
Observando o ponto, percebeu que tinha chegado a hora de realizar um sonho antigo: ter um bar. Flávio conta que na década de 1980, no início da adolescência, sua irmã Fabiana abriu um bar underground na cidade. “No primeiro dia, fui trabalhar como garçom e fiquei completamente louco por aquele universo. E isso ficou no meu imaginário”, explica. Foi a vez do chef convencer Clebinho e o outro sócio, Alexandre Minardi, que o negócio era ocupar aquele espaço com um boteco. “E eu ia criar o conceito”, diz Flávio.
Nasceu, então, o Alter. O nome carrega múltiplos significados. Faz referência à localização do espaço, no mirante do Belvedere; dialoga com a ideia de alter ego — “um outro eu e uma nova forma de oferecer Minas”, explica o chef; e também homenageia Alter do Chão, em Portugal, região historicamente ligada à criação de cavalos que influenciaram a formação da cavalaria em Minas Gerais. A escolha revela uma das grandes paixões de Flávio, a equitação, atividade à qual se dedicou profissionalmente durante mais de duas décadas antes de assumir definitivamente os fogões da família. “É algo completamente novo. Saio de um restaurante de 4 mil metros quadrados, para um de 50 metros quadrados; de 85 funcionários, para oito”, conta o chef, que tem feito jornada dupla, já que o bar funciona de segunda a quinta a partir das 17h; sexta a partir de 16h; e sábado a partir de 14h.

A ambientação reforça a proposta de celebrar uma Minas Gerais rural e afetiva. Nas paredes, fotos de família, inclusive uma do chef montando. O menu é daqueles de emocionar um bom botequeiro. “É um desafio. Não sei se somos loucos ou corajosos de abrir um boteco em um bairro que não tem boteco”, afirma Flávio.
Abrindo o cardápio, as Caldeiradas são servidas em pequenas panelinhas de ferro e acompanhadas de pão quentinho para ser chuchado no molho da moela (R$ 52,90); língua (R$ 52,90); e carne de panela (R$ 62,90). Ainda dá para pedir porções extras como arroz (R$ 18,90), farofa (R$ 18,90) e mandioca (R$ 23,90). Tem sandubas e uma categoria dedicada a preparos na chapa. É o caso do fígado com jiló (R$ 48,90), que aparece também com um sotaque francês preparado com fígado de pato e abobrinha, o fuai. O tradicional bolinho de mandioca do Xapuri (R$ 38,90) também está disponível para os clientes.

A cachaça ocupa um papel central no Alter. Prateleiras são ocupadas por diversas garrafas adquiridas em décadas de pesquisa e da coleção pessoal do chef. Os rótulos são divididos entre bronze (R$ 18); prata (R$ 22); ouro (R$ 29) e super ouro (R$ 39) e vendidos em doses. A bebida também aparece nos coquetéis da casa, especialmente no clássico Rabo de Galo (R$ 34,90), reinterpretado com blend próprio de vermute e cachaça envelhecida; e o Jabu (R$ 38,90), preparado com Jagermeister, cachaça, limão, purê de jabuticaba e tônica.
Filho de Nelsa Trombino, Flávio construiu sua trajetória ajudando a transformar o Xapuri em uma das maiores referências da culinária mineira contemporânea. No Alter, porém, o chef apresenta uma faceta mais descontraída, quase autobiográfica, onde a gastronomia se mistura às lembranças da infância, à vida no campo e à paixão pelos cavalos. O resultado é um bar que traduz uma Minas afetiva e genuína, onde cada detalhe conta uma história vivida por Flávio, um contador nato das coisas dessa terra.
Alter Bar
Avenida José Maria Alkimim, 86, Belvedere