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Alter leva comida de boteco raiz ao Belvedere

Fundado por Flávio Trompino, do Xapuri, bar aposta em receitas mineiras, ambiente inspirado na equitação e rótulos de cachaça garimpados ao longo de décadas


postado em 22/06/2026 08:06 / atualizado em 22/06/2026 08:25

Flávio Trombino (à dir.), com o sócio Cléber Guimarães, o Clebinho: casa aposta em espaço intimista, pensado para aproximar cozinha, balcão e cliente (foto: Pádua de Carvalho)
Flávio Trombino (à dir.), com o sócio Cléber Guimarães, o Clebinho: casa aposta em espaço intimista, pensado para aproximar cozinha, balcão e cliente (foto: Pádua de Carvalho)
Durante um mês, Flávio Trombino saiu todos os dias da Pampulha direto para o Belvedere, do outro lado da cidade. Os mais de 20 quilômetros percorridos tinham um porquê. O chef tinha sido convidado pelo amigo – e agora sócio – Cléber Guimarães, o Clebinho, a abrir um novo negócio. “Ele veio com a ideia de criarmos um Xapurizinho, mas acho que o Xapuri é único”, diz Flávio, que comanda o restaurante mais famoso de Minas Gerais, fundado por seus pais em 1987. 
 
Observando o ponto, percebeu que tinha chegado a hora de realizar um sonho antigo: ter um bar. Flávio conta que na década de 1980, no início da adolescência, sua irmã Fabiana abriu um bar underground na cidade. “No primeiro dia, fui trabalhar como garçom e fiquei completamente louco por aquele universo. E isso ficou no meu imaginário”, explica. Foi a vez do chef convencer Clebinho e o outro sócio, Alexandre Minardi, que o negócio era ocupar aquele espaço com um boteco. “E eu ia criar o conceito”, diz Flávio. 
 
Nasceu, então, o Alter. O nome carrega múltiplos significados. Faz referência à localização do espaço, no mirante do Belvedere; dialoga com a ideia de alter ego — “um outro eu e uma nova forma de oferecer Minas”, explica o chef; e também homenageia Alter do Chão, em Portugal, região historicamente ligada à criação de cavalos que influenciaram a formação da cavalaria em Minas Gerais. A escolha revela uma das grandes paixões de Flávio, a equitação, atividade à qual se dedicou profissionalmente durante mais de duas décadas antes de assumir definitivamente os fogões da família. “É algo completamente novo. Saio de um restaurante de 4 mil metros quadrados, para um de 50 metros quadrados; de 85 funcionários, para oito”, conta o chef, que tem feito jornada dupla, já que o bar funciona de segunda a quinta a partir das 17h; sexta a partir de 16h; e sábado a partir de 14h.  
 
O Marcha Batida, versão do Bife a Cavalo: feito com carne de boi, leva muçarela, fritas e dois ovos (foto: Pádua de Carvalho)
O Marcha Batida, versão do Bife a Cavalo: feito com carne de boi, leva muçarela, fritas e dois ovos (foto: Pádua de Carvalho)
O Alter aposta em um espaço mais intimista, pensado para aproximar cozinha, balcão e cliente. Com capacidade para 45 pessoas, a casa tem como inspiração os cavalos e tudo que os cerca. A influência do universo da montaria aparece em todos os detalhes – inclusive nos portas-bolsas localizados um pouco abaixo do balcão. Elementos reaproveitados de uma antiga hípica instalada nos fundos do Xapuri ganharam nova função na decoração. Portas de cocheiras transformaram-se em balcões, enquanto suportes de sela foram incorporados ao mobiliário, criando uma estética que remete aos quartos de arreios e estábulos das fazendas mineiras.  
 
A ambientação reforça a proposta de celebrar uma Minas Gerais rural e afetiva. Nas paredes, fotos de família, inclusive uma do chef montando. O menu é daqueles de emocionar um bom botequeiro. “É um desafio. Não sei se somos loucos ou corajosos de abrir um boteco em um bairro que não tem boteco”, afirma Flávio. 
 
Abrindo o cardápio, as Caldeiradas são servidas em pequenas panelinhas de ferro e acompanhadas de pão quentinho para ser chuchado no molho da moela (R$ 52,90); língua (R$ 52,90); e carne de panela (R$ 62,90). Ainda dá para pedir porções extras como arroz (R$ 18,90), farofa (R$ 18,90) e mandioca (R$ 23,90). Tem sandubas e uma categoria dedicada a preparos na chapa. É o caso do fígado com jiló (R$ 48,90), que aparece também com um sotaque francês preparado com fígado de pato e abobrinha, o fuai. O tradicional bolinho de mandioca do Xapuri (R$ 38,90) também está disponível para os clientes. 
 
O drinque Jabu: preparado com Jagermeister, cachaça, limão, purê de jabuticaba e tônica (foto: Pádua de Carvalho)
O drinque Jabu: preparado com Jagermeister, cachaça, limão, purê de jabuticaba e tônica (foto: Pádua de Carvalho)
O prato principal é o Bife a cavalo, que vem em duas versões, usando como referência aos diferentes tipos de andamento dos cavalos. O Marcha Batida (R$ 68,90) é feito com boi e leva muçarela, fritas e dois ovos. Já o Marcha Picada (R$ 48,90) é de bife de porco com requeijão de raspa. 
 
A cachaça ocupa um papel central no Alter. Prateleiras são ocupadas por diversas garrafas adquiridas em décadas de pesquisa e da coleção pessoal do chef. Os rótulos são divididos entre bronze (R$ 18); prata (R$ 22); ouro (R$ 29) e super ouro (R$ 39) e vendidos em doses. A bebida também aparece nos coquetéis da casa, especialmente no clássico Rabo de Galo (R$ 34,90), reinterpretado com blend próprio de vermute e cachaça envelhecida; e o Jabu (R$ 38,90), preparado com Jagermeister, cachaça, limão, purê de jabuticaba e tônica. 
 
Filho de Nelsa Trombino, Flávio construiu sua trajetória ajudando a transformar o Xapuri em uma das maiores referências da culinária mineira contemporânea. No Alter, porém, o chef apresenta uma faceta mais descontraída, quase autobiográfica, onde a gastronomia se mistura às lembranças da infância, à vida no campo e à paixão pelos cavalos.  O resultado é um bar que traduz uma Minas afetiva e genuína, onde cada detalhe conta uma história vivida por Flávio, um contador nato das coisas dessa terra. 
 
Alter Bar 
Avenida José Maria Alkimim, 86, Belvedere

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