
Além das medidas milimétricas, o comportamento das candidatas era avaliado com a mesma régua de severidade. Além de novas – podiam ter, no máximo, 25 anos –, altas, magras, cabelos longos e traços classicamente eurocentrados em sua larga maioria, era exigido que as candidatas fossem solteiras, não tivessem filhos e não tivessem posado nuas ou participado de determinados tipos de mídia. Deveriam ser, em outras palavras, belas, recatadas e do lar.
Mais de 70 anos depois, esse rigor com as medidas já não soa tão factível para duas belo-horizontinas: Gabriela Botelho, coroada neste ano como Miss Brasil Mundo, representando o estado de Sergipe, e Giovanna Starling, que, na mesma noite, recebeu a faixa de Miss Brasil Global. Duas mineiras de Belo Horizonte, elas têm mais do que os títulos e a origem em comum. Para começar, ambas iniciaram-se como modelos ainda na infância – a primeira aos 4 anos e, a última, aos 9 –, mas ampliaram suas trajetórias para muito além das passarelas.

“Esse mundo me abriu muitas portas. Sempre quis ser apresentadora de televisão e atriz. Então, agora estou matriculada em uma faculdade de São Paulo no curso de rádio, TV e internet”, conta Giovanna, detalhando que faz as matérias virtualmente, por conta de sua agenda nacional. Solteira, ela possui duas tatuagens no braço – característica encarada como um furtivo detalhe, que ela inclusive pode esconder com uso de maquiagem quando a passarela exige, mas que seria um obstáculo para a conquista da coroa no passado.
As mudanças nas regras desses concursos não são resultantes de um mero capricho e tampouco estão circunscritas no Brasil. Ao contrário, essas transformações são uma resposta a críticas e tensionamentos que levaram a revisões de critérios em todo o mundo. Na Alemanha, por exemplo, depois de o evento ser duramente criticado, houve uma transição a partir de 2020, quando se passou a premiar não só pela sua beleza, mas pelo comprometimento e trabalhos sociais. Desde então, a premiação também permite a participação de mulheres casadas e mães e elevou o limite de idade para incluir candidatas de até 39 anos. Além disso, foi abolida a prova em que as concorrentes deveriam desfilar de maiô.

A empreendedora, que foi miss nos anos de 1990 e, em 2025, atuou como preparadora do Miss BH Mundo, detalha que hoje essa capacitação não gira mais em torno de “encaixar” a candidata em um padrão. Ao contrário, visa “potencializar quem ela é, sua história e sua causa”. “Trabalhamos muito mais a narrativa pessoal, coerência de imagem, postura pública, capacidade argumentativa e presença estratégica. A beleza continua importante, mas ela deixou de ser o centro para se tornar parte de um conjunto muito mais amplo de competências”, defende.
“Ao longo dos anos, percebi que a passarela sozinha não sustentava uma candidata. Era preciso formar uma mulher preparada para ocupar espaços de fala, liderança e influência”, justifica. Mas ela também reconhece que as concorrentes já chegam diferentes. “A nova geração entende que ser miss é assumir um papel público, com responsabilidade social e impacto. Hoje, elas têm mais informação, mais senso crítico e mais clareza sobre propósito. Elas não querem apenas a coroa; querem usar o título como plataforma”, reforça. “Também percebo que estão mais preparadas academicamente e mais conectadas com temas sociais. Ao mesmo tempo, enfrentam uma pressão digital muito maior, o que exige preparo emocional e estratégia de imagem”, complementa.
Mulheres reais

Do lugar de quem já viveu a experiência da coroa e agora acompanha os bastidores, ela enxerga uma transformação concreta nas regras e, sobretudo, na expectativa em torno das mulheres que disputam o título.
“Hoje em dia, reconhecemos que a mulher pode viver diferentes fases, ser casada, mãe, empreendedora, estudante – e continuar plenamente apta a representar o país. Na prática, isso aparece na valorização de histórias verdadeiras, trajetórias consistentes e propósitos claros. Não buscamos mais um modelo idealizado, mas mulheres reais, preparadas e conscientes do impacto que podem gerar”, defende.

Tanto que na edição deste ano do Miss Universe, que acontece em abril deste ano, três misses só poderão disputar o título devido a quebra de regras tradicionais: Tarcia Ciarlini, 32 anos, eleita pelo Amazonas; Júlia Guerra, 35 anos, do Rio Grande do Sul; e Andressa Jamilly, de 38 anos, mãe de duas filhas e psicóloga, do Acre.
À frente da construção de posicionamento da marca, do desenvolvimento de projetos e parcerias e do fortalecimento da narrativa do concurso, a empresária também atua como conselheira informal das candidatas. “Sempre que possível, mantenho contato direto com elas. Acredito muito na troca, na escuta e na orientação próxima – porque a disputa é também um processo de crescimento pessoal”, detalha.
As experiências de Gabriela Botelho e Giovanna Starling parecem confirmar a tese. “Elas representam essa geração de mulheres que une elegância e consistência. Gabriela trouxe serenidade e firmeza em sua trajetória, enquanto Giovanna demonstrou presença e sensibilidade na comunicação. É bonito perceber essa coincidência mineira – talvez essa firmeza tranquila que tantas vezes marca nossa origem”, avalia Natália, acrescentando que esse reposicionamento do significado do título – fruto de tensionamentos e mudanças na forma como os concursos vêm sendo organizados – aparece não apenas nos regulamentos, mas também nas histórias e na maneira como as próprias misses narram suas conquistas.
Mas, embora, ao longo das décadas, o certame tenha evoluído significativamente, Taciana Teodoro reconhece que ainda precisa superar uma série de desafios. “Estes eventos vêm realmente ampliando o debate sobre diversidade, inclusão e representatividade, permitindo a participação de mulheres com diferentes biotipos, histórias e até estados civis, algo impensável anos atrás”, contextualiza. “Ainda assim, é preciso avançar na democratização do acesso, tornando os concursos menos elitizados, fortalecer a transparência nos critérios de julgamento e ampliar, na prática, a diversidade etária, racial e de corpos, para que a beleza celebrada seja realmente plural e conectada com a sociedade atual”, conclui.
Um sonho cultivado há cinco anos

O “motivo maior” foi testado em 2023, quando a mineira enfrentou uma depressão após sofrer cyberbullying no ambiente dos concursos. “Eu tinha certeza de que jamais voltaria para um lugar que tanto me machucou. Mas, com o tempo, acompanhar o reinado da Miss World e Miss World Brasil foi, aos poucos, me curando e me devolvendo a coragem de voltar disposta a enfrentar o que fosse preciso, porque, no final, eu entendi que vale a pena”, afiança ela, que encara o título pela lente do propósito.
“Ao longo da minha trajetória, estive onde poucos querem estar; aprendi a entrar em espaços difíceis, a dialogar com realidades urgentes e a usar minha voz para abrir caminhos para outras pessoas”, estabelece, definindo a versão que deseja encarnar: “A miss que eu trabalho para ser é aquela que não apenas ocupa lugares, mas transforma cada espaço por onde passa e, ao fazer isso, influencia e inspira milhares a fazerem o mesmo. Porque a ação convence mais do que qualquer palavra”.
O engajamento social, aliás, antecede a coroa. “Há sete anos, eu descobri meu propósito quando iniciei meu trabalho em Brumadinho, após o rompimento de uma barragem na Mina Córrego do Feijão. O que me move é estar onde as causas são urgentes”, lembra Gabriela, hoje embaixadora da Casa de Maria, voltada ao acolhimento de pessoas com doenças raras. “Graças ao Miss Brasil Mundo, terei a oportunidade de estar em lugares estratégicos e fazer com que o mundo ouça pessoas que há anos gritam por ajuda. Quero trazer para o Brasil o conhecimento que o mundo tem sobre doenças raras para ajudar a transformar a realidade dessas famílias”, projeta, admitindo que a coroação, recente, ainda está sendo assimilada.
“Desde o primeiro dia, eu disse que queria trabalhar muito, então a dedicação hoje é ainda maior do que antes”, confessa. Sobre a percepção pública, garante: “Acredito que nada mudou. Eu voltei muito feliz e leve e é assim que sigo permanecendo”. A leveza, porém, convive com uma responsabilidade que ela admite ser maior agora – mas que não lhe assusta. “Antes de qualquer palco, aprendi que a beleza só ganha sentido quando se transforma em ação. Foi um valor que recebi desde criança”, pontua.
Gabriela define este universo como uma verdadeira escola. “A preparação para ocupar esse lugar exige muito empenho, muita abdicação e um cuidado constante com a saúde mental. E é um processo que também impacta as pessoas que estão ao seu redor”, descreve. Ao mesmo tempo, celebra que o “mundo miss” tenha ampliado o alcance de algo que diz ter sido sempre um sonho seu: transformar realidades. “Graças aos concursos, hoje eu consigo fazer cada vez mais e impactar cada vez mais pessoas”, conclui.
Saiba mais
Miss Brasil Mundo: É a etapa nacional que seleciona a representante do país para o Miss World, uma das franquias mais antigas e tradicionais do planeta, criada em 1951, no Reino Unido. O evento é conhecido por valorizar fortemente o engajamento social estruturado das candidatas, em sintonia com o lema internacional “Beauty with a Purpose” (“Beleza com Propósito”, em português). O local do Miss Mundo 2026 ainda não foi divulgado pela organização. Até hoje, o Brasil possui uma única vitória, conquistada, em 1971, pela médica carioca Lúcia Petterle.
A fé no propósito e os propósitos da fé

“O mundo miss é recente para mim… É muito gratificante ter conquistado tudo isso em menos de oito meses”, diz, antes de ponderar que, na verdade, o preparo para o título a acompanha desde a infância: “Acredito que Deus sempre me preparou para este caminho, sou modelo desde os 9 anos, poliglota, viajei o mundo; todas essas coisas moldaram a Giovanna que carrega esse título hoje”.
Ela também frisa que essa relativa rapidez não dilui o sentido de missão que o título carrega. “Desde que entendi o propósito, me encontrei, simplesmente amo o que faço, mas é uma trajetória difícil, que exige muita disciplina, esforço físico, psicológico e financeiro”, avalia. Na definição dela, a coroa é, antes de tudo, uma plataforma: “Ser miss é trazer visibilidade para causas que a sociedade ignora, dar voz àqueles que não são ouvidos. É ter postura, pois represento causas de extrema importância. A coroa une exatamente essas duas coisas: beleza e propósito”.
O propósito, no caso dela, também aparece na forma do trabalho social: Giovanna é madrinha do projeto Amor que Cura, que acolhe pessoas em tratamento oncológico, especialmente crianças. “Nós acolhemos, damos suporte psicológico, financeiro para tratamentos por meio de vaquinhas online e damos visibilidade ao projeto. Pretendo dar mais atenção a isso para ajudarmos cada vez mais pessoas nesta situação e expandirmos o projeto”, conta.
Ela reconhece que o título ampliou sua projeção – “represento em escala nacional agora” – e mexeu com a sua rotina – “uma vez coroada, estou em preparação para representar o país na Tailândia este ano. Aulas de passarela, mentorias de branding, oratória em inglês e português, além de aulas de tailandês são parte da minha nova rotina rumo ao Miss Global 2026”.
Para a Giovanna, a estética é, sim, um ponto de partida. Mas, para conquistar e fazer jus à faixa, é preciso ir além. “O mundo miss é muito mais que isso. Nós usamos de nossa visibilidade, oratória e postura para criar impacto na sociedade”, garante, asseverando que o aprendizado é contínuo. “Acredito que, hoje, a diversidade vem sendo cada vez mais abraçada pelos concursos, o que me felicita. E, como em qualquer profissão, é necessário preparação, seja física, acadêmica ou psicológica. Como amo muito o que faço e tenho prazer em tudo isso, sinto que, a cada passo de minha preparação, descubro mais de mim, do mundo ao meu redor e das pessoas”, finaliza.
Saiba mais
Miss Brasil Global: Escolhe a brasileira que disputou o Miss Global, prova internacional mais recente, cuja primeira edição ocorreu em 2013, e tem forte inserção no circuito asiático. A etapa Internacional de 2026 acontecerá na Tailândia. A franquia combina performance de palco, projeção internacional e engajamento social, exigindo das candidatas preparo estético, domínio de idiomas e desenvoltura em ambientes multiculturais. Embora também valorize propósito e impacto social, o Miss Global valoriza sobretudo um perfil mais globalizado e contemporâneo, com capacidade de dialogar com diferentes culturas.

De miss pra miss
A Encontro pediu que Gabriela Botelho e Giovanna Starling trocassem entre si três perguntas que gostariam de se fazer. Confira.
Giovanna pergunta e Gabriela responde:
1. Qual o momento mais desafiador para você nos concursos?
Em 2023, o cyberbullying me levou a um período difícil de depressão e bulimia. Eu precisei de ajuda das pessoas que me amam, de terapia e também de acompanhamento médico. O processo de cura foi longo, mas essencial para que hoje eu esteja emocionalmente forte e profundamente conectada com a minha verdade. Foi isso que me deixou pronta para voltar ao Miss Brasil Mundo, seguir meu propósito e, agora, poder realizar tudo o que sempre sonhei no trabalho social.
2. Na sua opinião, qual o maior impacto na sociedade é criado a partir do seu papel como miss?
Acredito muito no que já comentei sobre o trabalho social: ocupar lugares importa porque é assim que conseguimos fazer com que quem realmente pode mudar a realidade do nosso país escute quem pede ajuda há anos. É sobre agir por essas pessoas. Não ficar só falando, mas ir lá e fazer.
3. Qual a maior lição que o mundo miss te ensinou?
Tenha coragem para não desistir. Na teoria, desistir é mais fácil, dói menos. Mas, pra mim, saber que eu poderia viver algo a mais, que havia mais para fazer e transformar socialmente, e não ter feito nada sobre isso, doeria muito mais. Foram cinco anos tentando, e na minha quarta tentativa eu venci. Quem venceu foi a Gabi que nunca desistiu, que acreditou no que carregava no coração. E é essa coragem que eu quero levar comigo pra sempre.
Gabriela pergunta e Giovanna responde:
1. Em que momento você sentiu, de verdade, que essa franquia representa seus valores e seu propósito, e o que te fez acreditar que esse era o seu lugar?
A partir do momento em que o Global tem como slogan “empower women, embrace culture and embody the beauty within”, que preza pelo empoderamento feminino, abraçar culturas e valorizar as belezas únicas, vi propósito nisso e a importância da voz da mulher nestas causas. Além disso, projetos sociais fazem parte do concurso, onde o impacto é essencial.
2. Qual foi o momento mais marcante do seu trabalho social até hoje, aquele que te lembrou por que você faz tudo isso?
%u2060Quando uma menina de 18 anos com anemia falciforme tinha o sonho de ser miss, e, no hospital mesmo, nós fizemos uma festa de aniversário para ela, com direito a fotógrafo, maquiadora. E ela foi coroada miss Amor que Cura. Infelizmente, perdemos essa paciente há um mês, mas nunca esquecerei dela.
3. Que realidade você conheceu através do seu projeto social que mudou completamente a sua forma de ver o mundo?
%u2060A forma em que as crianças aproveitam o presente, valorizam cada segundo. Aprendo com elas todos os dias.