravizada que conquistou o contratador de diamantes João Fernandes. Essa montagem em particular, comenta Sérgio, insere-se no projeto de o Palácio das Artes apresentar títulos inéditos. 

“O universo operístico é composto por títulos que todo mundo faz e repete. A proposta, pois, foi, além de fazer os clássicos, propor títulos inéditos, originais, que falassem da cultura de Minas Gerais. Para falar do ciclo do ouro, fizemos ‘Aleijadinho’ e foi um sucesso. Depois, ‘Matraga’, para falar do ciclo do sertão, e ‘Devoção’, relativo ao ciclo da fé. Agora, para falar do ciclo do Diamante, ‘Chica da Silva’. São espetáculos que nascem do zero, não tem nada pronto, música, libreto, cenografia, nada. A gente constrói tudo”, diz Sérgio Rodrigo. Após apresentação na cidade histórica, haverá apresentações no Grande Teatro Cemig.

Depoimentos

“Uma noite inesquecível”

Isaac Karabtchevsky, diretor artístico e regente titular da Orquestra Petrobras Sinfônica e da Orquestra Sinfônica Heliópolis(foto: Paulo Lacerda/Divulgação )
Isaac Karabtchevsky, diretor artístico e regente titular da Orquestra Petrobras Sinfônica e da Orquestra Sinfônica Heliópolis (foto: Paulo Lacerda/Divulgação )
“A minha história com a capital mineira (o regente nasceu em 17 de dezembro de 1934, em São Paulo) registra dois momentos bastante especiais. O primeiro, quando me fixei na cidade, e, junto a outros grandes nomes, atuei na criação do Coral Madrigal Renascentista (em 1956). Outro marco importantíssimo foi a inauguração do Palácio das Artes, em 1971, e que, em 1976, passou a ser sede da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, da qual fui regente titular. Sua construção teve o (engenheiro e cantor lírico) Peri Rocha Franco, meu amigo, como um dos baluartes. Aquele início dos anos 1970 concatenou-se com uma atmosfera criativa que pairava sobre o país, de labor em função das artes e da cultura, e na qual Belo Horizonte foi particularmente privilegiada. A inauguração do Palácio das Artes se deu com a obra ‘Messias’, de Handel, executada com a Orquestra Sinfônica Nacional e o coro da Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, sob minha regência. Uma noite inesquecível.”

Isaac Karabtchevsky, 91 anos, hoje diretor artístico e regente titular da Orquestra Petrobras Sinfônica e da Orquestra Sinfônica Heliópolis
 
“Vivenciei lindos momentos”

Roberto Tibiriçá, maestro, regente titular da Orquestra Sinfônica do Paraná (foto: Paulo Lacerda/Divulgação)
Roberto Tibiriçá, maestro, regente titular da Orquestra Sinfônica do Paraná (foto: Paulo Lacerda/Divulgação)
“Nas instalações do Palácio das Artes - que, na verdade, mais parecem uma cidade dentro de um parque maravilhoso, junto à natureza - vivenciei lindos momentos como regente titular, trabalhando com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e com o Coral Lírico, na apresentação de óperas como ‘La Traviata’, de Verdi, ou ‘La Boheme’ e ‘Tosca’, de Puccini, assim como também na execução de grandes obras como a ‘Petite Messe Solennelle’, de Rossini, e o ‘Messias’, de Handel. A importância do Palácio das Artes no cenário artístico é reconhecida por todos no Brasil e no exterior. Não bastasse, atualmente é uma das instituições artísticas que ainda criam e encenam grandes óperas. Isso sem falar no acolhimento do mineiro, que é um público extremamente caloroso.”

Roberto Tibiriçá, 71 anos, maestro, regente titular da Orquestra Sinfônica do Paraná 

“Parte da cultura mineira voltava a respirar”

Thelmo Lins, cantor, ator, jornalista, escritor e gestor cultural (foto: Wagner Cosse/Divulgação)
Thelmo Lins, cantor, ator, jornalista, escritor e gestor cultural (foto: Wagner Cosse/Divulgação)
“Me lembro exatamente quando, no dia 7 de abril de 1997, Belo Horizonte amanheceu com a notícia de que o Grande Teatro do Palácio das Artes estava em chamas. Para quem vive arte, memória e afeto pela cidade, não era apenas um prédio que ardia — era um símbolo em perigo. Até hoje não se sabe ao certo o que aconteceu, fato é que o incêndio devastou quase tudo. Naquele momento, eu trabalhava na Fundação Clóvis Salgado como assessor de imprensa e a minha sala virou uma espécie de sucursal das redações. Mas ninguém se deixou abater. Com o Grande Teatro interditado, o foyer virou palco improvisado - foi montada uma estrutura e disponibilizadas 400 cadeiras. Essa alternativa possibilitou que a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais seguisse se apresentando, bem como outros espetáculos. Em 27 de julho de 1998, o Palácio das Artes foi reinaugurado com uma apresentação do Grupo Corpo - e eu estava lá, arrepiado, emocionado, sentindo que parte da cultura mineira voltava a respirar. Foram 40 dias de programação gratuita: concertos, balés, shows e teatro. As filas davam voltas pela Afonso Pena.” 

Thelmo Lins, 62 anos, cantor, ator, jornalista, escritor e gestor cultural

“‘Matraga’ aproximou a ópera do público”

Chico Lobo, violeiro e compositor(foto: Ricardo Gomes/Divulgação)
Chico Lobo, violeiro e compositor (foto: Ricardo Gomes/Divulgação)
“Fui o primeiro violeiro que encarou esse grande palco, esse palco mágico com o trabalho ‘Reinado’, em 2000. Foi uma emoção muito grande quando a gente produziu o show, trazendo Pena Branca, Renato Borghetti, a dupla Caju & Castanha e o ator Jackson Antunes... e ter o Palácio das Artes lotado. Foi uma coragem imensa na minha carreira. Outro momento que me marcou muito foi a montagem da ópera ‘Matraga’, obra que abordou o sertão de João Guimarães Rosa. Um espetáculo que fugiu às propostas operísticas, que trouxe a cultura mineira, que aproximou a ópera do público. Coube a mim ser o violeiro que fazia a ponte entre o erudito e o sertão. Foi uma experiência maravilhosa e eu acho que o Palácio das Artes acerta imensamente quando produz essas montagens operísticas que se aproximam da cultura mineira. Estabelece uma correspondência muito grande ao coração das pessoas, por isso, é sempre casa cheia.” 

Chico Lobo, 61 anos, violeiro e compositor

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