
Na verdade, a advogada e docente é leitora voraz de nomes como Cora Coralina e Rubem Alves, mas a escolha da frase da escritora e resistente holandesa Cornelia “Corrie” ten Boom, conhecida por salvar muitos judeus durante a perseguição nazista, baseia-se no fato de elas moldarem-se ao contexto de sua própria trajetória. Momentos da vida os quais Christiana só anos depois teve uma compreensão mais clara. Como se, aos moldes do trecho de “A Tapeçaria”( ou “Life is but a Weaving”), a mão divina tivesse operado acontecimentos de modo a dotá-la do estofo necessário aos desafios que a aguardavam desde sempre.
Nascida em Belo Horizonte, Christiana Renault cresceu junto aos quatro irmãos - Pedro Victor, Juliana, Ângela e João Henrique - no bairro Cidade Jardim, em uma casa agitada também pela presença constante dos primos. “Aprendi a ler muito cedo, assim como a desenhar. Era considerada uma criança sossegada porque bastava me entregarem um livro ou material de desenho que eu dava paz”, brinca. Aliás, o apreço pela arte e pela leitura mantiveram-se vida afora – tanto que ela planeja para breve o retorno à pintura de aquarelas, desta vez incluindo a temática pássaros à de flores, mais recorrente. “Uma curiosidade é que a imagem de tela do celular do meu marido é uma aquarela na qual retratei um de nossos cachorros”, revela ela, referindo-se a Hannah, a primeira scottish terrier do casal, que, atualmente, possui três cachorros da mesma raça, assim como uma pastora Maremano abruzês e quatro lóris (espécie de papagaio). “Que são a alegria da casa", indica ela.
Christiana estudou no tradicional São Tomás de Aquino e, posteriormente, no Colégio Loyola. O esporte também foi uma constante na vida, tendo, inclusive, integrado a equipe de vôlei do Minas Tênis Clube. A vida corria tranquila até o momento em que precisou escolher para que curso prestar vestibular. “Problema é que, à exceção de exatas, eu tinha interesse em todas as outras áreas”, rememora, divertida. Como, à época, a inclinação que falava mais alto era a área biológica, tentou Medicina, sendo aprovada na UFMG, onde ficou até concluir que não era o seu caminho. Partiu, então, para o Turismo – chegou a trabalhar por muitos anos com intercâmbio cultural. “No entanto, aos 26 anos, o Direito me venceu.” E lá foi ela mais uma vez para os bancos da escola.
Formada, enveredou-se pela docência. “Apesar de gostar muito da argumentação jurídica, preferi lecionar.” Deu aulas na Faculdade de Sabará, depois, Milton Campos, com uma passagem, ainda, pela Unifenas. “Atuei em disciplinas propedêuticas do Direito, o que me dava a oportunidade de trabalhar, nos alunos, a autonomia como estudantes. O que me fascinava era que, ainda que tivesse uma importância própria, essas disciplinas ajudavam muito para que os alunos fossem bons em outras disciplinas.”
Lecionou por 15 anos. De 2002 a 2017. Aliás, o primeiro encontro com o futuro marido, Mateus, ocorreu na sala dos professores da Milton Campos, em 2004. “Começamos a namorar em 2005 e nos casamos em 2007”, posiciona. À frente do Servas desde 2023, Christiana conta que, quando recebeu o convite do então governador Romeu Zema (que se licenciou do cargo em março deste 2026) para o cargo, o impacto foi grande. Hoje, passados três anos, a experiência tem sido, nas palavras dela, intensa, interessante e desafiadora.
“Posso considerar que tive três mães”

“Servir exige sensibilidade. E acolher exige ação”

“Hoje compreendo com clareza por que Deus não quis me dar filhos”

“Não sou eu que encontro os livros, eles é que me encontram”

A BH que eu amo
Pedimos para Christina listar seus cantos e passeios prediletos na cidade. Confira:
1 - Sala Minas Gerais
“Um dos meus espaços favoritos na nossa capital, a casa da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais… A música clássica é um bálsamo para o cérebro e para o coração, não é? Me lembro muito de uma apresentação, ‘A Ressurreição de Mahler’. Foi uma das experiências mais memoráveis que vivi lá, dentre tantas outras.”
2 - Mercado Central
“Eu simplesmente adoro o Mercado Central. A qualidade dos produtos, a diversidade que eles apresentam, além da representatividade de Minas Gerais em tudo que eles têm. De preferência, se a visita inclui um almoço no Casa Cheia, comandado pelo chef Ilmar. Daí, fecha com chave de ouro.”
3 - Automóvel Clube
“É um lugar que me fascina na cidade. A foto mais linda que tenho do meu pai (João Henrique Renault) foi tirada lá. Ele estava numa festa de carnaval no ano de 1932! Ainda sou sócia de lá, acredita? Herdei a cota que foi do meu avô René, nascido em BH em 1902.”
4 - Taste Vin
“Vou ao Taste Vin desde 1998, quando inaugurou, muito menor e com cardápio uma fração do que é hoje. Ninguém serve um filé como o Rodrigo (Fonseca, chef), os soufflés dele são inimitáveis e, os profiteroles, não há melhores nem na França. Da carta de vinhos, não há o que dizer. Vou sempre com o Mateus, mas também com as amigas ou com meus irmãos.”
5 - Clubes na infância
“Cresci indo aos fins de semana ora para o PIC Pampulha, ora ao Campestre, onde
jogávamos tênis. Isso foi antes de surgir o Belvedere e o BH Shopping… E ir lá era uma viagem na década de 70. Como eu passava férias, na maioria das vezes, em BH, tenho muitas lembranças das colônias de férias do PIC. Já natação, ginástica olímpica e carnavais quando criança foram no Barroca.”
6 - Gastronomia de BH
Neste quesito, Belo Horizonte até nos constrange para escolher … sou apaixonada pelo Macaréu, do Léo Paixão, e pelo Pacato, do Caio Soter. Já o Província di Salerno, frequento a vida inteira, o Remo (Peluso, antigo chef da casa, que morreu em 2022 de Covid) foi aluno do meu pai na faculdade. Eu amava o Zia Pippina também, que era do irmão dele, o Romano.”
7 - Minas Demais
“Gosto muito de me sentar para tomar café - da manhã ou da tarde - em lugares nos quais o tempo passa devagar. Particularmente, adoro o bolo de goiabada do Minas Demais, restaurante e empório que fica na avenida Bandeirantes. Aliás, lá também tem uma seleção de queijos mineiros que realmente é difícil superar"