Estado de Minas PERFIL

Christiana Renault fala de fé, serviço público e escolhas de vida

Primeira-dama de Minas revisita momentos marcantes da vida pessoal e profissional em entrevista sobre família, carreira e propósito


postado em 19/06/2026 06:50 / atualizado em 19/06/2026 07:20

Christiana Renault, primeira-dama de Minas e presidente do Servas(foto: Pádua de Carvalho)
Christiana Renault, primeira-dama de Minas e presidente do Servas (foto: Pádua de Carvalho)
Atualmente conciliando o cargo de presidente do Serviço Social Autônomo – Servas – com o de primeira-dama de Minas Gerais, Christiana Renault, 54 anos, esposa do governador Mateus Simões, não hesita quando instigada a lembrar um enunciado que, de certa forma, traduz o lema que norteia sua vida. “Minha vida é como uma tapeçaria entre mim e meu Deus. Não escolho as cores com as quais Ele está constantemente tecendo. Com frequência Ele tece a tristeza; e eu, em orgulho insensato, esqueço que Ele vê a parte de cima, e eu a de baixo”, diz ela, citando as palavras de Corrie ten Boom (1892-1983).

 

Na verdade, a advogada e docente é leitora voraz de nomes como Cora Coralina e Rubem Alves, mas a escolha da frase da escritora e resistente holandesa Cornelia “Corrie” ten Boom, conhecida por salvar muitos judeus durante a perseguição nazista, baseia-se no fato de elas moldarem-se ao contexto de sua própria trajetória. Momentos da vida os quais Christiana só anos depois teve uma compreensão mais clara. Como se, aos moldes do trecho de “A Tapeçaria”( ou “Life is but a Weaving”), a mão divina tivesse operado acontecimentos de modo a dotá-la do estofo necessário aos desafios que a aguardavam desde sempre.

Nascida em Belo Horizonte, Christiana Renault cresceu junto aos quatro irmãos - Pedro Victor, Juliana, Ângela e João Henrique -  no bairro Cidade Jardim, em uma casa agitada também pela presença constante dos primos. “Aprendi a ler muito cedo, assim como a desenhar. Era considerada uma criança sossegada porque bastava me entregarem um livro ou material de desenho que eu dava paz”, brinca. Aliás, o apreço pela arte e pela leitura mantiveram-se vida afora – tanto que ela planeja para breve o retorno à pintura de aquarelas, desta vez incluindo a temática pássaros à de flores, mais recorrente. “Uma curiosidade é que a imagem de tela do celular do meu marido é uma aquarela na qual retratei um de nossos cachorros”, revela ela, referindo-se a Hannah, a primeira scottish terrier do casal, que, atualmente, possui três cachorros da mesma raça, assim como uma pastora Maremano abruzês e quatro lóris (espécie de papagaio). “Que são a alegria da casa", indica ela.

Christiana estudou no tradicional São Tomás de Aquino e, posteriormente, no Colégio Loyola. O esporte também foi uma constante na vida, tendo, inclusive, integrado a equipe de vôlei do Minas Tênis Clube. A vida corria tranquila até o momento em que precisou escolher para que curso prestar vestibular. “Problema é que, à exceção de exatas, eu tinha interesse em todas as outras áreas”, rememora, divertida. Como, à época, a inclinação que falava mais alto era a área biológica, tentou Medicina, sendo aprovada na UFMG, onde ficou até concluir que não era o seu caminho. Partiu, então, para o Turismo – chegou a trabalhar por muitos anos com intercâmbio cultural. “No entanto, aos 26 anos, o Direito me venceu.” E lá foi ela mais uma vez para os bancos da escola.
 
Formada, enveredou-se pela docência. “Apesar de gostar muito da argumentação jurídica, preferi lecionar.” Deu aulas na Faculdade de Sabará, depois, Milton Campos, com uma passagem, ainda, pela Unifenas. “Atuei em disciplinas propedêuticas do Direito, o que me dava a oportunidade de trabalhar, nos alunos, a autonomia como estudantes. O que me fascinava era que, ainda que tivesse uma importância própria, essas disciplinas ajudavam muito para que os alunos fossem bons em outras disciplinas.” 
 
Lecionou por 15 anos. De 2002 a 2017. Aliás, o primeiro encontro com o futuro marido, Mateus, ocorreu na sala dos professores da Milton Campos, em 2004. “Começamos a namorar em 2005 e nos casamos em 2007”, posiciona. À frente do Servas desde 2023, Christiana conta que, quando recebeu o convite do então governador Romeu Zema (que se licenciou do cargo em março deste 2026) para o cargo, o impacto foi grande. Hoje, passados três anos, a experiência tem sido, nas palavras dela, intensa, interessante e desafiadora.

“Posso considerar que tive três mães”

Christiana Renault ao lado da mãe Maria Ângela Noronha(foto: Pádua de Carvalho)
Christiana Renault ao lado da mãe Maria Ângela Noronha (foto: Pádua de Carvalho)
“Esta é minha mãe, Maria Ângela Noronha. Essa foto foi tirada na cerimônia da minha formatura no Direito, em 2002, apenas seis meses antes de ela falecer. Ela, que foi servidora do Tribunal de Contas de Minas Gerais, me passou os exemplos de mansidão e dedicação. Tinha uma doçura com todos que trabalhavam conosco... Nos últimos anos, quando eu já era adulta, foi a minha melhor amiga. No seu último ano de vida, tive o privilégio de levá-la para assistir a Bibi Ferreira cantando Amália Rodrigues, a fadista, no Grande Teatro do Palácio das Artes. Ela era fã das duas (Bibi e Amália). Foi um momento lindo… Mas posso considerar que tive três mães, por conta da Dinha (Lourdes Sabina Lana) e da Serafina. Dinha foi minha babá e faleceu há muitos anos. Era o colo mais gostoso do mundo e tinha as mãos mais fabulosas para fazer doces. Faleceu de câncer no pulmão há 30 anos. Serafina foi cozinheira na minha casa desde que eu tinha 1 ano e também tomava conta de nós. Atualmente, tem 87 anos e, graças a Deus, está saudável e lúcida. Aliás, costuma passar uns dias comigo na minha casa, contando casos da infância dela em São João Evangelista. Uma mulher espirituosa e muito inteligente, mestre dos ditados populares, que usa como ninguém. Entrou lá em casa sabendo fazer o trivial, mas, tempos depois, já era capaz de fazer qualquer receita imaginável. Aliás, amava fazer cursos de culinária e experimentar receitas novas. Uma presença deliciosa.”

“Servir exige sensibilidade. E acolher exige ação”

Christiana Renault está à frente do Servas desde 2023(foto: Pádua de Carvalho)
Christiana Renault está à frente do Servas desde 2023 (foto: Pádua de Carvalho)
“Estou à frente do Servas desde 2023. E, desde o ano passado, em 2025, percebemos que a entidade precisava de algo que traduzisse, em uma única frase, não apenas o que a instituição é — mas, principalmente, a sua essência. Todos conhecem o Servas como uma instituição mineira de compromisso com a responsabilidade e a inclusão social, apartidária e sem fins lucrativos. Ok. Mas essa definição explica a estrutura da instituição — não a emoção e o propósito que movem o nosso trabalho diariamente. Foi então que surgiu um desafio: transformar em palavras aquilo que sempre esteve presente em cada ação do Servas. A capacidade de servir com empatia, presença e humanidade. De acolher não apenas com discursos, mas com atitudes concretas. E assim nasceu a nossa tagline. Uma frase simples, mas carregada de significado. Um símbolo daquilo que acreditamos e praticamos todos os dias: ‘Coração que serve, ação que acolhe.’ Porque servir exige sensibilidade. E acolher exige ação. Essa mensagem está presente em todos os lugares: no bottom que usamos no peito e no coração adesivado que entregamos às pessoas que participam, de alguma forma, do nosso dia a dia. Mais do que um símbolo visual, esse gesto representa a intenção de tocar o coração das pessoas. De lembrar que o bem pode ser maior. E, principalmente, que ele pode vir de todos nós.” 

“Hoje compreendo com clareza por que Deus não quis me dar filhos”

Christiana Renault e o marido Mateus Simões(foto: Pádua de Carvalho)
Christiana Renault e o marido Mateus Simões (foto: Pádua de Carvalho)
“Eu e o Mateus temos interesses muito similares, além de dividirmos o interesse em uma busca pelo bem comum. Quando olho para a minha trajetória, o que estudei no Direito, percebo que tudo diz respeito ao entendimento de como o Direito e o Estado podem contribuir para que um maior número de pessoas seja feliz. A organização social para o bem comum, para a felicidade coletiva é uma coisa que sempre esteve presente no meu pensamento e no dele. Temos essa abertura para uma perspectiva de felicidade que transcende uma busca pela felicidade mais egoísta, mais próxima da felicidade só minha, ou da minha família, ou do meu grupo de amigos. E hoje compreendo com clareza por que Deus não quis me dar filhos. Com o ritmo que o Mateus imprime à vida dele, e com o qual eu concordo, não haveria espaço na nossa vida para crianças e adolescentes, a não ser que eu delegasse muito, o que não era meu desejo. Hoje percebo claramente que era o mais sensato para a nossa vida. Mateus sempre foi um workaholic, de virar noites trabalhando, mas sempre fui muito tranquila quanto a isso. Sinceramente, seria uma mulher muito insensata se não fosse.

“Não sou eu que encontro os livros, eles é que me encontram”

Trabalho de conclusão de curso de Christiana, durante especialização em Lisboa, se transformou no livo
Trabalho de conclusão de curso de Christiana, durante especialização em Lisboa, se transformou no livo "Os Sistemas de Governo na República" (foto: Pádua de Carvalho)
“Após chegar a cursar medicina e me formar em turismo, aos 26 anos, decidi fazer direito. E optei pela vida acadêmica. Fiz uma especialização em Lisboa, em Ciências Jurídicas e Políticas, e meu trabalho de conclusão de curso acabou se tornando um livro, ‘Os Sistemas de Governo na República' (Sergio Antonio Fabris Editor). Depois, quando decidi fazer meu mestrado, na Faculdade Milton Campos, Deus teceu novamente na minha vida. O foco do estudo seria um tema árido, a Hermenêutica no Direito Empresarial. Só que, por conta de um convite, meu orientador teve que deixar a instituição. E, de repente, meu projeto ficou órfão, e eu, à deriva. Foi quando, na mesma época, caíram em minhas mãos os livros ‘O Banqueiro dos Pobres’ e ‘Um Mundo Sem Pobreza’, de Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz em 2006. Costumo brincar que não sou eu que encontro os livros, eles é que me encontram. Quando li esses títulos, falei: é sobre isso que quero escrever. E, então, refiz meu projeto. E a dissertação virou a publicação ‘Empresa Social – Além do ESG’ (Editora D`Plácido). Foi preciso que o projeto anterior se frustrasse, por uma circunstância exterior, para que eu fosse levada a um tema que tem tudo a ver com o que faço no Servas.” 

A BH que eu amo 

Pedimos para Christina listar seus cantos e passeios prediletos na cidade. Confira:

1 - Sala Minas Gerais
“Um dos meus espaços favoritos na nossa capital, a casa da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais… A música clássica é um bálsamo para o cérebro e para o coração, não é? Me lembro muito de uma apresentação, ‘A Ressurreição de Mahler’. Foi uma das experiências mais memoráveis que vivi lá, dentre tantas outras.”

2 - Mercado Central 
“Eu simplesmente adoro o Mercado Central. A qualidade dos produtos, a diversidade que eles apresentam, além da representatividade de Minas Gerais em tudo que eles têm. De preferência, se a visita inclui um almoço no Casa Cheia, comandado pelo chef Ilmar. Daí, fecha com chave de ouro.”

3 - Automóvel Clube
“É um lugar que me fascina na cidade. A foto mais linda que tenho do meu pai (João Henrique Renault) foi tirada lá. Ele estava numa festa de carnaval no ano de 1932! Ainda sou sócia de lá, acredita? Herdei a cota que foi do meu avô René, nascido em BH em 1902.”

4 - Taste Vin 
“Vou ao Taste Vin desde 1998, quando inaugurou, muito menor e com cardápio uma fração do que é hoje. Ninguém serve um filé como o Rodrigo (Fonseca, chef), os soufflés dele são inimitáveis e, os profiteroles, não há melhores nem na França. Da carta de vinhos, não há o que dizer. Vou sempre com o Mateus, mas também com as amigas ou com meus irmãos.”

5 - Clubes na infância
“Cresci indo aos fins de semana ora para o PIC Pampulha, ora ao Campestre, onde 
jogávamos tênis. Isso foi antes de surgir o Belvedere e o BH Shopping… E ir lá era uma viagem na década de 70. Como eu passava férias, na maioria das vezes, em BH, tenho muitas lembranças das colônias de férias do PIC. Já natação, ginástica olímpica e carnavais quando criança foram no Barroca.”

6 - Gastronomia de BH 
Neste quesito, Belo Horizonte até nos constrange para escolher … sou apaixonada pelo Macaréu, do Léo Paixão, e pelo Pacato, do Caio Soter. Já o Província di Salerno, frequento a vida inteira, o Remo (Peluso, antigo chef da casa, que morreu em 2022 de Covid) foi aluno do meu pai na faculdade. Eu amava o Zia Pippina também, que era do irmão dele, o Romano.”

7 - Minas Demais 
 “Gosto muito de me sentar para tomar café - da manhã ou da tarde - em lugares nos quais o tempo passa devagar. Particularmente, adoro o bolo de goiabada do Minas Demais, restaurante e empório que fica na avenida Bandeirantes. Aliás, lá também tem uma seleção de queijos mineiros que realmente é difícil superar"

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